No sábado, Luís Montenegro utilizou uma velha regra de prudência quando se fazem previsões. Ao apontar objectivos para a evolução dos salários falou de montantes, mas não se comprometeu com datas.

Para o salário mínimo, o primeiro-ministro disse que é realista vê-lo nos 1600 euros por mês (no próximo mês será actualizado para 920 euros). E para o salário médio falou de “2500, 2800 ou 3000 euros” (o valor actual da remuneração bruta total mensal média por trabalhador é de 1.700 euros).

É muito? É pouco? Depende do tempo que levarmos a chegar lá. Para já, a data é indefinida, o que torna mais fácil o exercício de previsões. Teremos que esperar mais um tempo para ter esse calendário, a acreditar no que disse Montenegro: “É mesmo realista, é mesmo realista, não tenha dúvidas nenhumas. Vamos calendarizá-lo, quando tivermos os alicerces para isso”.

Ainda assim, não demorou até choverem críticas. A CGTP falou de “um acto desesperado” e “um insulto” aos 2,5 milhões de trabalhadores com menos de 1000 euros (antes de impostos). António Filipe, do PCP e candidato presidencial, disse que era uma tentativa de desmobilizar a greve geral marcada para esta quinta-feira. E o líder do PS, José Luís Carneiro, acusou o primeiro-ministro de estar a “lançar uma cenoura” aos trabalhadores.

Será que os números lançados por Montenegro são assim tão ambiciosos, inatingíveis e demagógicos, como acusa a oposição? Ou são “mesmo realistas”, como defende o próprio?

Mais uma vez, o factor tempo é fundamental. Se estivermos a falar do final desta década, a oposição tem razão. Se olharmos para um horizonte mais largo, o primeiro-ministro estará certo.

Vamos fazer umas contas simples. No caso do salário mínimo, o aumento médio anual dos últimos 10 anos foi de 5,6%. Será precisamente essa a taxa de crescimento média anual que o salário mínimo tem que registar para chegar a 1600 euros por mês daqui a outros 10 anos. Ou seja, basta repetir o padrão que se verificou desde 2015 e o número apontado por Luís Montenegro será atingido em 2035.

Em relação ao salário médio, o cenário é mais exigente. Primeiro porque ele não depende apenas de um decreto assinado pelo governo, como acontece com o salário mínimo. Depende de milhões de decisões que empresas e trabalhadores tomam nas suas negociações salariais. Depois, porque para chegar aos 3000 euros mensais terá que acelerar o passo em relação à evolução da última década e isso está mais refém das condições de evolução da economia – crescimento, preços e mercado de trabalho, sobretudo – do que da vontade de qualquer político.

Se excluirmos o anormal ano da pandemia, em que os salários médios caíram 2,8%, a taxa de crescimento média foi de 4,5% ao ano desde 2015. Se este ritmo for mantido, teremos o salário médio bruto mensal a chegar aos 3000 euros no prazo de 13 anos.

E com aumentos anuais compostos de 5,84%, o salário médio atingiria precisamente 3.000 euros no final do décimo ano.

O Excel diz-nos então que o cenário traçado pelo primeiro-ministro não é estratosférico, ao contrário da percepção geral. Neste caso, somos traídos pela armadilha mental que nos leva a desvalorizar o efeito de taxas de crescimento compostas (em que o crescimento do ano seguinte também se aplica ao crescimento do ano anterior, e por aí fora).

Isso não quer dizer que estes níveis salariais venham a ser atingidos, sobretudo os do salário médio. Vamos ver se as condições económicas o permitem. E  ainda que venham a ser conseguidos, o seu valor real para os trabalhadores vai depender da evolução da inflação, dos impostos e da parte destes aumentos que ambos vão “comer” – não nos esqueçamos que estamos a falar de valores brutos.

Também não ficaremos ricos de repente se este cenário se concretizar. Hoje há já sete países da zona euro com salários médios brutos acima de 3.000 euros por mês e a Espanha anda pelos 2.400. Estamos, portanto, uma década atrasados. E os outros países não vão ficar parados.