As eleições no Reino Unido no próximo dia 7 de Maio são as mais imprevisíveis desde os anos de 1980 e terão consequências que irão certamente muito além da próxima legislatura, a qual paradoxalmente não deverá chegar ao fim.

Vamos por partes. Antes de mais, olhemos para a imprevisibilidade das eleições. Todas as sondagens mostram os conservadores e os trabalhistas muito próximos, e ninguém consegue prever quem ganhará. O Partido Trabalhista é em geral mais popular do que o Partido Conservador, mas David Cameron (líder dos conservadores) é bem mais popular do que Ed Miliband (líder dos trabalhistas). Além disso, os britânicos confiam mais em Cameron/conservadores para gerir a economia do que em Miliband/trabalhistas.

O sistema eleitoral britânico reforça a imprevisibilidade do resultado eleitoral. Pode acontecer que o Partido Conservador tenha mais votos e menos deputados, o que levaria Ed Miliband a primeiro-ministro. De qualquer modo, ganhe Cameron ou Miliband, nenhum dos dois partidos terá maioria absoluta. Ou seja, teremos ou um governo minoritário ou de novo um governo de coligação. Só há duas coligações plausíveis: a actual, entre conservadores e liberais; ou uma coligação entre trabalhistas e liberais. Estes dois cenários seriam os de maior estabilidade política, como demonstrou a legislatura que chegou agora ao fim. No entanto, o enfraquecimento do Partido Liberal não garante nenhum dos dois cenários. Os liberais podem não ter os votos suficientes para garantir qualquer das duas maiorias.

Restam assim os cenários dos governos minoritários, o que nos leva ao paradoxo pequena legislatura/grandes consequências. Comecemos com um governo minoritário dos conservadores. Um governo desse tipo só poderia existir se garantisse os votos necessários entre as oposições para passar o programa e os orçamentos. Isso aconteceria se nenhum dos partidos derrotados quisesse regressar às urnas rapidamente, o que seria um cenário plausível, mas que só duraria cerca de metade da legislatura.

No caso de uma “pequena legislatura” conservadora, o grande tema seria o referendo europeu. Cameron negociaria um novo acordo com a União Europeia, anunciaria eleições antecipadas – acrescentando provavelmente que não seria o candidato conservador a PM – e faria o referendo. E aqui chegamos às grandes consequências. Em primeiro lugar, um referendo sobre a União Europeia no Reino Unido pode levar à saída do país da União. Sem dúvida, uma consequência enorme. Mas as consequências não ficariam por aqui. Uma saída do Reino Unido da UE levaria fatalmente a um novo referendo na Escócia. E o mais provável, desta vez, seria um voto contra o Reino Unido, pela Europa. Ironicamente, ao contrário do que diz o UKIP, o referendo sobre a Europa seria indirectamente um referendo sobre o futuro do Reino Unido. A defesa da “soberania” do Reino Unido poderia levar ao seu fim.   

Poderia acontecer, ao contrário, uma vitória do sim à Europa – de resto, mais provável com os conservadores no governo a fazerem campanha pela Europa. Nesse caso, Cameron entraria na história do Reino Unido como o líder que ganhou um referendo sobre a Europa e que garantiu a sobrevivência do Reino Unido.

Se as eleições resultarem num governo minoritário dos trabalhistas, o futuro do Reino Unido estará também em jogo. Neste cenário, o Partido Nacionalista Escocês seria necessário para aprovar o programa de governo e os orçamentos. Seria de resto bastante irónico assistir um partido anti-união a garantir um governo para o Reino Unido. O que inevitavelmente levantaria questões existenciais, quer para o Reino Unido, como para o próprio partido trabalhista. Em troca do voto parlamentar, o SNP pediria contrapartidas em termos de autonomia escocesa que levaria a uma revolta inglesa e muito possivelmente a cisões entre os trabalhistas. A legislatura seria talvez ainda mais curta do que a de um governo minoritário dos conservadores. Mas as consequências políticas e constitucionais seriam enormes.

No dia 7 de Maio, saberemos o resultado das eleições britânicas; mas ninguém saberá como será o futuro do Reino Unido.