Alterações Climáticas

O termóstato humano /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
833

Quando sai uma notícia a dizer que Portugal é o 5º país da Europa onde é mais difícil aquecer a casa, na realidade quer dizer que somos o 5º país da Europa que melhor descarboniza. Parabéns a nós.

Quanto tempo demorou esta página a abrir? Se foram mais de 5 segundos, aposto que o leitor ficou impaciente. (Mais ainda ao perceber que esteve à espera para ler perguntas parvas). Se 5 segundos parecem muito, imagine 4,5 milhões de anos. É a idade da Terra. Tão velha, que, se fosse uma automotora, a CP pensava duas vezes antes de a usar.

Durante esses 4,5 mil milhões de anos, o clima foi sempre mudando. Ora ameno, ora tempestuoso, ora fresquinho, ora abafado. Há mais ou menos 300 mil anos, aparecemos nós. E o clima continuou a alternar entre quente e frio, farrusco e soalheiro. Eu sei, parece incrível, mas era assim que acontecia. Essas mudanças eram causadas pelo Sol, pelas nuvens, pela inclinação do eixo e pela velocidade de rotação da Terra, pelos raios cósmicos, pela composição da atmosfera, pelos oceanos e pelos vulcões, entre outras forças.

Funcionou assim até 1750, o início da Revolução Industrial. Subitamente, com o CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis, o clima passou a ser controlado pela humanidade. O resto, que trabalhara durante 4,499,999,731 anos, deixou de ter influência. É a única explicação para, agora, se achar que somos nós que mandamos no clima e que podemos alterá-lo à nossa vontade. No fundo, a humanidade é aquela criança que recebe um volante de plástico para colar nas costas do banco do condutor e, como o carro vira quando ela vira o brinquedo, julga que, a partir desse dia, é ela que guia o popó do papá.

Vivo com uma mulher friorenta que liga o aquecimento no máximo, e com 2 adolescentes que deixam as janelas sempre abertas. Se acho difícil controlar a temperatura de uma casa, é-me impossível compreender o conceito de controlar a do planeta. A ser verdade, a humanidade tem a obrigação moral de utilizar esse conhecimento para inventar um micro-ondas que aqueça a sopa por inteiro, em vez de ficar a ferver por cima e gelada em baixo, como uma feminista radical quando prega sobre masculinidade tóxica.

Mas vamos supor que a humanidade controla mesmo o clima e que o aumento de temperatura que, de facto, se verifica desde a Rev. Industrial é causado maioritariamente pelas actividades humanas. Suponhamos também que, tal como a fez subir, o Homem pode parar a sua subida. Basta aplicar o Acordo de Paris que, através de um encarecimento brutal da energia, limitará a 1,5°C o aumento da temperatura desde o fim do séc. XIX.

A questão é: para quê? É melhor ter apenas 1,5°C a mais, mas não ter dinheiro para ligar uma ventoinha? Ou é preferível que temperatura suba mais um bocado, mas haja ar condicionado em casa e nos transportes, frigoríficos, carros para nos levar à praia e computadores com Internet, para podermos ir ao Twitter insultar quem não acredita que o aquecimento global é culpa da humanidade?

É que a descarbonização exigida pelo Acordo de Paris vai acabar com a energia acessível e abundante. Energia essa que nos protege, justamente, dos cataclismos que, dizem, o aquecimento global já está a provocar. A diferença entre a aplicação ou não do Acordo é a mesma diferença entre os efeitos de um furacão na Florida e de um ciclone no Bangladesh: em ambos as populações põem-se em fuga, mas a forma como conseguem fugir é que é distinta. Na Florida é de carro em auto-estradas de 5 faixas; no Bangladesh é a pé por caminhos de lama. Quando não falecem nestas condições miseráveis (mas ecológicas), os bengalis vivem com um gasto energético virtuoso, próximo do que os proponentes do Acordo de Paris consideram ser o adequado para nós. Daí que, quando sai uma notícia a dizer que Portugal é o 5º país da Europa onde é mais difícil aquecer a casa, na realidade quer dizer que somos o 5º país da Europa que melhor descarboniza. Parabéns a nós.

(A propósito, já repararam que, mesmo nos filmes em que a Terra é destruída e há que emigrar para outro planeta, as naves que transportam a humanidade nunca são propulsionadas a vento? É sempre preciso queimar combustível. Nem a imaginação prodigiosa da ficção científica tem capacidade para fantasiar um cenário em que as renováveis salvam o dia).

Sempre houve cheias, tornados, secas e outros fenómenos climáticos extremos. E vai continuar a haver. A diferença é que agora temos mais e melhores meios para nos defendermos. Pelo menos enquanto não acabarem com eles: parece que a estratégia para nos protegermos dos cataclismos é deixar de usar o que nos protege de cataclismos. É como se Noé reunisse a família e anunciasse:

– Malta, falei agora com Deus. Parece que a Humanidade está a ser parva, de maneira que Ele vai mandar uma borrasca e disse para construirmos uma arca e meter lá os bichos todos.

– Vou buscar o serrote! – diz um dos filhos de Noé.

– E eu o martelo e pregos! – diz o outro.

– Nada disso – diz Noé. – Vamos cortar a madeira com golpes de karaté e colá-la com saliva.

– Isso é estúpido – dizem os filhos.

– Não, isso é transição energética – diz Noé.

– Vou ensinar os animais a nadar – diz a mulher de Noé.

É inegável que temperaturas têm aumentado nos últimos 150 anos. E é inegável que já aconteceram aumentos semelhantes ao longo da história, geralmente ligados a períodos de desenvolvimento civilizacional, como foi o caso do Período Quente Medieval. Também houve épocas mais frias, como a Pequena Idade do Gelo da qual saíamos há dois séculos, o que ajuda a explicar parte da subida. Daí que notícias como a da semana passada, sobre 2018 ter sido o 4º ano mais quente desde que começaram os registos em 1880, são irrelevantes. Significa apenas que dos 4,499,999,861 anos em que não se tomaram notas sobre a temperatura da Terra, este ano foi o 4º mais quente. Não devia chegar para nos obrigar a voltar ao Neolítico. Que foi uma época em que não se faziam registos anuais. Até porque não se sabia registar. Nem havia o conceito de “anos”.

A energia renovável é o futuro, mas, enquanto não se resolver a questão da intermitência e armazenamento, não pode substituir os combustíveis fósseis. Até lá, não faz sentido prescindir de energia acessível e barata. Como o demonstra esta nova conversa forjada com uma figura histórica. Desta feita, Gutenberg:

– Acabo de inventar a imprensa! Vamos exterminar os gansos, já não precisamos de penas.

– Mas quantas máquinas fizeste? – pergunta um amigo.

– Só uma.

– Chega para substituir a escrita à mão?

– Não, mas se já há um método novo, não faz sentido continuar a usar-se o antigo. É o futuro, pá. Aprender caligrafia é selvagem.

Este texto é o equivalente moderno da heresia. O discurso catastrofista, apoiado em previsões que têm falhado, mas são depois actualizadas para serem ainda mais assustadoras, é igualzinho às jeremiadas religiosas. “O mundo não acabou em 2010? Então vai acabar em 2020. E vai ser ainda pior!” A fórmula é a mesma: i) a humanidade tem-se portado mal; ii) a nossa geração é a que se tem portado pior; iii) o castigo será terrível; iv) mas a humanidade pode salvar-se, se corrigir comportamentos iníquos e assim apaziguar o Criador ofendido, neste caso, a Natureza. Portanto, há pecado, há Ser Superior, há profetas, há ameaça de fúria divina, há redenção e há aquele cheirinho a bazófia de “somos os escolhidos”. Há também fanatismo beato, como se vê na fúria com que atacam os blasfemos que se atrevem a duvidar da verdade revelada. Estou convencido que só não há autos-de-fé para não aumentar as emissões de CO2. E, claro, porque “auto” remete para o repugnante automóvel.

Resumindo – em mais uma aborrecida analogia para a qual peço paciência – o clima da Terra é como um transatlântico. A sua velocidade depende de muitos factores: do estado do mar, da condição dos motores, da sua potência, da visibilidade, da altura do dia, peso da carga, do número de passageiros, da qualidade do capitão e da tripulação. Mas alguém está convencido que, pendurando-se na proa como o DiCaprio no Titanic e soprando, consegue fazer com que o barco abrande. Só que esse alguém é uma criança. Asmática, ainda por cima. E, ao ver que os sopros não abrandam o barco, acha que a forma de melhorar a performance é deitar fora a bomba de asma.

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