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FOTO: Francisco Romão Pereira/OBSERVADOR
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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

"Só uma em cada cinco empresas inovadoras emprega doutorados. E só uma em cada 10 colabora com a academia", critica Cotec Portugal

Jorge Portugal, da Cotec, dá nota "insuficiente" à aplicação das propostas de Draghi e, também, à aplicação do PRR nas empresas. Mas diz confiar que a Europa – e Portugal – têm "pernas para andar".

“A Europa perdeu algumas batalhas mas não perdeu a guerra”. Jorge Portugal critica a lentidão no aplicar das propostas de Mario Draghi, no histórico relatório publicado há pouco mais de um ano, mas o diretor-geral da Cotec Portugal mostra-se otimista de que o Velho Continente vai conseguir garantir um lugar de relevo na economia global nas próximas décadas: “A Europa tem talento, os europeus não são menos capazes que os americanos ou os chineses, falta é eficiência, escala e velocidade“. “A inovação é velocidade. E, nas novas tecnologias, um ano de atraso pode significar uma década de atraso…”, salienta.

Em entrevista ao Observador, o especialista na área da inovação também considera que, embora tenha sido dito que o “PRR empresarial – e nomeadamente na área da inovação – seria transformador da economia portuguesa, nós não estamos ainda a ver essa transformação“. Mas há sinais positivos, afirma Jorge Portugal, de que as empresas estão a “perceber que só se irão manter competitivas se continuarem a investir em inovação”.

Ainda assim, o que continua a faltar é uma maior ligação entre as empresas e as universidades – e é desanimador, afirma Jorge Portugal, que muitas empresas continuem a ignorar a importância de qualificar os seus quadros, designadamente contratando mais doutorados. “Das empresas inovadoras, apenas uma em cada cinco tem pelo menos um doutorado nas suas áreas de inovação. Ficará surpreendido se lhe disser que menos de uma em cada 10 empresas inovadoras – com esse estatuto – colabora com a academia”, lamenta o diretor-geral da Cotec.

“Execução do Relatório Draghi está a ficar aquém das expectativas”

Está por este dias a cumprir-se um ano após a publicação do chamado Relatório Draghi, que na altura causou bastantes reações pelos diagnósticos que fez sobre a economia europeia. Um ano depois, sente que alguma coisa mudou de facto?
Eu diria que mudou o discurso, mas não a velocidade. O Relatório Draghi foi antecedido pelo relatório de um político, Enrico Letta, e por um relatório de um académico, Manuel Heitor. E o Relatório Draghi foi beber muito a esses trabalhos anteriores, dando à Europa o diagnóstico certo: precisamos de investir em inovação, inovação na linha da frente, e temos de simplificar o mercado. Mas o que aconteceu, desde então, é que a execução ficou aquém daquilo que eram as expectativas.

Porquê?
Estima-se que só 11% das recomendações foram aplicadas. E eu diria que faltam três coisas: falta coordenação, escala e sentido de urgência. Draghi disse mais ou menos isto: a Europa tem ideias, tem capacidade de produção científica, mas não tem o tempo dos outros blocos. Os outros blocos são muito mais rápidos, nomeadamente, o bloco americano e, cada vez mais, o bloco chinês. O desafio é exatamente esse: é passar do consenso à execução.

Mas porque não tem acontecido essa execução?
O Relatório Draghi diz que a Europa reage bem a crises – e nós vimos isso na pandemia, na crise energética, nos conflitos armados – mas tem dificuldade em planear estruturalmente. Um dos aspetos em que o próprio Relatório Draghi é parco, ao contrário de outras secções, é na questão do investimento de 800 mil milhões de euros que é necessário fazer para alinhar o investimento em investigação e desenvolvimento com os outros blocos. Quando nós olhamos para os EUA, que lançam pacotes de biliões para incentivar a inteligência artificial…

E que vão logo para o terreno…
Vão logo para o terreno, ao passo que nós, na Europa, ainda estamos a discutir procedimentos. Precisamos de uma política industrial com calendário, com urgência e não apenas com intenções…

E com dinheiro…
E com dinheiro. E, aí, o Relatório Draghi fala daquilo que é a união das poupanças. Ou seja, há capital na Europa, o que não está é organizado para o investimento e nomeadamente investimento com maior apetite de risco. É necessário um mecanismo de cooperação entre investimento privado e garantias públicas, principalmente nas áreas onde, tecnologicamente, é necessário investir, mas onde o risco é maior.

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“As empresas quando se querem internacionalizar na Europa têm uma enorme dificuldade”

Olhando para o relatório, desde a altura em que o leu pela primeira vez, parece-lhe que é exequível e realista?
É um documento realista e exequível. O grande problema é que, quando olhamos para os 11% da execução, pode-se perguntar: isto é falta de vontade política ou é burocracia? Eu diria que isto é muito mais estrutural do que político. Porque cada país tem o seu sistema jurídico, o seu sistema fiscal, e isso cria 27 velocidades diferentes. E nós vemos que as empresas quando se querem internacionalizar ou estabelecer em outras jurisprudências na Europa têm uma enorme dificuldade. Daí a proposta de um 28.º Regime Europeu, que é uma espécie de estatuto jurídico europeu único e opcional. Esta questão do “opcional” é muito importante, porque é a forma de as empresas poderem optar estarem numa lógica jurídica supra-nacional – e só opta quem quiser – que lhes vai permitir ter uma identificação única, ter direito de estabelecimento e ter a harmonização fiscal, um sistema fiscal coerente em todas as jurisdições. Essa é a parte mais importante e que vai, provavelmente, gerar mais discussão.

Isso está iminente, a criação desse 28.º regime?
É algo para que olhamos numa perspetiva de médio prazo, talvez a cinco ou a 10 anos, para ter resultados concretos. Mas há quick wins [avanços intercalares rápidos] e se nós estivéssemos sentados na cadeira da Comissão Europeia, exigiríamos imediatamente isso.

Quais quick wins?
Primeiro, a questão da interoperabilidade europeia, que é uma empresa poder ser reconhecida nas suas certificações, na sua informação empresarial, em qualquer jurisdição. Isso é um tema que, por exemplo, está a ser discutido em termos nacionais e que o próprio ministro [adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias] já anunciou. O segundo é o “only once” (apenas uma vez), ou seja, uma informação que uma empresa prestou numa jurisdição, por exemplo em Portugal, não tem de voltar a prestar em Bruxelas ou Espanha ou noutro sítio qualquer. Imagine uma startup onde, fundamentalmente, o foco é encontrar um caminho para o mercado, uma nova solução tecnológica, isto daria a receita para poder operar sob o mesmo conjunto de regras.

Poderia fazer a diferença nesses casos?
Não seria revolucionário porque, na prática, estamos a falar das empresas que queiram optar por este regime, este estatuto de empresa europeia (não só no nome mas, de facto, na componente jurídica). Mas é a via prática para contornar um labirinto institucional que existe neste momento na Europa e que não existe, por exemplo, nos EUA.

Mas chama-lhes quick wins, vitórias rápidas, coisas fáceis de fazer. Porque é que não são feitas? Não é preciso dinheiro, ou é?
Não. Eu diria que há uma questão técnica, do ponto de vista de sistemas. A interoperabilidade é também um tema de sistemas, de comunicação entre sistemas, e isso pode ser resolvido. E é um tema, também, jurídico – isto é, poder reconhecer que uma empresa que é constituída juridicamente em Portugal pode operar em qualquer outra jurisdição. Eu iria por fases. Depois, há o tema da questão fiscal, porque obviamente pagar impostos em Portugal não é mesma coisa de pagar no Luxemburgo… Mas isso poderia ficar para uma fase subsequente.

Ganho de produtividade poderia equivaler a “criar mais um país como a Hungria a produzir”

Olhando para Portugal, que lições concretas é que tirou desse relatório na altura que leu – e também o acompanhamento que tem feito desde então. O que é que este relatório significa para uma economia como a nossa que é tão dependente de empresas de pequena e média dimensão (PME)?
Eu diria que esta combinação entre investimento em investigação, desenvolvimento e inovação, juntando com a questão da desburocratização, com a simplificação administrativa, são dimensões estratégicas que para Portugal seriam absolutamente fundamentais. E o mercado único não é verdadeiramente único, porque uma empresa tem de cumprir 27 legislações diferentes. Ora, uma empresa pequena de Portugal a ter cumprir 27 legislações diferentes, se quiser internacionalizar-se… isso mata logo a escala ao princípio.

E é só esse o problema?
Também há uma questão cultural, porque o investimento e financiamento de inovação, nomeadamente por fundos, family offices, são fortemente avessos ao risco na Europa, muito mais avessos do que nos EUA. E isso o que é que faz? Fundamentalmente, inovar muito mas crescer pouco. Para Portugal isto é um game changer, porque vemos que hoje Portugal está num momento particularmente importante do financiamento da economia da inovação. O que não é a mesma coisa que dizer “financiamento da economia”. Financiamento à economia da inovação significa investir em inovação nas empresas capazes de entrar em novas dimensões tecnológicas e, com isso, criar valor, criar rentabilidade e criar crescimento internacional e diferenciação.

▲ "O mercado único não é verdadeiramente único", diz Jorge Portugal, diretor-geral da Cotec Portugal. FOTO: FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

É possível calcular o impacto que isto pode ter, essa desburocratização?
A Cotec fez algumas contas, com base em indicadores europeus, acerca do custo da burocracia. No fundo, estimar o que é que se poderia libertar com a aplicação destas três condições – interoperabilidade, reconhecimento automático e simplificação fiscal – e concluímos que só em termos de compliance as empresas na Europa podiam poupar 100 horas por ano, todos os anos, o que significava, tipicamente, 1% do Produto Interno Bruto (PIB) europeu, ou seja criar um país como a Hungria a produzir, dentro da economia europeia. E também não era muito difícil estabelecer objetivos nesta matéria.

Quais?
Por exemplo, neste momento estamos a calcular que o custo de compliance para uma empresa média europeia, seja pequena ou grande, são 300 horas, este é o nosso cenário central em 2025. Em 2027, daqui a dois anos, podíamos ter menos 20%, as tais 100 horas a menos. Em 2030, podíamos ter menos 200 horas. Em 2035, daqui a 10 anos, podíamos reduzir a 50% o custo. Isto é exequível, é possível – é preciso vontade. Significa libertar recursos das empresas, principalmente das mais pequenas, para a inovação, para a área comercial, para abrir novos mercados, etc.

“Foi dito que PRR nas empresas seria transformador. Ainda não estamos a ver essa transformação”

O Relatório Draghi saiu numa altura em que os países estão já numa fase adiantada da aplicação do PRR, os planos de recuperação e resiliência. Qual é a sua apreciação geral sobre a forma como os países, e Portugal em particular, estão a aplicar estes programas? Há pouco tempo entrevistámos o alemão Wolfgang Munchau, que dizia que estava a ser uma oportunidade perdida…
Eu tenho mixed feelings, eu diria que há aspetos positivos e aspetos negativos. Por um lado, o PRR nas empresas, no que diz respeito à inovação, deu, de facto, um impulso. E em alguns consórcios, de facto, vai ser produzido um output interessante do ponto de vista de aproximação de novos produtos e novos serviços ao mercado – e isso é positivo. Mas há consórcios que têm 70, 80 parceiros, e aí é muito difícil gerir qualquer tipo de nível de colaboração.

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De que consórcios está a falar?
Era obrigatório haver consórcios com universidades e empresas em colaboração, pelo que de facto há aqui uma orientação para a colaboração que é positiva. Agora, resta saber qual é o retorno efetivo em termos de mercado, novos produtos e serviços… Foi prometido que o PRR empresarial – e nomeadamente na área da inovação – seria transformador da economia portuguesa. Nós não estamos ainda a ver essa transformação.

Ainda…
Ainda… Obviamente sabemos que a inovação demora tempo, é cara, custosa, é preciso paciência. E é preciso orientação, foco e capacidade de gestão de risco. Estamos a ver progresso. E estamos a ver outra coisa: o PRR teve inicialmente uma crítica que era a de que apenas uma parte menor era dedicada às empresas – neste momento está a ser reorientado, uma parte importante (aquilo que chamamos “os restos do PRR”) para a parte da financiamento de inovação através do Banco de Fomento e através do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC), este novo instrumento que neste momento já tem 400 milhões de euros alocados para a inovação das empresas, inteligência artificial e uma parte de industrialização. Ora, para nós, isto são muito boas notícias, porque significa, de facto, que as empresas vão poder ter um incentivo de co-financiamento, juntando fundos privados e fundos públicos, para poder investir em inovação industrial.

"Enquanto nos últimos 10 anos o bloco americano e o bloco chinês se moveram para investir em biotecnologia, a inteligência artificial, em plataformas digitais e microelectrónica, a Europa continuou a investir na indústria automóvel – e mesmo aí perdeu a corrida."

É sobretudo no setor industrial?
O tecido empresarial inovador em Portugal, maioritariamente, é industrial. Também há serviços, também há a parte de tecnologias de informação, mas essencialmente mais de metade das empresas inovadoras são empresas industriais – e é o reforço do setor industrial em Portugal que nós precisamos de fazer. Nós somos um país de serviços, mas os serviços têm margens e valor acrescentado relativamente limitados. E esta reorientação do PRR para as empresas poderem reforçar na área das tecnologias industriais, da inteligência artificial – que é crítico nesta altura – vemos isso como boas notícias. E, acima de tudo, pela primeira vez, temos um alinhamento entre aquilo que é a inovação e, ao mesmo tempo, o financiamento dirigido à economia da inovação e o crescimento pela inovação.

Então, no geral, está otimista?
Vamos fazer as contas, no futuro, sobre qual foi o retorno deste investimento. Agora, Portugal só tem cerca de 1,7% do PIB de investimento em inovação. Estamos muito abaixo ainda da média europeia – e, já agora, destes 1,7% apenas um ponto percentual é responsabilidade direta das empresas. E aquilo que nós vemos é que as empresas só investem em inovação se houver financiamento. Se não houver financiamento, investem menos. Esta ideia tem de ser revertida: as empresas têm de perceber que só irão manter-se competitivas se continuarem a investir em inovação.

Empresas inovadoras. “Apenas uma em cada cinco tem pelo menos um doutorado”

Em que áreas?
Neste momento, seja em inteligência artificial, seja em transição energética, seja em microeletrónica, novos materiais – estamos a falar de um conjunto de tecnologias que estão a convergir. As empresa não vão conseguir dominar tudo ao mesmo tempo, por isso é que é preciso colaborar com o exterior, nomeadamente com o sistema científico ou mesmo com startups. E, portanto, com esta necessidade de capacitar as empresas para a inovação, com recursos avançados, nós temos defendido na Cotec a importância fundamental da contratação de um doutorado, no sentido de falar a linguagem da ciência e a linguagem da inovação, fazer essa ponte. Nós ainda estamos muito longe da Europa nesse aspeto. Das empresas inovadoras, apenas uma em cada cinco tem pelo menos um doutorado nas suas áreas de inovação. Ficará surpreendido se lhe disser que menos de uma em cada 10 empresas inovadoras – com esse estatuto – colabora com a academia.

Quem é Jorge Portugal, diretor-geral da Cotec?

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Jorge Portugal é gestor e consultor, desde 2016 diretor-geral da Cotec Portugal, a principal associação para a inovação empresarial, cuja missão é o reforço da competitividade das empresas pela intensificação do capital de conhecimento, competências e financeiro, bem como os instrumentos de política pública. Foi responsável por acompanhar, monitorizar e avaliar o programa “Indústria 4.0”, dirigido à transformação digital do tecido empresarial.

No setor privado, Jorge Portugal foi gestor em diferentes setores e liderou projetos de transformação organizacional, com incidência nas áreas de tecnologias de informação, retalho e banca.

Como consultor no setor público, assessorou durante uma década o Presidente da República para as áreas do empreendedorismo, inovação e competitividade, e o Governo na área da inovação e modernização administrativa.

Doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, em modelação físico-matemática da dispersão de contaminantes em escoamentos geofísicos, tem um MBA da Nova SBE e realizou o Cybersecurity Leadership Program a convite do Departamento de Estado dos EUA.

A Cotec foi criada em 2003 e há muito que se queixa desse problema. Como é que se fala destes temas há tantos anos e não há uma alteração a esse nível?
Bom, se a Cotec fosse uma startup em 2003 o problema que queria resolver era, de facto, esta relação entre as empresas e as universidades, na criação e aplicação do conhecimento científico em termos de inovação. E esse continua a ser o problema crítico, não só em Portugal, como também na Europa. Aliás, esse é o problema que foi reconhecido no Relatório Draghi… Enquanto nos últimos 10 anos o bloco americano e o bloco chinês se moveram para investir em biotecnologia, em inteligência artificial, em plataformas digitais e em microelectrónica, a Europa continuou a investir na indústria automóvel – e mesmo aí perdeu a corrida. Porque os chineses, na parte elétrica, já ganharam a corrida – a Europa pode ganhar outras batalhas, mas pelo menos os carros elétricos vai ser muito difícil. Portanto, a questão fundamental é investir mais: os EUA investem 3,5% do PIB, do qual 2,5% é empresarial. Na Europa, nós temos que percorrer esse caminho de investir em mais do que apenas inovação incremental – isso as empresas já o fazem de uma forma relativamente sistemática, com ou sem financiamentos. Mas, acima de tudo, as empresas têm de dar o salto, aqui e na Europa, para uma inovação mais disruptiva. Tudo isto exige novas competências dentro da empresa para perceber como é que esta ou aquela tecnologia se aplica no mercado, ou se vai aplicar no futuro no mercado. Esse conhecimento tem de ser criado hoje para que a oportunidade seja capturada amanhã.

Daí falar sobre a questão da falta de doutorados nas empresas. É parte do problema? Ou é, pelo menos, um sintoma?
Os empresários têm de apostar na formação avançada. Nós hoje produzimos 3.000 doutorados por ano – não são todos na área da engenharia, nem das áreas das ciências naturais, mas são uma base de conhecimento que as empresas não podem desperdiçar. Nós temos um sistema científico que está já a alinhar-se com as empresas – eu diria que há dez anos era completamente diferente, há 20 anos muito mais e há 30… nem se fala. E, nessa perspetiva, em Portugal, do ponto de vista da revisão da lei da ciência e inovação e dos incentivos à investigação e desenvolvimento, está a alinhar-se um conjunto de vetores para que este investimento em inovação estratégica nas empresas seja, efetivamente, uma realidade, e não apenas questões pontuais ou questões táticas dentro da gestão estratégica das empresas.

As empresas não veem vantagem em contratar mais doutorados?
O que é que é um doutorado? É uma máquina de aprendizagem. Portanto, eu vou aprender rapidamente e teorizar tecnologias, aplicá-las no negócio e criar valor. E isso faz-se tendo pessoas preparadas. Por isso é que nós defendemos, com tanta intensidade – e fazemos isso do lado da academia, que tem de formar doutorados para a indústria, e do lado da indústria, que tem de assimilar esta formação avançada. Você, no futuro, vai olhar para uma empresa e não vai só olhar para os licenciados. Vai querer saber qual é a percentagem de doutorados que lá está. E onde é que eles estão, em que áreas. Vou dar-lhe um exemplo de uma empresa que estava num nível de competitividade mediano na área do aproveitamento de resíduos para fazer alimentação animal. Mas as gorduras e as farinhas de que se alimentam os animais, se forem decantados através de um processo de biotecnologia, podem retirar elementos funcionais que valem 10 vezes mais – para cosmética, para alimentação funcional, etc. Ou seja, eu preciso de conhecimento para extrair essas proteínas e comercializá-las. E, aí, já não é uma empresa que vende farinhas e gorduras, passou a ser uma empresa de bioquímica fina.

"Das empresas inovadoras, apenas uma em cada cinco tem pelo menos um doutorado nas suas áreas de inovação. Ficará surpreendido se lhe disser que menos de uma em cada 10 empresas inovadoras – com esse estatuto – colabora com a academia."

O que acha da fusão da Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, com a Agência Nacional de Inovação, ANI. Pode trazer vantagens ou desvantagens? Qual é a sua opinião?
Eu não gostava de fazer muitos comentários até porque a Cotec foi convidada para participar no grupo de trabalho que está a rever a lei da ciência e inovação, a lei de 2019. Mas, falando em termos de princípios, é evidente que nós defendemos uma nova configuração do sistema científico que preserve a sua missão fundamental, que é criar novo conhecimento mas, ao mesmo tempo, a capacidade de esse conhecimento poder ser aplicado em ambiente empresarial ou, melhor dito, em ambiente não-académico – por exemplo, poder ser aplicado para um hospital funcionar melhor, para um museu conseguir uma maior capacidade de criar valor para a sua audiência, etc. Nessa perspetiva, nós entendemos que este maior alinhamento entre a ciência, a produção de científica e a sua aplicação, o seu impacto na sociedade, é uma boa notícia.

Então está a favor…
É nesse sentido, portanto, que acompanhamos esses princípios de maior alinhamento – isso será bom para o país e será bom para o desenvolvimento. Nessa perspetiva não é tanto a fusão institucional que conta – obviamente queremos mais eficiência – mas é fundamentalmente a eficiência do veículo que vai resultar para gerir a política de ciência e inovação.

Outra alteração importante nesta área foi o anunciado fim do SIFIDE indireto, o sistema de incentivos fiscais à investigação e desenvolvimento, que vai continuar nos investimentos em inovação por parte das empresas, mas que pode acabar quando esse investimento é feito através de fundos. Qual é a relevância disto e que impacto é que esta alteração poderá ter?
Sobre o SIFIDE indireto, o seu fim nós entendemo-lo como a sinalização por parte do Governo de que quer dar preferência a mecanismos de investimento mais direto, em vez de indiretos. É evidente que ao longo destes últimos anos, desde 2017/2018, foram constituídos fundos SIFIDE que, neste momento, têm um stock de capital para investir bastante relevante – e vamos esperar que esse stock de capital seja efetivamente investido em empresas e que a capacidade e a produtividade dessas empresas cresça ao longo do tempo. Mas eu diria que esta mudança não altera aquilo que é o objetivo e a prioridade fundamental que é em 2030 o investimento empresarial ser 2% do PIB.

Quanto é neste momento?
Neste momento estamos a metade. Não falo apenas de investimento em I&D, mas investimento em I&D que se transforma em inovação concreta e em valor concreto. E, por isso, o Governo entendeu que há um stock já existente que tem de ser investido, mas que neste momento a prioridade será dar prioridade ao investimento direto pelas empresas – e, nesse aspeto, parece-nos que não há uma mudança substancial da política, até porque Portugal tem um sistema bastante generoso do SIFIDE direto. Isso é reconhecido pela própria União Europeia. Portanto, o que importa aqui é não alterar essa generosidade, porque obviamente os estudos mostram que esse investimento se tem convertido num enorme incentivo para as empresas investirem em inovação.

“A Europa, se quiser, tem pernas para andar. Não está inevitavelmente condenada à irrelevância”

Falava, há pouco, das batalhas perdidas pela Europa. Acha que ainda é possível virar o jogo?
Penso que a Europa, se quiser, tem pernas para andar. Não está inevitavelmente condenada à irrelevância. Agora… temos de mudar.

Nessa entrevista do Observador, que referi há pouco, uma das coisas que Wolfgang Munchau disse é que, possivelmente, a Europa já passou o ponto de não-retorno e que já perdeu a batalha tecnológica para a China e para os EUA. Não concorda?
Não concordo. A Europa perdeu algumas batalhas mas não perdeu a guerra. Já perdeu a batalha da energia dos painéis solares, dos carros elétricos, mas há muitas outras batalhas para ganhar no futuro. A Europa não precisa de reinventar nada, porque produz-se muito conhecimento. Precisa é de acelerar aquilo que produz na Europa. A Europa tem talento, os europeus não são menos capazes que os americanos ou os chineses, falta é eficiência, escala e velocidade. A inovação é velocidade. E, nestas tecnologias, um ano de atraso é uma década de atraso…

Que batalhas é que ainda é possível ganhar?
Eu diria, desde logo, a batalha da inteligência artificial…

Não está perdida?
Não está perdida, nem de longe. Também a batalha daquilo que é a computação avançada, o quantum computing, a batalha dos semi-condutores que chegaram ao limite da sua capacidade. Nós hoje temos o processador de um lado e a memória do outro – a tecnologia waffle vai juntar as duas coisas. Isso é uma batalha que ninguém ganhou. Por isso, eu diria que esta questão da capacidade de computação não está ganha.

E onde mais?
Na transição energética, nós temos em Portugal a energia barata e na Europa, nas renováveis, temos problemas na gestão de rede mas podemos ter capacidade de alimentar centros de cálculo a partir de renováveis. Na biotecnologia, não perdemos essa batalha. A Europa tem uma das populações mais envelhecidas do mundo – a questão do mercado da saúde para a Europa é muito importante, o mercado da longevidade é outra das batalhas. Eu diria que há muitas batalhas a ganhar.

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