Depois da II Guerra Mundial e das pilhas de cadáveres que a Europa ergueu como monumento involuntário, Deus teve de ser reimaginado. O Holocausto, os totalitarismos, a sensação de que a fé falhou no momento em que mais precisávamos dela — tudo isso forçou a teologia a olhar para o abismo e perguntar se ainda havia algo para dizer.

O denominado “Deus após-Auschwitz”, o “Deus depois da morte de Deus”, levou a uma redescoberta da fragilidade do próprio Deus, e isso acabou por construir um discurso voltado para a reconciliação com as próprias feridas. “O elogio da imperfeição” ou “Jesus Vulnerável”, livros que acentuavam esta dinâmica, mesmo que de maneira mais acessível e não tanto académica, foram, aliás, êxitos recentes de vendas em Portugal, no que ao setor dos livros de religião diz respeito. De forma legítima, quis-se eliminar o sufoco do perfecionismo moral geralmente confundido com santidade e reequacionar uma mundividência castradora, determinista e casuística da realidade, e isso teve um traço de enorme libertação para experiências, muitas vezes, traumáticas de relação com o mundo religioso. No fundo, era uma abordagem que encaixava na perfeição no otimismo dos primeiros anos do novo milénio. Depois da queda do muro de Berlim, não era só o mundo que se estava a reconstruir com base no comércio livre, na ordem liberal e na mútua integração. A própria reflexão religiosa falava de um Deus sensível, da fé como afeto.

Como disse, este foi um movimento extremamente importante, teologicamente fundamentado – como tudo também com os seus excessos e precipitações – e de inegociável importância, mas agora a roda parece ter girado. Quem se aproxima do Cristianismo, já não vem à procura de um Jesus terapeuta ou do que chamam mindfulness religioso. Vêm à procura de um herói, do Filho de Deus. Um Cristo de espada na mão pronto a cortar a cultura dominante. Se antes tentámos normalizar a santidade nos pequenos gestos do quotidiano, agora parece que a santidade exige músculo, resistência, capacidade de remar contra a corrente.

Há uns anos, um colega que fazia uma investigação sobre o Sofrimento de Deus, contava que, ao partilhar com os amigos o tema da sua tese de mestrado, uma das reações que escutava era: “E o que é que isso me interessa? De que vale saber que Deus sofre? Para que é que isso vale?”. Mas essas perguntas têm, hoje, uma declinação civil: De que é que adianta poder viajar, se não tenho como comprar uma casa? De que é que adianta viver em liberdade, se não tenho como equacionar um futuro? Para que é que serve o Estado Social, os fundos europeus, o que seja, se a minha vida não melhora substancialmente?

Para os cristãos, o contexto, a cultura e a natureza são pressupostos necessários à graça. E a verdade é que a mudança dos tempos, leva-nos a procurar, em Deus, coisas diferentes. Não porque Ele mude, mas porque nós mudamos o ângulo pelo qual O vemos. Este tempo, por isso, parece já não querer um Deus apresentado como frágil, carpinteiro, ou derrotado. Parece querer mais um Deus sem dúvidas, certo, salvador, sem rodeios. A mesma faixa etária que dantes procurava a “Paciência de Deus”, hoje quer a sua insurreição. E há razões para isso. Num mundo onde tudo é medido em lucro, algoritmos e “engagement”, qualquer ato que não caiba numa folha de Excel parece automaticamente heroico, e com heroico entenda-se, também, marginal.

É preciso uma certa robustez para recusar o uso da inteligência artificial, em detrimento da honestidade intelectual. É necessário um enorme esforço para deixar de colocar a roupa na Vinted, e doá-la sem esperar receber algo em troca. É indispensável um vigor incalculável para sair da armadilha do scroll e das Redes Sociais. É inevitável passar por louco, quando recusamos entrar na visão mercantilista do Natal. No fundo, não basta dizer que “Deus nos aceita tal como somos”.

Julgo, no entanto, que, como na comunidade política, o mal está na eliminação de um lado e na adoção unilateral e exclusiva do outro. A fragilidade purifica o “heroísmo” e livra-o do voluntarismo e da performance identitária. O “heroísmo” relança a fragilidade e salva-a de se tornar um fim em si mesma. Sem esta correlação, sem este conflito, ambos os lados perdem a sua dimensão mediadora, e transformam-se em possibilidades de alienação. O cristianismo não vive de monocromias. Quando um prevalece sozinho, o resultado é previsível: idolatria de si próprio, seja na forma de complacência, seja na forma de fanatismo.