A política externa portuguesa parece ter atingido um pico preocupante de dissonância cognitiva. Nas últimas horas, assistimos a um retrato perfeito de esquizofrenia estratégica: por um lado, a União Europeia, com o aval indispensável de Portugal, aprova um pacote massivo e histórico de 90 mil milhões de euros para garantir a sobrevivência militar da Ucrânia, por outro, o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, defende abertamente o diálogo com Moscovo e questiona a abertura de Vladimir Putin do G20.
A posição de Montenegro levanta questões profundas sobre a orientação moral e estratégica do atual Governo Português. O argumento de que “é preciso falar com a Rússia” e de que a expulsão dos fóruns internacionais não foi o melhor caminho apoia-se numa visão clássica da diplomacia. Em teoria, a diplomacia existe precisamente para dialogar com adversários e manter pontes em tempos de guerra. Contudo, defender o regresso de Putin à mesa do G20 sem exigir, em contrapartida, qualquer recuo militar no terreno ucraniano não é pragmatismo, é um apaziguamento confrangedor.
O G20 não é uma mera sala de conversações informais, é o principal fórum de governação económica mundial. Sentar Vladimir Putin nessa mesa, ao lado das maiores democracias do mundo, enquanto os seus exércitos continuam a bombardear infraestruturas civis e a redesenhar as fronteiras europeias pela força, é um ato de legitimação. É enviar ao Kremlin a mensagem de que a agressão territorial contínua é apenas uma nota de rodapé tolerável nas relações internacionais.
O paradoxo na posição do líder do Executivo português torna-se gritante quando cruzado com o esforço financeiro do continente. Como pode o Estado português alinhar nos pesados sacrifícios orçamentais exigidos aos cidadãos europeus — materializados nestes novos 90 mil milhões de euros — para financiar o esforço de guerra em Kiev e, na mesma respiração política, sugerir a reabilitação diplomática do arquiteto dessa mesma destruição? O dinheiro europeu serve, em grande medida, para comprar armamento para defender os valores que Putin quer destruir. Normalizar o agressor desvaloriza o sacrifício de quem resiste.
Há um vício antigo na diplomacia portuguesa: o complexo de sermos eternamente os “construtores de pontes” e os “bons alunos” do diálogo a qualquer custo. Montenegro parece tentar encarnar a figura do estadista maduro, capaz de ver além do momento presente. Mas, na política de potências atual, construir uma ponte para um líder com ambições imperiais não convida ao diálogo, convida à travessia das suas tropas.
Este duplo jogo revela uma inquietante ambiguidade. Ao aplaudir o envio de robusta ajuda financeira e militar por parte de Bruxelas e, em simultâneo, emitir sinais de cedência e normalização institucional a partir de Lisboa, a coerência da posição portuguesa dissolve-se. A mensagem que se envia a Moscovo é de fraqueza e exaustão. A verdadeira paz, duradoura e justa, constrói-se com firmeza e dissuasão, e não recompensando o agressor com um lugar de honra à mesa enquanto a Europa continua a pagar a pesada fatura da guerra que ele escolheu começar.