O atual sistema internacional, caraterizado por uma multipolaridade assimétrica e pelo recrudescimento da competição entre grandes potências, impõe à União Europeia um imperativo categórico: a redefinição ontológica do seu papel como ator global. O paradigma em que a Europa operava exclusivamente como uma potência normativa, alicerçada no soft power e no multilateralismo institucional, revela-se hoje obsoleto perante a instrumentalização geopolítica das interdependências.
Neste contexto, o conceito de Autonomia Estratégica transcende a mera retórica para se assumir como o eixo basilar da sobrevivência europeia. Historicamente, a UE delegou a sua matriz de segurança na hegemonia norte-americana e a sua base industrial e tecnológica no continente asiático, inebriada pelo postulado liberal de que a interdependência económica suprimiria a conflitualidade. A atual conjuntura de alta intensidade bélica no Leste europeu e a crescente fratura sino-americana desmoronaram esta premissa. Para se afirmar como um polo de poder credível nas Relações Internacionais, a Europa tem de aliar à sua proeminência diplomática e económica uma dimensão tangível de hard power.
A edificação de um pilar europeu de Defesa autónomo e robusto constitui, assim, a condição sine qua non para a emancipação geopolítica do Velho Continente. Esta transição exige a consolidação de uma Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB) sistémica, interoperável e dotada de real capacidade de dissuasão. Uma União desprovida de capacidades endógenas para assegurar a defesa do seu próprio espaço territorial e a projeção de estabilidade na sua vizinhança será, invariavelmente, remetida para a irrelevância e para a subalternidade estratégica.
Todavia, a literatura clássica das Relações Internacionais e da Geoeconomia demonstra que a projeção de poder externo é indissociável da vitalidade económica interna. É nesta interseção que a prosperidade e a capacidade de inovação se assumem como variáveis críticas de segurança nacional e supranacional. O relatório elaborado por Mario Draghi sobre a competitividade europeia fornece o diagnóstico empírico e macroeconómico desta urgência. O documento expõe, com acuidade analítica, o declínio relativo da Europa face aos Estados Unidos e à China em indicadores nevrálgicos de produtividade, desenvolvimento tecnológico e ganho de escala de mercado.
O desafio que se coloca aos decisores europeus deixou de ser de natureza diagnóstica para passar a ser estritamente executivo. A arquitetura institucional da UE padece de uma patologia crónica: a propensão para o arquivamento de visões prospetivas, cristalizando-as nas “gavetas” da inércia burocrática e do veto intergovernamental. Caso o relatório Draghi venha a sofrer o mesmo défice de materialização que vitimou iniciativas passadas, como a Estratégia de Lisboa, as repercussões extravasarão a mera estagnação económica, culminando numa vulnerabilidade estratégica estrutural e irreversível.
A soberania tecnológica é o novo campo de batalha. Não haverá autonomia sem a liderança europeia em tecnologias de duplo uso, na inteligência artificial e numa transição energética assente em cadeias de valor robustas. A concretização célere das recomendações de Draghi, que pressupõe o aprofundamento do mercado único e uma mobilização de capital sem precedentes, é o mecanismo vital para forjar uma Europa simultaneamente próspera e resiliente.
Em suma, a União Europeia encontra-se num ponto de inflexão histórico. O abandono do idealismo ingénuo em prol de um realismo pragmático não representa uma negação do projeto europeu, mas a sua derradeira prova de maturidade. Transformar os diagnósticos económicos em políticas públicas consequentes, rejeitando a letargia institucional, e assumir o ónus soberano da própria defesa são os passos definitivos para que a Europa deixe de ser o tabuleiro da política internacional para se afirmar como um verdadeiro jogador no xadrez global.