Nas minhas deambulações pela sociologia, deparei-me há tempos com a obra de Phillip Selznick. Selzinck é sobejamente citado, mas pouco lido. Há dois livros de Selznick que me impressionaram particularmente: Leadership in Administration e The Organizational Weapon; em ambos os livros, Selznick analisa algumas das táticas bolcheviques. De entre essas táticas, há uma particularmente interessante: a conversão dos militantes em deployable agents.

Selznick mostra como os bolcheviques criaram um corpo de elite, “revolucionários profissionais”, os quais, enquanto grupo, tinham bastante coesão interna: desde a sua seleção, passando pelo seu treino ideológico, tudo estava planeado de acordo com o objetivo de enviar para o espaço público, organizações sindicais e quejandos, militantes altamente disciplinados. A influência do estudo de Selznick é tal que, hoje em dia, muitos o usam para compreender melhor o modus operandi de células terroristas. Uma ironia particularmente deliciosa.

Sucede que o sonho bolchevique de construir uma elite de pessoas disciplinadas capazes de olhar e pensar o mundo da mesma maneira não é algo que seja exclusivo de organizações políticas ou terroristas. No mundo da sociologia das organizações e do comportamento organizacional, debate-se qual o grau ideal de diversidade de uma comissão executiva ou de uma equipa de trabalho.

Colocado de forma simples: por um lado, quanto mais diversidade, maior a probabilidade de ocorrência de contributos diferentes; por outro lado, quanto maior a diversidade maior o potencial de conflito. Ora, é muito mais fácil gerir um grupo de pessoas que pensam pela mesma bitola; já quanto a liderar um grupo diverso, isso não é para o comum dos mortais. Daí que não seja de estranhar a ausência generalizada de diversidade, mesmo quando acautelamos diversidade de género ou étnica. Vários estudos mostram que a diversidade de género ou étnica não acarreta consigo diversidade social: no contexto organizacional, o facto de todos e todas partilharem o mesmo estrato social (classe média alta), a mesma formação (educação inicial privada, educação superior nas universidades do costume e MBAs frequentados nas mesmas escolas de negócios) e muitas vezes a mesma nacionalidade, reduzem bastante os ganhos conseguidos com a diversidade de género (para dar um exemplo). Significa isto que, no contexto empresarial, a diversidade de género é boa, mas claramente insuficiente caso não venha acompanhada de outras formas de diversidade.

Pese embora o assunto esteja sobejamente estudado, a vasta maioria das organizações empresariais e políticas, na verdade, sonha com o modelo bolchevique: venham mulheres para preencher quotas, mas tratemos de garantir que pensam todas da mesma maneira!

Tudo isto a propósito do CDS-PP, partido que considero ser particularmente interessante no contexto português. Nos múltiplos artigos de opinião e comentários sobre o CDS-PP, algo parece ter assumido um caráter quase obsessivo: a falta de rumo do CDS-PP. Aparentemente, rezam os articulistas, ao CDS-PP falta uma plataforma comum capaz de aglomerar os diversos pulsares internos. Em função daquilo que mais valorizam, no CDS-PP temos, de forma não exaustiva, várias inclinações: os que gostavam de ser um Chega moderado (valorizam o estilo), os conservadores (republicanos, monárquicos, ou indiferentes ao tipo de regime, mas que valorizam a tradição), os católicos (liberais, socialistas, pessoalistas ou beatos, que valorizam uma ligação à Igreja), os socialistas, ou sociais-democratas (que valorizam o papel orientador do Estado), os liberais progressistas e não progressistas (que valorizam o desenvolvimento económico e a liberdade individual), os que estão ali porque é giro e não conhecem mais ninguém, os que estão por ali a pensar em sair amanhã e os que nem se lembram que são militantes. Muitos acumulam várias das categorias atrás mencionadas.

Ao CDS-PP, claramente, falta uma boa dose de bolchevismo. E ainda bem. O CDS-PP é bem capaz de ser o mais plural dos partidos portugueses. Caso as várias fações que coabitam dentro do CDS-PP fossem eliminadas à boa maneira bolchevique, nada de verdadeiramente distintivo restaria ao CDS-PP. O pluralismo é importante, mas não porque alegadamente vivemos sob a ameaça do extremismo; muito menos porque é uma palavra simpática, que remete para sentimentos simpáticos. Quando falamos de pluralismo não falamos de inclusão ou de moderação como valores supremos do espaço democrático, mas sim da única forma de resolver problemas complexos.

Nenhum problema social tem uma solução simples. É ponto assente na literatura em problemas complexos que estes não são sequer solucionados – o máximo que podemos fazer é ir avançando. Por exemplo, um problema complexo como a pobreza não tem solução conhecida. Caso contrário já estaria solucionado. A literatura em problemas complexos aplica o mesmo raciocínio a problemas como as mudanças climáticas, a habitação, a integração de refugiados numa sociedade, etc. Curiosamente, e ao contrário do que muitos esperariam, um problema não é complexo só porque tem impacto global. Um processo de internacionalização duma empresa, ou a decisão sobre onde localizar um bairro social numa cidade, são exemplos de problemas “mais pequenos”, mas igualmente complexos: nenhum tem uma solução única conhecida e qualquer solução escolhida vai sempre originar outros problemas, tipicamente igualmente complexos. Por exemplo, no Porto, a relocalização de um bairro social resolveu um problema, mas deslocou o tráfico e consumo de droga, originando mais problemas, tão ou mais complexos do que o primeiro.

Ora, o acordo entre aqueles que estudam problemas complexos é generalizado em torno de uma coisa: a eventual solução para problemas complexos só ocorre por via do pluralismo (ou “polivocalidade”, termo que pessoalmente prefiro). O pluralismo não garante a solução para o problema, mas permite aos diversos grupos afetados pelo problema estarem envolvidos na solução. Solução essa, que não é melhor nem pior, mas tem o acordo potencial de várias partes, o que permite ao grupo/sociedade/empresa avançar na certeza de que considerou as mais variadas possibilidades, algo impossível de ser alcançado por uma mente isolada. É por isso que o plano de recuperação para Portugal, fruto da iluminação divina que desceu sobre um consultor do Governo, é um perfeito disparate. Não porque o senhor seja disparatado, nem porque as suas propostas sejam todas más. Mas, sim, porque só há uma maneira, identificada na literatura, de fazer funcionar uma solução resultante dos devaneios de uma pessoa: o bolchevismo totalitário.

É aqui que entra o CDS-PP e as suas famigeradas fações internas. Numa altura em que o país enfrenta desafios de grande complexidade, a última coisa de que precisamos é de soluções unilaterais. Não só porque tais soluções não existem, mas principalmente porque soluções unilaterais são sempre totalitárias: só funcionam por imposição violenta e, tipicamente, resultam em problemas ainda maiores. O que estou a dizer é que ao CDS-PP não convém nada silenciar fações e tentar, em vão, gerar uma estratégia única, capaz de abarcar e agradar a todos. Muito menos, embarcar nas agendas definidas pelos media, lançando propostas para tudo e para nada na tentativa de mostrar que tem algo para dizer sobre o mais ridículo dos assuntos.

Aproveitar a riqueza interna do CDS-PP só é possível caso o partido continue a encarar a liberdade individual dos seus militantes como uma dimensão moral fundadora do partido. Isso não significa que o partido encare a liberdade individual como uma teoria fundadora das instituições políticas. Perceber esta diferença é fundamental e ao alcance de poucos líderes políticos. E no momento em que o Governo afasta todos aqueles que representam qualquer tipo de obstáculo e em que os mais variados partidos, à direita e à esquerda, parecem favorecer formas escamoteadas de bolchevismo iluminado, o CDS-PP deveria continuar o seu caminho, mostrando que é diferente por ser, provavelmente, o mais plural dos partidos portugueses. Se conseguir aliar o pluralismo a uma orientação política com consistência, conseguirá, com o tempo, mostrar que existe uma alternativa ao totalitarismo iluminado daqueles que nos governam e que parecem acreditar saber como resolver tudo e mais alguma coisa. A aposta no pluralismo interno, ao CDS-PP trará a devida recompensa eleitoral.