Ao contrário dos antigos romanos, em cujas casas corriam rios de sangue e voavam pratos de lentilhas mas cujas aparições públicas se pautavam pela concisão verbal e pela solenidade do porte, os portugueses modernos tendem a exprimir as suas emoções em público. Nos seus quartos interiores só muito excepcionalmente se registam arrepios e sorrisos, e sempre interrompidos. Reagem às contrariedades domésticas como os povos marítimos reagiam às assaduras provocadas pela água salgada: com um silêncio selvagem.

Em público exercem porém simpatia com veemência. Não o fazem quando há pouca gente à volta. Tal como nas casas portuguesas sobressai a severidade dos pães-de-ló de azulejo, assim as sociedades comerciais e os transportes públicos têm em Portugal a calma dos jazigos. Os quotistas e os passageiros lêem ficção, teatro ou poesia; quase todos olham pela janela de soslaio. Ninguém procura a simpatia de quem se encontra nas mesmas circunstâncias.

O exercício da simpatia está reservado antes para as alturas em que aparecem na televisão, e em que portanto têm a certeza de que serão ouvidos por pessoas que nesse momento não estão a ver. Nunca se conseguiu apurar cabalmente que percentagem de portugueses terá aparecido na televisão; provavelmente ainda demasiado baixa. Não existe contudo entre os demógrafos qualquer dúvida de que todos os portugueses que aparecem na televisão a falar falam essencialmente de si; e que ao fazê-lo mostram simpatia por quem se encontra no uso da palavra.

A simpatia nacional tem o tom característico das situações em que o terror dos outros se exprime como piedade por si próprio. Começar uma frase na primeira pessoa do singular lembra de modo irresistível as coisas que nos aconteceram; e as coisas que nos aconteceram lembram de modo irresistível o facto de não termos sido tidos nem achados nesses acontecimentos. É essa desprevenção que suscita a nossa simpatia. Ao descrever um facto que se tenha presenciado, uma tragédia sobrevinda, ou uma opinião que se tenha segregado, a nossa vulnerabilidade cedo adquirirá proeminência; e fará eclipsar o que quer que tenha acontecido: tudo o que acontece neste mundo nos acontece.

A televisão tem a reputação de pôr quem a veja ao corrente de factos, opiniões e tragédias. A acusação não tem todavia fundamento, e não apenas porque os géneros maioritariamente aí cultivados são a ficção, a poesia e em particular o teatro. De facto, e visto que não é quase nunca possível calcular o que alguém irá sentir, a justificação para a televisão não pode ser o deleite do espectador. O maior serviço que a televisão presta é pelo contrário o de proporcionar a quem nela aparece a falar ocasiões de choradeira: dar azo ao apreço que quem fala sente por si próprio. São tais ocasiões públicas que permitem que, como os romanos antigos em privado, possamos finalmente exprimir as nossas verdadeiras emoções.