Espero que Portugal tenha espinha dorsal e cancele qualquer plano ou projecto de aquisição de aparelhos F-35 Lightning II aos EUA. Nunca foi boa ideia – para um país da nossa escala industrial e restrições financeiras – ficar dependente de um dos aparelhos mais caros de sempre, com um custo de aquisição de 75.5 milhões de € por unidade (na versão básica), um custo de voo por hora de 30.3 mil € e que, somando toda a vida útil do aparelho, pode ficar à volta dos quase mil milhões de € por unidade (em 2024, o orçamento de Defesa de Portugal foi de 2.850,1 milhões de euros). Por comparação: Manter um F-35 custa quatro vezes mais do que adquirir e manter um F-16. Isto significa que se substituíssemos os actuais 28 F-16 o país teria que assumir uma quadruplicação dos custos, o que levaria a cortes inevitáveis noutras áreas da Defesa Nacional ou, pior, a que sucedesse o mesmo que actualmente sucede com os MBT Leopard 2: apenas um quarto está em uso, estando os restantes em armazém (precisamente devido aos custos operacionais e em manutenção).
Por comparação, se em vez de migrar directamente para um dos caças mais caros de sempre, Portugal, numa solução de transição para um aparelho mais avançado, a longo prazo, adoptasse aparelhos Dassault Rafale, iria assumir custos de aquisição três vezes inferiores ao do F-35 e seis vezes inferiores ao da opção norte-americana.
É certo que o F-35A Lightning II tem tecnologias mais avançadas que o Rafale, designadamente capacidades furtivas e sistemas de sensores de última geração, mas para países como Portugal, que precisam de começar a substituir as suas envelhecidas frotas de F-16, o Rafale pode representar uma alternativa mais económica, mantendo um elevado nível de capacidade operacional durante mais de dez anos, pelo menos.
A decisão de substituir os actuais F-16AM/BM MLU (Mid-Life Upgrade) adquiridos em segunda mão em meados de 1990 é, contudo, também política. Multiplicam-se os sinais de que os EUA já não são um aliado fiável e um aparelho como o F-35 pode ser remotamente parcialmente desactivado se uma das suas missões for considerada contrária aos interesses dos EUA. Não ficaríamos apenas dependentes dos EUA para manutenção e peças, mas também da sua aprovação explícita missão a missão e com o afastamento radical dos EUA da NATO e da Europa e a aproximação da maior ameaça estratégica à Europa (a Rússia) optar por um aparelho norte-americano seria um erro de dimensões colossais e de muito longa duração (os substitutos do F-16 deverão operar durante, pelo menos, três décadas).
Com efeito, é preciso aprender com a experiência ucraniana em que os seus lançadores M142 HIMARS foram remotamente desactivados a partir dos EUA e em que os mísseis britânicos SCALP dependentes de dados cartográficos norte-americanos, com dados de terreno (TERCOM) deixaram de poder ser usados na sua máxima capacidade, e que os F-16 europeus usados pelos ucranianos deixaram de receber actualizações com as novas frequências de radar russas. O mesmo que sucedeu à Ucrânia com os HIMARS, F-16 e SCALP poderá acontecer com os F-35 que Portugal venha eventualmente a adquirir. Na prática, isto significa que todas as missões de treino ou combate realizadas por um F-35 exigem um “carregamento de dados de missão” a partir de instalações nos EUA. Este carregamento de dados define os objectivos da missão e os perfis de ameaças, permitindo o uso total das capacidades avançadas de consciência situacional do F-35. Poderão voar, na mesma, mas não nas suas máximas capacidades.
É certo que Portugal ainda não tomou a decisão de substituir os F-16 por F-35 mas recentemente o general João Cartaxo Alves (Chefe do Estado-Maior da Força Aérea) referiu ter o objectivo de adquirir 27 F-35. Isto significa que há conversas no interior da Força Aérea e do Governo sobre este assunto e que este é o momento certo para colocar este tema na agenda do debate público e mediático.
A opção Rafale, que mais acima defendemos, contudo, não seria de longa duração podendo o modelo de Leasing ser viável durante um pouco mais de dez anos enquanto este aparelho de geração 4.5 era substituído por um aparelho de maior visão e durabilidade e, necessariamente, de 6.ª geração.
Actualmente, estão sobre a mesa dois projectos europeus (idealmente deveria haver apenas um, mas estamos perante uma competição entre a Rolls Royce e a SNECMA que dificulta a fusão de projectos). A opção francesa é, a prazo, mais prudente que a sueca pelo Saab Gripen E defendida por alguns (com motores General Electric F414-GE-39E Made in USA) uma vez que o Rafale é quase totalmente construído na Europa e com componentes europeus (Dassault, Thales e Safran, entre outros), enquanto que no caça sueco entre 90 a 95% dos componentes têm origem e são dependentes dos caprichos muito variáveis e cada vez menos previsíveis dos actuais governantes dos EUA. Actualmente, o Rafale é usado pela França e há contratos assinados com o Egipto, Índia, Qatar, Grécia, Croácia, Indonésia, EAU e Sérvia tendo sido usado em combate no Afeganistão, Líbia, Mali, Iraque e Síria. França encomendou mais 30 Rafale a serem fabricados “com urgência” que serão somados aos 166 que actualmente em uso (totalizando 225 encomendas).
Após a opção de Leasing pelos Rafale durante um pouco mais de dez anos, Portugal teria tempo para integrar o desenvolvimento e construção de um aparelho de 6.ª geração.
Actualmente existem duas opções de médio/longo prazo para um aparelho de 6ª geração que estaria em uso durante as próximas décadas: o programa “Global Combat Air Programme”, um projecto multinacional entre Reino Unido, Japão e Itália para substituir o Eurofighter Typhoon em serviço no Reino Unido e Itália e o Mitsubishi F-2 japonês. Este projecto é a fusão entre o projecto britânico-italiano BAE Systems Tempest e o Mitsubishi F-X japonês e que se materializou num tratado assinado em dezembro de 2023. O primeiro demonstrador deverá voar em 2027 e a produção em série deverá arrancar por volta de 2035.
Contudo, como já vimos, a opção mais razoável, em termos de custos, integração europeia e autonomia é o Rafale. Consequentemente, faz mais sentido que Portugal em vez de aderir ao programa “Global Combat Air Programme” britânico/italiano/japonês, aproximar-se do projecto “Future Combat Air System” que está em desenvolvimento pelas empresas Dassault Aviation (França), Airbus (França, Alemanha e Espanha) e Indra Sistemas (Espanha). Este aparelho será capaz de transportar “swarming drones”, será de 6.ª geração e substituirá os actuais Rafale em França e na Alemanha e Espanha os Typhoons. O primeiro demonstrador deverá voar em 2027 e o primeiro aparelho de produção será entregue em 2040. Desde junho de 2023 que a Bélgica é um observador no programa e um muito provável cliente e co-desenvolvedor a partir de meados deste ano. Portugal poderia seguir este modelo e embarcar também no projecto “Global Combat Air Programme” ao mesmo tempo em que começa a substituição da envelhecida frota de F-16 por Rafales.
Numa visão de mais longa escala, Portugal teria tempo para preparar a entrada num futuro programa UCAV europeu em que o factor humano fosse já totalmente substituído e o paralelo desenvolvimento de drones de combate de média e pequena dimensão como aqueles que a lusobritânica Tekever já fabrica ao nível do melhor que se faz no mundo nessa área.