A “Comunicação” tem sido a palavra de ordem nas últimas semanas. Médicos, políticos e jornalistas dizem que a comunicação adotada pelo Governo português para além de insatisfatória tem contribuído para a falta de controlo da pandemia de COVID-19. A mensagem não é suficientemente clara, nem é repetida o número de vezes necessário, contestam. Também por causa disso, os cidadãos não sabem o que fazer, concluem. Como soluções, apontam: lembrar com mais frequência os comportamentos que as pessoas devem adotar; ter mais anúncios publicitários nas televisões e rádios, mais cartazes nas ruas, e pedir aos “influencers” nas redes sociais que digam aos mais jovens como se devem comportar. Mas a discussão tem esquecido um elemento importante: os próprios cidadãos.

O número de vezes que uma pessoa contacta com uma mensagem ou a simplicidade com que esta é transmitida contribuem, de facto, para uma maior disseminação da informação, mas isso, só por si, não significa que as pessoas alterarem comportamentos e atitudes. O conhecimento acumulado na área da Comunicação de Ciência mostra-nos que a realidade é complexa e que o  público não é uma massa homogénea e uniforme, um mero recetor passivo de uma injeção de informação para encher um qualquer vazio de conhecimento.

Esta ideia, com o sugestivo nome de “agulha hipodérmica”, propagada ainda nos anos 1930, está claramente desenquadrada da realidade. E o pensamento dominante na década de 1980 também está ultrapassado: assumia-se que se os cidadãos tivessem mais conhecimento científico apoiariam mais a ciência e teriam uma maior aceitação dos seus resultados. Mas já foi demonstrado que essa relação direta não pode ser estabelecida, porque existem outros fatores que influenciam a relação das pessoas com a ciência — como valores culturais, sociais ou económicos, mas também hábitos e crenças.

Comunicar ciência inclui comunicar incerteza

Comunicar ideias e conceitos novos em ciência e saúde não é simples. E acrescentar-lhe o fator de incerteza, inevitavelmente associado a um conhecimento em construção — ainda mais no desenrolar de uma pandemia — só contribui para a complexidade da situação. Mas a incerteza não é uma fraqueza da ciência, é uma das suas principais forças. A ciência é a procura constante das melhores respostas possíveis às perguntas que colocamos — às vezes, num tempo recorde, como temos visto no desenvolvimento das vacinas contra a COVID-19. Mas se a ciência se adaptou à exigência do momento, os decisores políticos, profissionais de saúde e a própria comunidade científica mostraram, muitas vezes, a dificuldade que têm em incorporar a componente da incerteza nas suas declarações.

Torna-se claro que existem aspetos a melhorar na comunicação governamental no âmbito da doença COVID-19. E não chega mudar o formato, como aconteceu nas conferências de imprensa do Ministério da Saúde e Direção-Geral da Saúde. É preciso mudar o conteúdo. Estas alterações, aliadas às repetidas contradições na adoção de medidas, sem referências clara quanto aos critérios que sustentam as decisões, são exemplos de uma falta de estratégia global de comunicação. Assentar a comunicação na culpabilização das pessoas é outra das grandes falhas na comunicação, porque os cidadãos não são o problema desta pandemia, são parte da solução. Além disso, atitudes paternalistas e sobranceiras de quem se sente detentor da razão, têm sido demonstradas como ineficazes na comunicação de ciência.

Uma associação que representa os comunicadores de ciência em Portugal

Sabemos que não existe uma solução fácil e rapidamente aplicável. O que advogamos, enquanto Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal (SciComPt), é que as estratégias adotadas pelo Governo devam estar baseadas nas melhores evidências disponíveis e contar com o contributo de equipas multidisciplinares, cuja composição deveria ser pública e incluir membros da comunidade científica, profissionais de saúde, autarcas, representantes da sociedade e membros da comunidade de comunicadores de ciência. Estes últimos, capazes de contribuir com a sua experiência na comunicação de conteúdos de cariz científico aos cidadãos.

Enquanto Rede, as nossas competências estão descentralizadas pelos seus vários membros e por todo o país. Muitos destes membros estão integrados em universidades, centros de investigação, centros de ciência, museus de história natural, órgãos de comunicação social e outras organizações, com o objetivo de levar ciência aos cidadãos.

A associação promove a formação e intercâmbio entre comunicadores de ciência, e, entre os objetivos, estão também a promoção da Comunicação de Ciência em todas as suas vertentes e o incentivo à participação informada dos cidadãos em todas as questões que envolvam ciência.

A Comunicação de Ciência terá ainda muitos desafios para ultrapassar e uma grande parte deles relacionado com a pandemia — e as tão aguardadas vacinas contra a COVID-19 são um dos exemplos. O Governo garante que a comunicação fará parte da estratégia de vacinação contra a COVID-19. Mas a própria comunicação precisará de uma estratégia, que se dirija aos eventuais receios das pessoas quanto à segurança e nível de eficácia das vacinas, que torne claro porque é que determinados grupos são prioritários ou não e que explique com transparência como se definiram os critérios de distribuição. Sabemos que não é uma tarefa fácil, mas será mais eficaz se envolver todos os intervenientes, sem esquecer, naturalmente, os comunicadores de ciência.

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