O prazo terminou, e mais sete anos passaram.
Cheio de tédio, o mar lança-me em terra.
Ah, orgulhoso oceano!
Dentro em pouco hás-de levar-me de novo!
O teu orgulho pode ser vencido, mas o meu tormento é eterno.
A salvação que procuro em terra,
Nunca a hei-de encontrar!
A vós, vagas do mar do mundo,
Permanecerei fiel, até que a vossa última onda
Se quebre e a vossa última gota seque!
—…Richard Wagner, Der fliegende Holländer
“ie Frist ist um…” – o prazo terminou, e o capitão ergue-se do abismo para mais um ciclo da sua condenação: o Sísifo dos mares. Sete anos passaram, e o mar permanece o mesmo: vasto, impassível, indomável, indiferente às súplicas do homem. Nesse grito inaugural, Wagner oferece-nos uma poderosa parábola da condição moderna – e, talvez, na figura do Holandês, do homem português: um ser que não pode regressar nem cessar o movimento, condenado a procurar sentido na própria errância.
Como o Holandês, também Portugal parece destinado a recomeçar, a transformar o limite em travessia, a maldição em vocação. O mar, que foi glória e exílio, é o espelho dessa dualidade: promessa de infinito e lembrança de impotência. Entre a ânsia de redenção e o cansaço da viagem, o país reencontra a sua velha tarefa: a de dar alma ao realismo e realismo à alma. Porque, no fundo, o verdadeiro inferno das nações não é perderem o rumo: é esquecerem aquilo que um dia as lançou ao mar.
Assim começa a nossa travessia. A cortina ergue-se com o rumor da tormenta. Entre a terra e o mar, Portugal constitui-se como entidade liminar, velha alma suspensa entre dois elementos que se atraem e se repelem. Desde a fundação, move-se nesse ponto de intersecção entre a Europa, porto geográfico de origem e promessa de segurança, lei e prosperidade, e o Oceano Atlântico, espaço de prolongamento estratégico e sonho de liberdade, risco e horizonte.
Portugal é o Holandês Voador das nações: um país de vocação anfíbia, que oscila entre a necessidade de estrutura continental e o impulso de expansão oceânica, inserido num sistema internacional constitutivamente anárquico – pois, como observa Kenneth Waltz, a anarquia não significa desordem, mas constitui um princípio ordenador –, onde o poder é a medida da segurança e a sobrevivência o primeiro dever. É esta a lição do Realismo de Hans Morgenthau: a política entre as nações obedece a leis objectivas, enraizadas na própria natureza humana, e o Estado, dotado de uma dignidade própria, deve orientar-se pelo interesse nacional como princípio supremo: the moral dignity of the national interest.
Como Realistas (Realistas Clássicos e Neorrealistas), temos como bússola para a viagem justamente a transição de poder em curso no sistema internacional e o refluxo da ordem liberal internacional.
Nascida da vitória ocidental em 1945 e reafirmada, em plenitude, em 1991, a ordem liberal internacional acreditou poder converter a anarquia em governança e o poder em norma. Mas a globalização que unificou mercados também dissolveu fronteiras, e a promessa de interdependência transformou-se em instrumento de coação. O comércio, outrora sinónimo de paz (como celebrava Voltaire nas suas Lettres philosophiques, ao ver na Bolsa de Londres o templo da tolerância e da razão), tornou-se muitas vezes arte de domínio; a informação, novo teatro de guerra. A “paz liberal” não colapsou de repente: foi-se evaporando lentamente na sobre-expansão das suas próprias certezas.
Durante três décadas, o Ocidente viveu num parêntesis histórico – a célebre holiday from history – que confundiu a excepção com a regra. A vitória na Guerra Fria e a dissolução da URSS criaram a ilusão de que a História encontrara finalmente porto seguro, e de que a anarquia internacional podia ser domesticada pela norma liberal. Mas a Unipolaridade americana (sustentada por uma supremacia económica, tecnológica e militar sem precedentes) foi menos uma condição estrutural do sistema do que uma anomalia providencial, breve como uma maré alta. A normalidade histórica, ensina-nos o Realismo, não é harmonia, mas fricção; não é consenso, mas competição e mesmo guerra. O estado natural do mundo é o conflito regulado hobbesiano, não a paz perpétua kantiana. O regresso da rivalidade entre grandes potências não é, pois, uma recaída, mas um reencontro: um reencontro da política internacional com a sua própria natureza.
No centro da grande transição em curso no sistema internacional ergue-se, como uma muralha que se vê da lua, a China, cuja ascensão marca a viragem de época. A sua importância económica, tecnológica e geopolítica redefine o equilíbrio global e impõe, a todos os que desejam manter autonomia de acção, um realismo estratégico. O seu modelo híbrido (capitalismo de Estado, tecnologia controlada, nacionalismo histórico) desafia a ideia de convergência democrática. Com a Nova Rota da Seda, Pequim tece uma rede planetária de dependências: portos, estradas, satélites, crédito. Não pretende apenas prosperar, mas moldar o ambiente onde o poder se exerce. O “Império do Meio” regressa à história como pólo civilizacional alternativo, combinando pragmatismo estratégico com memória imperial.
Os Estados Unidos, por seu lado, são ainda largamente a maior potência mundial, mas enfrentam as agruras da fadiga hegemónica. A liderança que outrora unificou o Ocidente vacila entre o dever moral e o cálculo interno. O pivot para o Indo-Pacífico, a retirada afegã, a hesitação europeia: cada gesto denuncia a passagem de uma grande estratégia internacionalista baseada em confiança para um retraimento estratégico (não “isolacionismo”) prudente. Ainda assim, a América permanece o garante último da segurança ocidental, a potência indispensável num mundo que já não aceita potências únicas.
A Rússia, por seu lado, reaparece como potência revisionista que desafia fronteiras e códigos do pós-guerra. A invasão da Ucrânia não é um acidente, mas um sintoma: o regresso da power politics (a política do poder puro e duro) ao coração da Europa. Moscovo entende o poder como teatro e sacrifício, e joga a estabilidade regional como moeda de troca para reconquistar a “zona de influência” e o estatuto global que sempre considerou seu por direito. A guerra tornou visível o que muitos preferiram ignorar: que o século XXI não aboliu a tragédia, apenas a deslocou. E que o maior desafio securitário da Europa desde o fim da Guerra Fria é precisamente o modo como enfrentará esta ameaça russa. Do seu discernimento e da sua coesão dependerá não apenas a sorte da Ucrânia, mas o próprio futuro do projecto europeu.
A Europa, que não podia, inevitavelmente, deixar de ser afectada por esta erosão sistémica, tem-se revelado, no entanto, impreparada para lidar com os desafios estratégicos do novo tempo. Atravessa uma profunda crise de legitimidade e de identidade política. As suas lideranças, frequentemente desfasadas da realidade concreta das populações que representam, vivem encerradas em bolhas tecnocráticas, distantes das preocupações quotidianas dos cidadãos. Ignoraram, ao longo das últimas décadas, os problemas reais que afectam as suas comunidades: a estagnação económica, o declínio demográfico, a imigração descontrolada, a desindustrialização, a perda de coesão social e cultural e, sobretudo, o desafio representado pela aliança entre formas radicais de esquerda e um certo islão político que põem à prova a coesão – e a sobrevivência – das sociedades abertas europeias.
Sonhada como potência normativa e império da lei, a Europa vê-se hoje sem valores e sem poder, estando obrigada a redescobrir esse poder. Não apenas o militar, mas o moral e o político. Só reencontrará relevância quando recuperar a sua ligação viva às nações que a compõem e à civilização – grega, romana, judaico-cristã – que lhe deu origem.
A crise da Europa é, no fundo, uma crise de auto-percepção: habituada a pensar-se como universal e centro do mundo, descobre-se agora como região. A confiança moral que sustentava a sua liderança enfraquece sob o peso da dúvida e, sobretudo, da permanente auto-culpabilização. O verdadeiro perigo reside precisamente aí, na erosão interna da vontade – aquilo que Gibbon, ao narrar o fim de Roma, descreveu como a lenta dissolução da coragem cívica e da fé nos próprios ideais. Porque nenhuma civilização resiste quando deixa de acreditar na legitimidade dos seus próprios valores e interesses.
A revolução tecnológica em curso completa o cenário: dados em vez petróleo, algoritmos a par de exércitos, informação com território. O espaço digital é o novo oceano estratégico – fluido, invisível, sem fronteiras – onde se travam batalhas pela vigilância, pela influência e pela própria memória. A inteligência artificial e a guerra cibernética, formas inéditas de poder que reconfiguram o próprio conceito de soberania, dissolvem a distinção clássica entre tempo de paz e tempo de guerra, entre o real e o virtual, introduzindo o mundo numa zona cinzenta de conflito e competição permanentes, onde o controlo do código vale cada vez mais do que a posse da matéria.
Eis, pois, a primeira parte da viagem: uma ordem e um sistema internacional em mutação, em que a lei perde densidade e o poder volta a ser a única gramática das nações. O mundo entrou numa era Multipolar, feita de equilíbrios instáveis e rivalidades permanentes, onde nenhuma potência detém o monopólio da direcção e todas se movem em torno de centros de gravidade concorrentes. É um tempo de recomposição estrutural em que o Realismo, mais do que uma escolha ou uma escola, se torna condição. O mar revolto do século XXI é o cenário onde Portugal terá de, lançando-se de novo às águas, não apenas navegá-las, mas compreender-lhes as correntes. E, nas correntes, o rumo.
No segundo acto da ópera de Wagner, Senta, filha de Daland e mulher da terra, contempla o retrato do homem do mar: um amor que antecede o encontro. É o amor impossível entre a terra e o oceano, entre a estabilidade e a errância – símbolo particularmente adequado à tensão portuguesa entre pertencer à Europa e voltar-se para o Atlântico.
A Europa é Senta: previsível, portuária, ancorada na ordem e na lei. O Atlântico é a maldição/redenção e vocação do Holandês: o desassossego, a errância, a condenação ao movimento. Portugal vive entre ambos, dividido entre o repouso e a vertigem, sofrendo simultaneamente da síndrome de Senta e da síndrome do Holandês, buscando, incansavelmente, uma fidelidade que redima a sua própria condição anfíbia. O dilema português não é escolher, mas reconciliar. Sente-se europeu quando navega e atlântico quando regressa. Do mar, avista terra; da terra, vê o mar. A política externa é, assim, uma arte anfíbia: o ensaio permanente de um pacto entre esses dois mundos.
Desde a sua fundação, Portugal tem vivido nessa oscilação entre abrigo e travessia, entre segurança e movimento. Essa ambivalência – geográfica e espiritual – constitui o núcleo da sua política externa: o impulso para se projectar e a necessidade de se proteger. É a arte de ser europeu e atlântico ao mesmo tempo. Demasiado pequeno para ditar regras, demasiado consciente da sua história para se dissolver no conjunto, o país sobrevive pela arte do equilíbrio que consiste em não escolher entre o mar e a terra, mas usar um contra o outro, para não ser submerso por nenhum deles.
A força de uma pequena ou média potência não reside no isolamento, mas na escolha das suas fidelidades. Desde os primórdios da nação, Portugal soube que a independência se conserva mais pela inteligência das alianças do que pela ilusão da auto-suficiência. O velho instinto de sobrevivência converteu-se, com o tempo, em método: alinhar-se sem se submeter, participar sem se dissolver. Essa arte de combinação – tão antiga como o Tratado de Windsor e tão contemporânea como a integração europeia – constitui a essência do seu realismo diplomático.
No presente, o espaço natural dessa estratégia é o eixo euro-atlântico, onde se cruzam os dois sistemas a que Portugal pertence por destino e escolha. A Europa fornece estrutura política, estabilidade económica e enquadramento jurídico; o Atlântico oferece profundidade estratégica, segurança e abertura ao mundo. A Alemanha, potência continental normativa e centro de gravidade no espaço europeu, representa o pólo da ordem política e económica; os Estados Unidos, potência marítima e atlântica, simbolizam o pólo da segurança. Um garante o solo, o outro o fôlego. Portugal não deve escolher entre eles, mas respirar através de ambos, porque a sua sobrevivência depende da compatibilidade entre o continente e o oceano.
Somos europeus e não questionamos que a integração na Europa tem correspondido, no essencial, ao interesse nacional. Mas consideramos que a dimensão atlântica é mais do que memória e poema: é vocação estratégica. O mar português, que representa 97% do território sob jurisdição nacional, é hoje um espaço de soberania económica e de segurança. Nele se jogam questões decisivas: das rotas comerciais à vigilância marítima, das comunicações submarinas à investigação científica. Reforçar a presença no Atlântico é, para Portugal, não apenas um dever histórico, mas uma condição de relevância. Outrora espaço de império, o Atlântico, é hoje campo de cooperação transoceânica, um sistema de cooperação onde a economia, a energia, a tecnologia e a defesa convergem numa nova fronteira de interdependência.
É na relação com os Estados Unidos e na NATO que se continua a jogar de forma decisiva a nossa política para o Atlântico. A dupla aliança com os EUA – Acordo dos Açores e NATO – garante a continuação do nosso vetor atlântico, assegura o essencial da nossa segurança e defesa e é coerente com a nossa opção estratégica de dar prioridade a relações e a alianças com potências que partilham o nosso regime democrático e os nossos valores civilizacionais.
Tendo em conta a importância essencial que reconhecemos à defesa da civilização ocidental e à salvaguarda dos valores conservadores que nos unem, vemos na Administração de Donald Trump uma oportunidade para revitalizar as relações entre Portugal e os Estados Unidos, superando a profunda crise em que se encontram.
A verdade é que Portugal tem descurado, nas últimas décadas, a dimensão americana da sua própria vocação atlântica. A relação com os EUA não é apenas um imperativo geopolítico: é também uma afinidade civilizacional. Na América subsiste, apesar de todos os desafios do seu presente, o núcleo moral indispensável do Ocidente: a convicção de que a liberdade é a medida do homem e que a ordem política existe – como prescreve a Declaração da Independência – para a proteger. Negligenciar essa relação é, portanto, mais do que um erro táctico: é uma falha de consciência histórica com profundas implicações estratégicas. Os sucessivos governos portugueses têm reduzido o vínculo atlântico a um mero expediente diplomático, quase irrelevante, esquecendo que nele reside a espinha dorsal da nossa inserção no mundo livre. O que a aliança com Washington nos oferece não é apenas segurança material, mas pertença a uma comunidade de destino fundada na ideia de liberdade como bem supremo das nações.
Uma área crucial hoje para aprofundar a relação com os Estados Unidos é o Médio Oriente, onde se assiste a uma reconfiguração sem precedentes, cujo início teve lugar na manhã de 7 de Outubro de 2023, com o maior massacre de judeus desde o Holocausto, e cujo epicentro é hoje o plano de paz lançado e liderado pelo Presidente americano, Donald Trump, com o apoio de uma coligação inédita de países árabes e muçulmanos, europeus e ocidentais em torno de Israel.
Esse processo, que já ultrapassa a dimensão regional, representa a mais profunda transformação estratégica desde os Acordos de Camp David: consolida a cooperação entre antigas potências rivais, redefine alianças e abre caminho a uma solução gradual de dois Estados. Portugal deve reconhecer-se nesse esforço de pacificação e modernização, não apenas por mero alinhamento, mas por convicção histórica e moral. Apoiar o plano de paz em curso implica, como condição necessária, que a solução de dois Estados seja assente no reconhecimento definitivo de Israel pelo lado palestiniano. O nosso vínculo a Israel é, neste contexto, não apenas estratégico (fundado em ameaças comuns e afinidades de segurança), mas também civilizacional: Israel é o berço e a vanguarda da civilização ocidental no Mediterrâneo oriental, uma democracia cercada por regimes autoritários, como o atual Irão dos aiatolas, e um exemplo do que o Ocidente deve proteger para se proteger a si mesmo.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – a nossa especificidade, o que nos distingue de todos os outros – surge, neste quadro, como vector complementar da política atlântica: confere densidade cultural a uma presença internacional com recursos importantes. Consolidar a CPLP como instrumento de poder económico e cultural, articulando-a com a política europeia de cooperação e com o sistema da NATO, é reforçar a coerência da projecção externa portuguesa. A fidelidade de Senta, neste contexto, traduz-se na fidelidade à vocação marítima e universalista do país. O espaço lusófono não substitui a Europa nem o Atlântico: equilibra-os. O poder de Portugal já não é o de mandar, mas o de ligar. E num sistema internacional fragmentado e multipolar, ligar é a forma suprema de influenciar.
A política, sobretudo a externa, é uma arte transacional definida em termos de poder: a diplomacia é o comércio das vontades permitidas pelas capacidades. O elogio do poder e da dimensão transacional é, portanto, um elogio da lucidez. Reconhecer que todos os Estados buscam vantagem não é renunciar aos valores: é dar-lhes forma concreta, permitir que sobrevivam e prosperem no real. Daqui decorre o nosso conceito orientador: “Realismo com Valores”.
Nos últimos anos, porém, a política externa portuguesa tem-se por vezes afastado dessa tradição de prudência, deixando-se enredar num moralismo estéril onde o mediatismo substitui a substância e a virtude se confunde com abdicação. Enquanto o mundo regressava à gramática clássica do poder, Portugal refugiou-se na retórica piedosa das causas politicamente correctas, a reboque das agendas anti-ocidentais do comunitarismo identitário (que aprisiona o indivíduo numa cela grupal), do wokismo (que confunde justiça social com ressentimento moral) e do pós-colonialismo (que inverte, sem transcender, o preconceito racista). Todas elas partilham a mesma pulsão expiatória – e purgatória, em todos os sentidos do termo – que Pascal Bruckner designou “a tirania da penitência”.
Quando o pano final desce na magnífica ópera de Wagner, o Holandês lança-se de novo ao mar, convencido de que o amor o traiu. Mas Senta, fiel até ao limite, atira-se às ondas e cumpre o seu voto: na entrega, redime o errante. O coro irrompe, e o navio-fantasma dissolve-se na luz. O maldito reencontra a paz, não porque venceu o mar, mas porque finalmente lhe deu sentido. Assim também a política, quando deixa de ser a mera contemplação do poder e se torna o gesto humano de o orientar, participa dessa mesma tensão redentora. O terceiro acto começa, pois, no ponto em que a salvação já não é promessa aguardada, mas responsabilidade assumida: é o momento do leme.
O leme é o ponto onde o destino encontra a vontade: “Aqui ao leme sou mais do que eu”, proclamava o homem do leme de Fernando Pessoa diante do “mostrengo que está no fim do mar”. Se o mar é a estrutura e a nau a política externa, o leme são as nossas ideias, as nossas convicções traduzidas (com pragmatismo/realismo) na agenda de governo: o ponto onde o homem comum segura a história com as suas próprias mãos. Nenhum país se governa contra as marés do mundo, mas também nenhum se salva se deixar o leme ao acaso. Governar é, sempre, o exercício da lucidez em condições de incerteza. É dar forma à tempestade; encontrar, no caos das forças, uma linha de direção. Um país não se mede apenas pela força das suas velas, mas pela firmeza da mão que as segura e orienta. É no interior, no modo como organiza a sua vida política e moral, que se decide a sua capacidade de navegar no exterior. O “Realismo com Valores”, aplicado à governação, é isso mesmo: a virtude de conjugar prudência e coragem, fidelidade e adaptação, consciência do limite e ambição de transcendê-lo.
A crise portuguesa (e europeia) é, antes de mais, uma crise de orientação moral e cultural. Perdeu-se o enraizamento que dá coesão à liberdade. A Democracia, esvaziada de substância espiritual, tornou-se mera contabilidade de virtudes próprias e vícios alheios, mera administração do efémero. Recuperar o impulso civilizacional é, por isso mesmo, a tarefa mais urgente: reencontrar, na memória, o sentido de missão que fez de um país exíguo e exógeno uma nação oceânica. A reconstrução nacional começa, portanto, pela reconciliação com a própria herança: reencontrar na tradição o fermento do futuro. Não é só de miséria, mas também de amnésia, que morrem as nações. Recuperar o impulso civilizacional é reacender, em plena tormenta nocturna, a chama que uniu fé, arte e pensamento numa ideia viva de Portugal.
No coração dessa crise pulsa o perigo da dissolução identitária. A abertura ao mundo, que é a nossa vocação mais antiga, corre o risco de se transformar em indistinção. Uma sociedade verdadeiramente livre é aquela que acolhe sem renunciar, que integra sem se desintegrar. A imigração, quando não se ordena por critérios de integração e coesão, ameaça a própria hospitalidade que pretende praticar. Portugal deve continuar aberto, mas lúcido: a diversidade só floresce quando existe uma cultura comum que a sustente. Um país não é uma soma de indivíduos, mas uma comunidade de sonhos e uma continuidade de sentido. O respeito pelas diferenças exige um centro estável: um idioma partilhado, uma herança cívica, um horizonte moral. Sem isso, o pluralismo transforma-se em fragmentação, e a liberdade, perdida no labirinto do seu próprio ideal, luta contra si mesma julgando estar a combater o seu inimigo.
A este risco de dissolução junta-se uma nova forma de conformismo: a colonização ideológica importada das novas ortodoxias culturais, que substituem o diálogo pela censura e a busca da verdade pela exibição de virtude. O chamado wokismo, expressão de um moralismo pós-moderno e niilista, converte a justiça em ressentimento, o passado em culpa e o presente em denúncia.
Portugal, com a sua longa tradição de mestiçagem e universalismo, não precisa de penitência importada: precisa de lucidez. O império, com todas as suas contradições, não foi apenas conquista: foi também uma aventura do espírito, onde teve lugar a expansão do conhecimento e do encontro, da criação e da partilha. O revisionismo penitencial, que pretende julgar os mortos à luz das modas dos vivos, é uma forma de ingratidão e um prenúncio de pulsão suicida. Honrar a história é aceitá-la inteira – luz e sombra, glória e erro – e continuar o seu impulso criador.
É neste ponto que se joga o destino da civilização ocidental. A liberdade de expressão, a igualdade dos seres humanos perante a lei, a dignidade da pessoa humana, o primado da razão, o espírito científico, o Estado de direito e o dissenso democrático (conquistas lentas, herdeiras de Atenas, Roma e Jerusalém) constituem o património espiritual mais precioso – ao mesmo tempo mais delicado e mais estruturante – da civilização ocidental. Enfim, de tudo o que amamos. É em nome delas que o Ocidente se fez universal e atraiu a si milhões de esperanças em toda a parte do mundo. Hoje, porém, esses fundamentos estão sob cerco: ameaçados por fora, pelas potências autocráticas que usam o poder puro e duro e instrumentalizam a tecnologia para submeter consciências, e por dentro, pelas ideologias que, em nome de uma falsa virtude, procuram silenciar o dissenso e censurar – pela pressão social, mediática e, cada vez mais, penal – a diferença. Sob a máscara da inclusão, erguem-se os novos muros (as “linhas vermelhas”) da exclusão.
Defender o Ocidente é, portanto, defender a liberdade da qual dependem a sua existência e sentido. E defender a liberdade é aceitar o risco do conflito de ideias, a coragem do desacordo, o escândalo da diferença, o direito de dizer o que é impopular entre as elites que julgam falar – e pensar – pelo povo. As ideologias de esquerda, que intensificam a sua radicalização ideológica à medida que se esvaziam de representação sociológica, pretendem ostracizar milhões de cidadãos europeus através da criminalização dos seus representantes políticos. Começaram como lobos em pele de cordeiro e, à medida que perdem as urnas e as ruas, transformam-se cada vez mais em lobos em pele de lobos.
A verdadeira Europa, aquela que nasce da maiêutica de Sócrates e da cruz de Cristo, do realismo de Hobbes e do imperativo de Kant, não teme a divergência: pelo contrário, acolhe-a, cultiva-a e converte-a em diálogo civil, em descoberta colectiva. Preservar a civilização ocidental é, pois, mais do que um luxo tardio: é a própria condição inaugural – e de possibilidade – da liberdade em si. Preservar a civilização é manter viva a raiz antes da flor, o húmus antes da colheita: é cuidar da seiva que, invisível, alimenta a beleza visível. Preservar a civilização é, em última análise, um acto de jardinagem espiritual. Sabia-o Voltaire quando, na conclusão do seu Cândido, lembrava às utopias panglossianas do seu tempo (e às do nosso): mais il faut cultiver notre jardin, “mas é preciso cultivar o nosso jardim”.
A relação com África deve também ser repensada à luz desta maturidade e libertar-se da comédia das penitências. A lusofonia é um espaço de comunhão linguística e cultural que ultrapassa as fronteiras da história imperial. Não é dívida, é património. É uma comunhão de destinos, não uma corrente de culpas. A nossa relação deve assentar no respeito e na reciprocidade, não na culpa e na expiação. As nações africanas de língua portuguesa partilham connosco uma herança – Álvaro de Campos chamava-lhe “carne” – que se deve transformar em futuro: educação, comércio, ciência, cooperação.
O discurso penitencial das “reparações históricas”, próprio da nova apology diplomacy, é mais do que uma caricatura moral e política: é um instrumento ao serviço da estratégia de desmoralização do Ocidente nas mãos dos seus adversários. As “reparações históricas” são, na verdade, a nova forma de colonização moral: substituem a arrogância do conquistador pela arrogância do arrependido. A amizade entre povos funda-se no decoro do respeito mútuo, não no exibicionismo despudorado da culpa. E o papel de uma nação com quase novecentos anos de história é o de soberano e mediador, não o de penitente.
A crise das democracias ocidentais é essencialmente uma crise das suas elites. É sabido que as sociedades, como os peixes, começam a apodrecer pela cabeça. Governadas por tecnocratas sem imaginação e burocracias sem alma, as nações perderam o contacto com a vida real dos seus cidadãos. Umas e outras vivem, na verdade, em mundos diferentes. Portugal não é excepção. E também em Portugal uma nova geração política começa a erguer-se para restabelecer o vínculo entre o povo e o poder, devolvendo à política a sua função de destino colectivo. Corrigir esse desfasamento é voltar a representar o povo.
E há em todos os cantos do globo um povo português que tem sustentado silenciosamente a dignidade nacional além-fronteiras: as comunidades emigrantes. Milhões de homens e mulheres que levaram o nome de Portugal às terras do frio e do sol, construindo com o seu trabalho, sacrifício e honestidade o mais vasto capital moral da nossa diplomacia. Foram eles que mantiveram viva a ligação da pátria com o mundo, que fizeram da distância um vínculo e da saudade uma forma de pertença. Durante muitas décadas, as políticas públicas trataram-nos como nota de rodapé e máquinas de remessas, esquecendo que são, na verdade, a nossa diáspora civilizacional. Revitalizar essa relação é imperativo estratégico e moral: integrar as comunidades portuguesas na definição da política externa, transformando a emigração em extensão do Estado e a saudade em força activa de projecção nacional.
Porque nelas reside uma ideia de Portugal que ultrapassa fronteiras e governos: uma ideia tecida na perseverança, na memória e na esperança. As comunidades portuguesas são, em certo sentido, a prova viva de que a nação não é apenas um território, mas uma vocação colectiva, também ela marítima, que mantém acesa, nas longas noites do exílio, a luz que impede o Holandês – ou seja, o Português – de se perder no nevoeiro.
E é essa mesma luz, vinda de longe, que deve agora reencontrar-se com a que arde cá dentro. Porque o povo emigrado e o povo que permaneceu são dois rostos da mesma fidelidade. O mesmo fogo repartido por oceanos. A verdadeira política portuguesa começa quando o Estado volta a reconhecer-se nesse espelho disperso. Representar o povo, portanto, não é falar por cima dele, mas dar voz à sua esperança. Porque o povo é, ao mesmo tempo, o porto de onde partimos e o porto a que regressamos: o cais e o farol da nossa travessia.
A travessia termina, pois, onde começou: no mar, a partir da terra. O Holandês reencontra o seu destino quando compreende que a sua errância é também a sua fidelidade, que a maldição que o persegue é, afinal, o preço da vocação que o impele. Assim também Portugal: a sua redenção não depende exclusivamente de si, mas depende de se lançar a ela. Sabemo-lo há séculos: o milagre não é prometido a quem espera, mas a quem parte.