João Galamba tem feito o seu caminho como pupilo do mestre, enquanto secretário de Estado-estrela do Ambiente. Segue na sua esteira, seguro e inabalável, emulando o percurso, ambientando-se ao mesmo entorno e consolidando a sua experiência burocrática e governativa.

Para além do mesmo caminho, Galamba adoptou o mesmíssimo estilo. É sarcástico, é arrogante, é agressivo, é intolerante, levanta a voz e irrita-se com vermelhidão quando a conversa não lhe interessa ou o interlocutor o põe desconfortável. Fala até de dedo em riste, com face desafiante e a cabeça ligeiramente inclinada.

Ambicionará – suponho – uma carreira semelhante à do mestre: deputado, secretário de Estado, ministro e por aí fora. E vem fazendo por isso, como pode comprovar qualquer observador atento – a julgar pelos últimos desenvolvimentos, na verdade, auguro-lhe sucesso total nesse desiderato.

O lítio de Galamba é o Freeport de Sócrates. O pó branco foi a sua tentação irresistível.

Despachou uma concessão de exploração de lítio (que durará entre 20 e 35 anos) no meio de um furacão de conflitos entre sócios e de acusações múltiplas de golpes e trafulhices. Sem hesitar, e com a candura exibida no “Sexta às 9”, autorizou um negócio de 350 milhões de euros, que já está a ser investigado pelo Ministério Público por suspeitas de corrupção no Governo.

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Foi o ex-presidente da Câmara do Porto, Nuno Cardoso, que revelou ter alertado o ministro Matos Fernandes e João Galamba para as confusões e ilegalidades que seriam geradas pela concessão da exploração de lítio em Montalegre a uma empresa que tinha sido criada há dois dias. Mas Galamba, “não imperando o bom senso”, nas palavras de Cardoso, não quis saber e assinou o contrato.

Pois bem. Estamos perante um procedimento e um negócio que (i) está envolto em névoa de confusão e litigiosidade; (ii) resultou na concessão atribuída a uma empresa constituída há dois dias; e (iii) tem à mistura um consultor financeiro que foi secretário de Estado de António Costa (Jorge Costa Oliveira) e que é, segundo consta, seu amigo.

Questionado sobre a ausência de alguns destes nomes na “narrativa” oficial (aposto que o protagonista aprecia esta palavra), Galamba sacou do seu melhor tom de voz indignado e defendeu-se com um singelo “não me perguntou e não achei relevante”.

Apertado, incomodado e irritado por Sandra Felgueiras na RTP, o jovem membro do Governo repetiu, exaltadamente e à saciedade, que aquilo que o norteia e preocupa é o cumprimento da lei e a lei foi – diz ele – cumprida.

Todo este modus operandi e o estilo que o reveste parece familiar. Parece obedecer a uma certa cartilha sobre como fazer as coisas e como reagir quando somos questionados sobre elas. Parece, numa palavra, visto, revisto e requentado, sempre com maus resultados e com prejuízo de quem se sabe…

João Galamba está de parabéns. Garantiu o estreito cumprimento da legalidade.

Não, não é gralha. Não é o estrito cumprimento da legalidade, é mesmo estreito – afunilado, formal, apegado à letra da lei. A substância é outra conversa.