Há uma frase que se repete todos os anos nos relatórios sobre a economia portuguesa e que já ninguém questiona: “Portugal cresceu acima da média da União Europeia.” Os governos dizem-na, os comentadores repetem-na e os jornais reproduzem-na. E não é mentira. O problema é que se tornou uma espécie de anestesia, uma vez que nos impede de fazer a pergunta que realmente interessa: crescemos, sim, mas a fazer o quê?
Há uns anos, um amigo que tem um restaurante perto de Aveiro disse-me, cheio de satisfação, que a esplanada não parava e que já não sabia onde pôr as reservas. Fiquei contente por ele, claro. Só que, meses depois, numa conversa sobre preços e margens, percebi que ele continuava a cobrar praticamente o mesmo por prato de há cinco anos, e que os empregados que tinha ganhavam também praticamente o mesmo. Cresceu, sim. Mas não sei se cresceu da forma que ele achava.
Conto isto porque acho que resume, mais do que qualquer estatística, o que se passa com a economia portuguesa. Ouvimos, ano após ano, que Portugal cresce acima da média da Zona Euro — e é verdade, os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Banco de Portugal confirmam-no. O que raramente se pergunta é como esse crescimento acontece. E aqui, suspeito, está o problema.
Grosso modo, uma economia pode crescer de duas maneiras. Pode produzir mais valor com os recursos que já tem: subir na cadeia de valor, inovar, tornar-se mais eficiente, e nessa medida justificar salários mais altos. Ou pode simplesmente ter mais gente a fazer, ano após ano, exatamente o mesmo que já fazia: mais quartos alugados, mais refeições servidas, mais horas de trabalho pouco qualificado. Portugal escolheu, conscientemente ou não, a segunda opção. E o resultado está à vista de quem quiser ver: uma economia que cresce perto de 2% ao ano, mas cuja produtividade continua cerca de 17% abaixo da média da OCDE (OCDE, 2026).
Durante anos, isto não foi propriamente visível, porque havia sempre alguém a pagar a conta pela nossa falta de ambição: turistas a gastar, fundos europeus a financiar obra atrás de obra, uma Europa relativamente estável e a comprar o que produzíamos. O problema é que 2026 é o ano em que alguns destes apoios começam a perder força e em que se torna mais evidente a necessidade de transformar investimento em ganhos permanentes de produtividade. Os dados do INE mostram que o turismo continua a crescer, mas já perde fôlego pelo segundo ano consecutivo (INE, 2026) — o que sugere que a oferta cresceu mais depressa do que a procura consegue absorver. E o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), criado para financiar reformas e investimentos estruturais, terminou a 31 de agosto, levando consigo uma fatia significativa do investimento público que sustentou a economia portuguesa nos últimos anos.
Não sei se isto vai resultar numa crise, nem creio que seja esse o ponto. O ponto é mais simples e, por isso mesmo, mais incómodo: quando o crescimento vem sobretudo de ter mais gente a trabalhar e não de cada pessoa produzir mais, o salário de quem trabalha tende a ficar onde sempre esteve. E é aqui que a produtividade passa a ser uma questão particularmente relevante: sem produzir mais valor por hora trabalhada, torna-se mais difícil sustentar salários mais elevados e melhorar de forma duradoura o nível de vida. Talvez por isso não seja assim tão estranho que o salário mínimo suba 50 euros, para 920, e mesmo assim continue a haver cerca de 15% da população em risco de pobreza ou exclusão social (INE, 2025).
Não tenho a pretensão de saber exatamente o que falta fazer — isso teria de vir de quem estuda isto a sério, com mais tempo e mais dados do que os que cabem num artigo de opinião. Mas parece-me razoável dizer que grande parte do diagnóstico já é conhecido: baixa qualificação, empresas pequenas e pouco capitalizadas, um investimento que, embora tenha crescido e beneficie do impulso dos fundos europeus, ainda precisa de se traduzir mais claramente em capacidade produtiva, inovação e tecnologia. A própria OCDE nota que muitas empresas portuguesas continuam a investir pouco em tecnologia e inovação e que o investimento em I&D não tem produzido resultados de inovação proporcionais ao apoio público existente (OCDE, 2026). Talvez o que falte não seja descobrir mais nada. Talvez seja apenas decidir que vale a pena crescer mais devagar, mas de outra maneira.
Voltando ao meu amigo de Aveiro: continua com a esplanada cheia. Só não sei se, daqui a cinco anos, vai ter alguma coisa diferente para me contar.