A disciplina de cidadania voltou para cima da mesa e desta vez não queria deixar passar a oportunidade de partilhar publicamente algumas considerações. Não só como filha do casal que levantou o debate sobre ela, mas como recém-licenciada em Educação Básica e futura professora.

Depois do que tenho visto não creio que a maior falha no nosso sistema educativo seja em relação à pouca abordagem em relação à sexualidade. O problema é mais profundo, mais estrutural, e as suas consequências estão à vista de todos: basta observar as “opiniões” que predominam no debate público.

Querem uma prova viva? Basta ler a secção de comentários da entrevista da SIC que saiu sobre os meus pais, no Instagram. O que ali se encontra não é debate, nem discordância esclarecida — é ruído, reação emocional, ataques pessoais. Raramente se encontram ali opiniões: na sua maioria são juízos precipitados, superficiais e tantas vezes desonestos, baseados em aparências e informações descontextualizadas. Para que um juízo possa ser considerado uma opinião legítima, exige-se um conhecimento profundo e sólido sobre o tema em questão, um esforço consciente para compreender as diversas nuances, contextos e argumentos envolvidos.

Talvez, se parássemos por um momento para refletir, ouvir e procurar entender antes de falar, a qualidade do debate público melhorasse significativamente. Opinar não é simplesmente manifestar uma ideia — é um ato responsável que pressupõe estudo, humildade intelectual e disponibilidade para reconhecer a complexidade das questões. Sem isso, o que temos são ecos vazios que apenas alimentam a polarização e o conflito, em vez de promover o entendimento e o progresso coletivo.

Esta incapacidade de compreender o outro antes de o julgar é, hoje, não apenas um sintoma do falhanço da educação em geral mas também um reflexo de um problema cultural mais vasto: a perda do valor da argumentação, da escuta e da dúvida bem formulada.

A escola não é – nem tem por que ser – o lugar de eleição onde se educa o carácter no âmbito moral ou ideológico. Esse lugar pertence, natural e geralmente, à família, e ainda ao conjunto da experiência pessoal, na qual a escola é apenas uma parte. Isto não significa que a escola seja neutra (o que é isso de ser neutra?). Pelo contrário: não pode abdicar do seu papel na promoção do respeito mútuo, da escuta e do debate civilizado. É precisamente nesse ambiente que se pode aprender a ler criticamente, a formular juízos ponderados, a avaliar informações com base na realidade e a pensar antes de falar. E pelo que vou vendo e ouvindo – e vai muito além deste assunto – ainda há muito caminho a percorrer neste sentido.

Aliás, convém lembrar que dentro da escola já existe – e não é de agora – uma disciplina que tem precisamente esta missão: a Filosofia. É nela que os alunos são desafiados a pensar com rigor, a distinguir argumentos válidos de falácias, a reconhecer a complexidade dos problemas e a exercitar o juízo ponderado. Não é por acaso que esta disciplina só é lecionada no ensino secundário — porque é aí que, em regra, os alunos, aliada a uma maior experiência de vida, começam a ter a maturidade cognitiva necessária para lidar com questões abstratas, éticas e existenciais de forma verdadeiramente crítica.

Pode ser que, antes de ensinarmos a ter opiniões, devêssemos assegurar que se aprende a pensar com clareza, o que não surge do improviso nem da exposição ocasional a ideias: exige estudo.

Mais do que incentivar opiniões espontâneas, importa cultivar o hábito de investigar: ir às fontes, à origem, compreender o contexto, interrogar o sentido das coisas. Isso requer humildade intelectual: reconhecer que não se pode falar com verdade sobre o que não se procurou compreender com profundidade.

Como futura professora, não quero formar alunos que pensem como eu ou como a maioria, mas alunos que saibam e queiram procurar a verdade por si. Quero dar-lhes as ferramentas para desenvolverem um raciocínio claro, exigente e honesto e, ao mesmo tempo, transmitir-lhes o encanto de compreender melhor o mundo, de ir além da superfície, de se deixarem mover pela curiosidade e pela procura da verdade.

Como filha dos meus pais reconheço o papel fundamental que tiveram na minha educação em todos os âmbitos (não se preocupem, também me falaram sobre sexo) e agradeço-lhes profundamente a formação para a liberdade que me deram.

Sei que, para alguns, pode ser tentador atribuir outras motivações a este texto; lamento informar que o texto foi escrito por mim e por minha livre vontade, ninguém me encomendou nada. Parece-me até que a obstinação de ver nisto outra coisa mais depressa validará o que escrevi. Mas estejam à vontade.