Como em tudo na vida criam-se, muitas vezes inadvertidamente, estereótipos (vou chamar-lhes classificações). E há-os, como para outras circunstâncias, para a crise. Podia haver mais, e há, mas procuro deixar a nota de que existem usual e genericamente três: o preocupado, o ouvinte e o investidor. Estes são os perfis dos candidatos a programas de formação de executivos, a nível individual e para programas abertos (open enrolment). E porque estamos a atravessar um período de crise, deveriam fazer-nos pensar, pois perpassam também para as empresas as formas de decisão, i.e., os comportamentos decisionais das empresas em tempos de crise seguem, muito de perto, os comportamentos destas tipologias de candidatos individuais.

1 O candidato preocupado com a crise, e ninguém lhe retira os motivos para isso, acaba por dar mais importância à incerteza do que à certeza que pode ter: entra na formação e cresce com ela. Gosta de perguntar, está usualmente interessado, é atento às explicações, procura informação clara e objetiva. Quando se lhe passa a mensagem de que o período de crise é um bom período de investimento individual (porque pouco se passa lá fora; porque as grandes oportunidades estão congeladas) fica mais preocupado do que menos. A isto soma as dúvidas do investimento. E do seu retorno. E questiona-se sobre se o momento é o mais propício. Porque anda muito à volta dos problemas e é pouco atento à visão para além deles (em crise). Arranja muitos se’s. É usualmente um candidato interessante, trabalhador, empenhado, muitas vezes até, nos programas, um bom “carregador de pianos”: esforça-se, dá-se aos outros, entrega bem e tem boas classificações. São candidatos que todo o programa gosta de ter.

Mais, se em condições mais favoráveis, económicas por exemplo, são até dados a criatividade e a soluções fora da caixa. São, definitivamente, grandes ativos em cursos e em programas de executivos.

As empresas que atuam debaixo deste perfil, atuando com extrema preocupação, são as primeiras a cortar formação. São as primeiras a cortar custos – porque consideram, infelizmente, a formação um custo – e porque se deixam sucumbir ao P&L estrito, não procurando ver para além dele. As oportunidades, a retenção, a capacitação, o brilho das suas academias e programas de formação sofre imenso nestas alturas para, em períodos mais expansionistas, voltarem cheios de ideias – e normalmente boas. Mas sempre intermitentes.

2 O candidato ouvinte é um candidato que ouve muito e procura nas explicações um conforto para o seu pensamento. Demora a converter, mas é também um candidato muito interessante. Transformar-se-á num questionador nato em programa. É inconformado e quer sempre mais do programa, como do network, como no geral da vida. Em momentos de crise pergunta muito mais do que em momentos de cruzeiro ou com a economia em expansão. E é muitíssimo ligado ao preço e ao desconto.

As empresas que adoptam este perfil são também grandes amantes do desconto. Perguntam muito e usualmente têm grandes ideias. Mas entre as ideias e o orçamento terão de estabelecer compromissos. Em períodos expansionistas têm sempre grandes projetos e usualmente cheios de interesse e com muito potencial para atrair, capacitar e satisfazer talento. Podem demorar a adjudicar, mas adjudicam, nas condições anteriores, mesmo em crise. Tal como os candidatos individuais: demoram mas convertem.

3 O candidato menos preocupado e mais afoito dedica-se usualmente à formação, mesmo em tempo de crise, e dedica-se bem, porque diz-lhe o instinto que deve continuar a haver investimento pessoal e capacitação, pois melhores tempos virão. E quando vierem, haverá mais formação para os atacar e mesmo mais argumentos para conseguir chegar onde pretende, quando ainda em saída do processo de crise. Às vezes, às vezes, a aproximação torna-se muito funcional: check e vai mais uma.

Nas empresas existem também as afoitas. As que querem fazer. Tomam o risco nas suas mãos e investem o que podem em tempos de crise. Sabem que o amanhã não é o fim e o fim está mais longe. É a velha questão da visão. E do médio/longo prazo.

Curiosamente são estas, quando empresas, as que menos investem em formação em períodos de expansão. Estão entretidas, digamos, com o seu processo de ordenha: “milking the cow”. E fazer números, alegando que o tempo para formação não é esse, o da expansão. Preferem, pois, a formação em tempos de crise. E também têm as suas razões.

Há questões de disponibilidade financeira. Há questões superiores ou menores que estas. Mas, grosso modo, a caracterização não anda longe da realidade.

A questão principal que se deve retirar disto é a do ser humano como ser único e individual com crenças, muitas vezes mutiladores, e com aspirações e valores próprios. Em crise acentuam-se algumas destas características e é sempre bom tê-lo em consideração.

As empresas são também únicas e têm idiossincrasias muito próprias e muito peculiares.

As pessoas e as empresas podem conhecer o seu próprio perfil, digamos psicológico, e ser testadas e implementar testes a muita gente. O auto-conhecimento acaba por ser uma arma poderosíssima de uma anatomia emocional, e não só, quer do ser humano quer da própria empresa, e cada um deixa traços visíveis e diferentes. E bem.

Muito se fala em feedback e crescimento. Que me recorde, nunca ninguém numa entrevista para angariação de um candidato me perguntou pelo seu perfil e qual era o feedback sobre a forma como se comportou. Adicionalmente, não me lembro de nenhuma empresa vir interpelar-me sobre a forma como negociou, ou como negoceia, e sobre a forma como se posiciona, particularmente em crise. Mas há coisas de borla. E esta é uma delas. Comigo, e nestas coisas, é de aproveitar.