O sabão líquido fresco cai sobre a palma da minha mão. Lavo minuciosamente cada dedo e cada espaço interdigital produzindo um castelo de espuma. Entrelaço os dedos numa cinética de expressão manual que se decompõe numa fase inicial sacramental juntando as faces palmares como se de uma prece se tratasse, uma fase intermédia cordial, em que os dedos se entrelaçam, materializada num cumprimento a mim próprio, e uma fase terminal, quando os dedos se apartam e desencaixam, em que expurgo os detritos do mundo não asséptico. Fricciono, sequencialmente, a face dorsal de cada mão, a base de cada primeiro dedo, a face dorsal de todos os restantes dedos de cada mão, e pressiono, em movimentos circulares, a ponta da queratina de cada unha de cada dedo contra o colagénio e a elastina da pele da face palmar de cada mão. Termino ungindo a cútis de cada braço até ao cotovelo e deixo que a água quente que a torneira verte arrase os castelos da espuma destes dias, tão diferente da tradicional “espuma dos dias”. Equipo-me, protegendo diferentes topografias do corpo com camadas múltiplas de materiais distintos – o nitrilo das luvas, o policarbonato dos óculos de protecção, o polipropileno da máscara bico de pato (sempre gostei das vinhetas dos livros de quadradinhos em que pontificava o Pato Donald, sempre apreciei as onomatopeias que preenchiam os balões que lhe eram devidos, acima de tudo sempre valorizei a sua perseverança). Experimento a mobilidade dos dedos dentro do duplo par de luvas que me cobrem as falanges, experimento expirar por forma a verificar se os óculos estão bem adaptados e se embaciam, verifico se a máscara está centrada e se a touca me cobre toda a superfície capilar.

Há nesta preparação algo de ritual, como o cantor que aclara a voz no camarim ou o actor que cerra os olhos e entra no seu transe momentos antes de entrar em cena. Mesclo o poder de disfarce de Blake e a compostura de Mortimer (porque é que hoje só penso em balões de pensamento, linhas de movimento, vinhetas e calhas? Blake e Mortimer, a banda desenhada da minha adolescência) e anuncio ao sair da antecâmara, ainda do lado limpo da fronteira, que vou entrar. A senhora enfermeira, aprumada e dedicada guarda-fronteiriça, aprova o modo como estou equipado.

Cruzo a linha vermelha encrustada no pavimento do serviço. Percorro o corredor que dá acesso aos diferentes quartos. Deste lado o que mais impressiona é o silêncio. Ouve-se um ocasional acesso de tosse seca, cavernosa, uma expiração ruidosa, o fluxo de ar que percorre o plástico das cânulas nasais, o barulho mecânico e eléctrico da aparelhagem que povoa o lado de cá.

Assomo à ombreira da porta do quarto que me é devido e saúdo as doentes com um sonoro “Bom dia, minhas senhoras”, cortando a espessura da mudez que adensa a atmosfera. Respondem-me quase em coro “Bom dia, senhor doutor”. Alegro-me interiormente, têm fôlego para me responder. Sorrio, embora não consigam destrinçar o esmalte dos meus dentes através da máscara. Talvez tenham a evidência indirecta que lhes dirijo um sorriso pelo modo como se arqueiam as linhas do meu rosto. Avanço decidido esperando sinceramente que sim, que o consigam reconhecer.

Conversamos, individualmente, sobre temas prosaicos que, neste tempo, e neste contexto, se revestem da maior importância. Quem pernoita e vive numa unidade de isolamento de um hospital nestes tempos, ostracizado e estremado do seu ecossistema social e emocional, enredado por uma quietude fantasmagórica, vedado ao toque, e mergulhado numa luta muito própria pela sobrevivência carece de uma troca de ideias simples, sem complexidade, apenas flambeada pelo calor humano. Ouço a verbalização da angústia presente e o medo futuro. Vejo, invariavelmente, lágrimas que correm, e talham sulcos pelos rostos cobertos por máscaras. Há quem clame por voltar a beber chá com as amigas, há quem demande ver e ouvir o filho, há quem deseje dar um abraço e um beijo ao marido. Há também quem chame pela mãe e pelo pai. Chamam pelo passado que lhes dá esperança e por um presente que (ainda) não podem alcançar.

Cataloga-se o tropismo respiratório, as manifestações cardiovasculares, mais recentemente o envolvimento neurológico e a constelação de sintomas dermatológicos associados, mas todos os centros de investigação se esquecem de incluir o principal sintoma: a solidão.

Sinto que, entre trocas de material e desinfecções de estetoscópio entre doentes, é também nosso dever apascentar as mentes e nutrir o optimismo dentro dos limites do realismo.

Sou assaltado pelo doce travo da infância e recordo-me, em criança, de me sentir não raras vezes aterrorizado perante a solidão que a sesta, após o almoço, poderia trazer. O meu avô deitava-se comigo e lia-me excertos de um livro que passei a venerar com notável devoção – Platero e Eu (de Juan Rámon Jiménez). O exemplar que as mãos corpulentas do meu avô seguravam e folheavam era uma edição das publicações Europa-América e era cumulada por algumas simples (algumas até despojadas de cor), porém belíssimas ilustrações. O que mais me fascinava não eram propriamente as ilustrações, mas o manejo da língua, o modo como o autor pintava cenários com mestria apenas com vocábulos, e a história de Platero e do seu dono. O livro é uma extraordinária obra em prosa poética, que narra a vida de Platero (um burro de estimação) pela voz do seu dono, de quem é confidente de todas as horas e companheiro de peripécias e aventuras ímpares. É, acima de tudo, uma ode ao companheirismo e à amizade, que ainda hoje me emociona quando a releio. É também uma das muitas adocicadas e glicosadas memórias que guardo do meu avô, que me ensinou, com polidez e disciplina, a ser um contador de histórias. Ainda hoje guardo essa edição das publicações Europa-América na primeira gaveta da minha secretária.

Minhas senhoras, creiam-me, sou vosso médico, mas sou também o vosso Platero, e não imaginam o quanto isso me orgulha.

Minha senhora, venha dar uma voltinha na minha lambreta, ela deixa efectivamente um rasto de cometa, parece realmente feita para dois, sem falar nos eteceteras que fazem de nós heróis, digo eu por fim à doente que me diz gostar de António Zambujo. Adivinho-lhe o sorriso através da máscara. Espero que tenha percebido que sorri também.

Termino o meu trabalho. Desinfecto uma última vez o estetoscópio e penduro-o no gancho que lhe é destinado. Despeço-me “Até já, minhas senhoras”. Respondem-me num coro perfeito “Até já, senhor doutor”. Alegro-me interiormente, têm mais fôlego e estão mais coordenadas do que quando cheguei.

E reparem, minhas senhoras, partilhamos algo: a solidão. Aqui estou eu, terminando o meu dia, ao chegar do hospital, longe dos meus pais, longe da minha namorada, sozinho numa casa que (ainda) me é estranha. Bebo um copo de vinho e deixo que a voz e o trompete de Chet Baker me entre pelos ouvidos.

Amanhã aí estarei para ser o vosso Platero. E serei o burro mais feliz desta ocidental praia Lusitana.