Na Divina Comédia, Dante imagina um inferno composto por nove círculos, o mesmo número de andares que tem este cruzeiro à minha frente. Sempre que passo por Santa Apolónia, fico a admirá-los. Quando toca a buzina, apetece-me responder à chamada e aparecer, talvez por imaginar uma espécie de turismo de terror — um preconceito que Ruben Östlund apenas veio aumentar em mim. Olho para cima: o navio é imponente e premium, provavelmente esconde uma piscina com escorrega no topo (ou várias), restaurantes, lojas, salões, quartos de luxo e casinos. A imaginação sugere que tente corresponder um tipo de pessoa a cada andar.
Enquanto não compro um bilhete, fica o meu exercício:
1.º andar – Os que comem pastel de nata com colher
Este é o andar menos terrível e é uma escolha obviamente parcial, pois incluo-me aqui. Somos os adulteradores da instituição que é o pastel de nata, pecadores olhados de lado em cafés e pastelarias por nacionalistas ferozes. Mas, apesar da condenação eterna, escolhemos levar a nossa avante. Gostamos de esburacar o pastel e até somos capazes de utilizar aquelas colheres de cabo longo. Podia ser pior.
2.º andar – Os que buzinam assim que fica verde
São conhecidos por aumentarem os índices de ansiedade, quando podiam só aprender a esperar. Têm a mão sempre pronta para disparar o beep beep e a sua vida baseia-se na pressa de ir a lado nenhum. Fica uma ideia: a cada buzinadela precipitada, cairia sobre estes condutores uma maldição (chamemos-lhe a maldição de Cortázar) em que teriam de se sujeitar a um engarrafamento ao longo de vários dias (A autoestrada do Sul, Todos os fogos o fogo, cavalo de ferro).
3.º andar – Os cobradores
— Em 1870, fiz uma coisa por ti, por isso agora tens de fazer uma coisa por mim.
4.º andar – Reclamo, logo existo
Sentem prazer em reclamar e têm o olho treinado para o erro alheio, sobretudo para poderem exercer essa sua paixão. Na primeira temporada de White Lotus, encontramos um exemplo adequado: Shane, um homem rico e mimado que não aceita perder. É comum encontrar esta espécie em restaurantes, hospitais e lojas de centros comerciais.
5.º andar – Os cheios de si
Sim, mas eu. Pois, mas eu. Claro, mas eu. Eu, eu, eu, eu, eu.
São o centro do mundo, mas apenas do seu.
6.º andar – Os parasitas dos transportes
São aqueles que não esperam que os outros saiam do metro ou do comboio. Posicionam-se à frente da porta e, assim que abre, ligam o modo picareta e furam. Se lhes dissermos alguma coisa ou os empurrarmos, sentem-se injustiçados. Há dias em que poderiam perfeitamente subir ao 9º andar, tal é a raiva que provocam.
7.º andar – Os que se sentem felizes ao ver os outros tristes
“A tia Claris diz que quanto mais deprimido Walter está, mais felizes se sentem as pessoas que estão à sua volta” (Samanta Schweblin, Pássaros na boca, elsinore).
8.º andar – Os hipócritas
Levantam todas as bandeiras possíveis, mas são incapazes de mudar o metro quadrado em que se inserem. Não suportam o fascismo, mas oprimem. Estão convictos de que uma fotografia nas redes sociais diz mais sobre eles do que o comportamento diário.
É possível que o seu poema favorito comece assim: “Só gosto das pessoas boas”. Perdoa-os, Adília.
9.º andar – “Os que dão aos que têm e tiram aos que não têm”
Retirei a frase do livro “Se isto é um homem”, de Primo Levi, uma referência do autor às estruturas e hierarquias dos campos de concentração. Com a devida distância, percebe-se que o lager tem semelhanças com certos comportamentos sociais atuais, onde aquele que mais possui engole aquele que possui menos.
A estes é preciso não perdoar.