Não estive em directo no último Prós e Contras. A minha participação nesse programa limitou-se a uma pequena intervenção filmada e gravada uns dias antes, na qual eu disse duas coisas: em primeiro lugar que há um exagero na susceptibilidade e reactividade de várias pessoas negras, de forma que qualquer reparo que lhes seja feito é imediatamente visto e sentido como uma manifestação de racismo; afirmei, em segundo lugar, que, num cômputo geral, Portugal não é racista e que é errada a teoria muito difundida segundo a qual o país teria forçosamente de o ser por ter estado longamente envolvido no tráfico transatlântico de escravos e num império colonial. O historiador Francisco Bethencourt, que esteve em directo no Prós e Contras, não gostou dessa minha intervenção. Considerou que ela revelava “enorme insensibilidade ao fenómeno racista” e que era inaceitável por ser um “processo de branqueamento dos problemas racistas”. Seria, além disso, errada por eu (alegadamente) querer “dizer que o passado é o passado e não tem qualquer reflexo no presente”.

Mas Francisco Bethencourt está a ver mal e a pensar pior. O facto de Portugal ter estado envolvido no tráfico de escravos, de ter tido um império colonial e de, em determinado momento da sua história, ter tido uma política orientada segundo ideologias e sentimentos racistas, não significa que os tenha agora. As sociedades podem arrepiar caminho, e muitas vezes fazem-no. Pense-se, por exemplo — e talvez seja esse o melhor exemplo —, nas atitudes ocidentais face à escravatura. Durante três a quatro séculos as sociedades europeias que estabeleceram colónias nas Américas estiveram profundamente envolvidas no tráfico de escravos e na exploração do trabalho de africanos em plantações, minas, etc., e conviveram com isso sem grandes objecções ou questionamentos. Mas a partir do último terço do século XVIII essas mesmas sociedades começaram a inverter a sua visão e a sua prática, no que à escravatura diz respeito. É preciso relembrar mais uma vez que foram as sociedades ocidentais que primeiro a rejeitaram e combateram. Depois da sua abolição houve outras formas de coerção e de exploração violenta do trabalho? Sim, houve. Mas também dessas práticas as sociedades ocidentais se foram demarcando e desviando. Francisco Bethencourt não vê esse lado positivo da História, ou se o vê desvaloriza-o. Já lhe fiz esse reparo em artigos a que preferiu não responder e volto a fazê-lo aqui. Bethencourt acusa-me e a outros de fazermos “branqueamentos” sem se dar conta de que é ele que faz óbvios “escurecimentos”. Não tem a visão calibrada. É uma espécie de permanente advogado de acusação do passado.

De qualquer modo, o que importa dizer e sublinhar é que não ficamos marcados para todo o sempre e de forma indelével por antigas práticas condenáveis. Ao contrário do que Francisco Bethencourt pensa, não estou com isto a rejeitar o peso e a importância da história. Estou apenas a tentar que as pessoas olhem para um quadro mais completo, mais pleno, do que aquele que muitas vezes lhes é mostrado. É que se o tráfico de escravos é história, a sua abolição e os valores que a ela se associaram também o são. É tanto história o navio negreiro que carrega 300 escravos em Luanda como o esforço de um Sá da Bandeira para pôr fim à escravatura. É tão importante a data da chegada dos primeiros escravos negros a Lagos, como aquela em que Portugal começou efectivamente a apresar navios negreiros no mar. É tão histórica a atitude dos brancos que toleravam o comércio de homens como a dos que passaram a abominá-lo, a considerá-lo incompatível com a civilização, e a olhar os negreiros como Alexandre Herculano os olhava, isto é, como criaturas a quem se devia “negar o sal e o lume, a água e a hospitalidade” e das quais se devia fugir “como de empestados”. Francisco Bethencourt estará eventualmente esquecido de que houve gente no século XIX que escreveu nos jornais, discursou e legislou nas Cortes, ou andou nos navios de cruzeiro a combater pela libertação dos escravos negros. Isso também faz parte da nossa história e reverte ou atenua o que de lamentável havia na história anterior.

E o que neste contexto é válido para Portugal é igualmente válido para muitos outros países e situações. Pense-se, por exemplo, no caso alemão. Não é pelo facto de ter existido nas décadas de 1930-40 um regime hitleriano, com todas as suas violências e atrocidades, que a Alemanha tem actualmente de ser nazi. Estou firmemente convencido de que o não é e de os alemães, no seu conjunto, o não são, o que não quer dizer que não existam nazis entre eles. O mesmo se passa quanto ao racismo entre nós. Portugal não é, globalmente falando, um país racista, o que não exclui que existam portugueses que o são. Mas a nossa história colonial não nos condena inapelavelmente ao racismo. Tivemos um império? Sim, mas já não temos. Envolvemo-nos no tráfico de escravos? Envolvemos, mas há muito que já não estamos envolvidos. Tudo isso está no passado. Esse passado deixou marcas? Sim, sem dúvida, mas é preciso perceber que também dinamizou diversas alterações ao nível das ideias, das sensibilidades e dos procedimentos.

Talvez seja por isso que o teor de racismo em Portugal é relativamente baixo a acreditar num recente estudo da União Europeia (Being Black in the EU). Esse estudo passou despercebido porque não resultou naquilo que os auto-proclamados anti-racistas querem ouvir, mas é muito interessante porque mostra que tanto Portugal como o Reino Unido — que também teve um império colonial e um envolvimento extenso e profundo na escravatura —, apresentam níveis diminutos de comportamento racista quando comparados com países como a Finlândia ou o Luxemburgo, que não tiveram impérios coloniais nem envolvimento no comércio negreiro. Ou seja, uma coisa não é necessariamente consequência da outra. É por todas estas razões que Portugal não é nem pode ser prisioneiro das partes negras da sua história. As pessoas demarcam-se, inflectem, rejeitam, mudam, e as sociedades também. Mas para o percebermos é preciso abrir os olhos, pôr o cérebro a trabalhar e pensar fora da caixa, em vez de nos limitarmos a repetir chavões.

PS: Não quero terminar este artigo sem referir que, na sua aparição no Prós e Contras, Francisco Bethencourt foi pouco rigoroso com factos e números, o que é sempre um pecado num historiador. A sua afirmação de que “Portugal esteve envolvido no tráfico de seis milhões de escravos” para as Américas, por exemplo, está errada, como já referi por diversas vezes. Resulta do facto de ter adicionado os quantitativos de Portugal (4,5 milhões) aos do Brasil independente (1,3 milhões) e de ter arredondado para cima, o que mostra bem em que sentido vai o viés ou parcialidade da sua visão. É o tal “escurecimento” da história a que eu me referi acima.