Em Fevereiro de 2024, expliquei aqui as razões pelas quais o radicalismo e a impreparação de Pedro Nuno Santos constituíam problemas graves para o PS. Desde então, não só esse diagnóstico se confirmou como a crise do PS se agravou de forma substancial, muito por acção da actual liderança socialista. Parte do problema reside na forma como Pedro Nuno Santos tem radicalizado e encostado cada vez mais o PS à esquerda, erodindo o tradicional posicionamento mais próximo do centro político português. Enquanto António Costa avançou para a geringonça fundamentalmente por ter vislumbrado nessa solução a possibilidade de aceder ao poder mesmo depois de ter perdido as eleições para Pedro Passos Coelho, Pedro Nuno Santos parece achar que o PS deve estar ao lado da esquerda radical e da extrema-esquerda por convicção – e não apenas por oportunismo político. Esse é aliás, importa reconhecer, um posicionamento compatível e consistente com o que foi o percurso político de Pedro Nuno Santos no interior do PS – desde sempre assente na proximidade com a esquerda mais radical e tendo no Bloco de Esquerda uma referência indisfarçável.

O resultado desta fórmula nas eleições legislativas de 2024 não foi brilhante: o PS ficou abaixo dos 30% e teve a sua pior votação em legislativas nacionais desde Vítor Constâncio em 1987. Mas se em 2024 se poderia ainda apontar parte da responsabilidade pelo mau resultado a António Costa, a situação do PS depois de mais de um ano de liderança de Pedro Nuno Santos tornou-se ainda mais débil e acumulam-se os sinais preocupantes para o partido. Agora, mesmo com Luís Montenegro fragilizado e com a AD a continuar a sofrer forte concorrência à direita por parte de CH e IL, o PS não só parece incapaz de descolar como se arrisca a perder novamente as eleições – e por uma margem maior do que em 2024.

Compreender a debilidade do PS exige antes de mais perceber que o facto de o líder do PSD estar fragilizado não implica automaticamente que o PS esteja em posição de capitalizar a seu favor essa situação. Basta pensar, para dar apenas alguns exemplos mais salientes, na investigação que incide sobre o antigo chefe de gabinete de António Costa, Vítor Escária, nas trapalhadas do próprio Pedro Nuno Santos relativamente à TAP quando foi ministro ou nos múltiplos casos que envolvem o ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates, figura de quem tanto António Costa como Pedro Nuno Santos foram, no passado, colaboradores muito próximos. Basta reflectir um pouco sobre o que tem sido a realidade do PS para que se torne imediatamente menos surpreendente que o caso Montenegro não produza efeitos substanciais de transferência de votos para o partido liderado por Pedro Nuno Santos. Evidência disso mesmo é a mais recente sondagem da Universidade Católica segundo a qual, mesmo depois de tudo o que passou, Luís Montenegro continua a ser percepcionado como tendo um nível de honestidade similar, ou até ligeiramente superior, ao de Pedro Nuno Santos.

Mas talvez mais preocupante ainda para o PS seja o facto de, ao contrário do que costuma acontecer em períodos eleitorais, desta vez o PS não estar a conseguir sequer simular um estado de união interna. A guerra civil no interior do partido está de tal forma intensa que os sinais de conflitualidade vão-se multiplicando: desde a indisponibilidade de Fernando Medina até à saída (com estrondo) das listas por parte de Sérgio Sousa Pinto, sem esquecer as referências públicas à exclusão de Álvaro Beleza. Curiosamente, Pedro Nuno Santos não foi sequer capaz de manter na sua órbita duas figuras históricas do partido que o apoiaram na disputa pela liderança do PS contra José Luís Carneiro como foi o caso, importa não esquecer, de Sérgio Sousa Pinto e Álvaro Beleza.

Para piorar ainda mais o quadro, Pedro Nuno Santos optou por tentar suprir as óbvias lacunas repescando o seu fiel colaborador (de má memória) Hugo Mendes e lançando para a política nacional a rapper, activista progressista e investigadora Eva Cruzeiro (nome artístico “Eva Rapdiva”), colocando assim em posição claramente elegível por Lisboa alguém cujas posições publicamente expressas sobre a guerra na Ucrânia e sobre Vladimir Putin causariam embaraço até ao próprio Bloco de Esquerda.

No meio do desastre em curso no PS, é possível que o Livre, de Rui Tavares, consiga captar algum eleitorado socialista descontente (ao mesmo tempo que beneficia da notória decrepitude do BE), mas tal deverá ser insuficiente para permitir a maioria de esquerda que Pedro Nuno Santos tanto ambiciona. Esse é aliás o drama do actual líder socialista: Pedro Nuno Santos ambiciona por convicção ideológica integrar o partido que lidera numa ampla frente conjunta com a esquerda radical e com a extrema-esquerda mas arrisca-se a destruir o PS pelo caminho. Importa recordar que são já vários os países europeus nos quais os partidos tradicionais equivalentes ao PS desapareceram ou se tornaram irrelevantes. Caso a liderança do PS prossiga no mesmo rumo, Portugal pode muito bem ser o próximo.