Quando lemos no maravilhoso Livro de Linhagens de D. Pedro, Conde de Barcelos, (1287-1354) que um certo Fernão Mendes, genericamente conhecido como O Bravo, “foi o que meteu a sua mãe na pele da ursa e pôs-lhe os cães” percebemos a frase mas não percebemos bem a situação. É-nos dito logo a seguir que a mãe Mendes não gostava da namorada do filho e tentou fazer intrigas; mas isso não ajuda a explicar aquele castigo particular. O filho Mendes, entretanto, seria também o que “cortou o dedo porque errou o urso com a ascuma” (uma ascuma é uma lança). O nexo entre todos estes factos é difuso, apesar de haver na altura muitos ursos.
Não há razão para pensar que o Conde de Barcelos achasse que tudo neste mundo tinha de estar ligado; a sua preocupação era a de identificar pessoas particulares que tinham já morrido há muito tempo. Fernão Mendes, por exemplo, é possivelmente a única pessoa que existiu a respeito da qual se pode afirmar com verdade que vestiu a mãe de ursa e não conseguiu caçar um urso (com probabilidade um outro urso). O Livro de Linhagens consiste quase só na identificação minuciosa de pessoas. A pergunta prática que interessava mais a D. Pedro é: ‘De quem era ele filho?’ Reconhecemos com uma certa trepidação nessa pergunta o Portugal subsequente; o Portugal de quem acha que um país é uma família.
D. Pedro não era porém snob ou sentimental; tinha uma teoria política. A teoria aparece no Prólogo do seu livro. A sua premissa maior é atribuída a Aristóteles (o Conde de Barcelos foi a primeira pessoa que escreveu ‘Aristóteles’ em português); tem a forma de um raciocínio que Aristóteles reconheceria sem dificuldade. Aristóteles terá dito que “se homens houvessem entre si amizade verdadeira [viveriam] seguramente.” Mas, observa D. Pedro, não há amizade tão pura como a “daqueles que descendem de um [mesmo] sangue.” Segue-se que para que possamos viver seguramente é muito importante identificar quem é do nosso sangue.
O Livro de Linhagens serve para, informadas as pessoas “de quais descenderam de padre a filho,” se passar a ser “de um coração,” mesmo com primos afastados. Torna-se assim possível fazer em segurança combinações e contratos. No entanto, apesar da sua teoria política, o livro de D. Pedro ilustra repetidamente o princípio contrário. O sangue comum aos Mendes não parece ter impedido o filho de ser ríspido com a mãe; e as histórias de sangue passam-se quase sempre entre pessoas do mesmo sangue. A mais impolítica de todas, que D. Pedro conta em vinte linhas, é a história do Rei Lear: a filha mais nova dissera-lhe que “o amava tanto como deve d’amar a filha a um padre;” o pai, observa Barcelos secamente, “quis-lhe mal porém;” e pô-la na rua, onde veio a casar com um estrangeiro.