Com a crueza própria de um holandês pragmático, o Secretário-Geral da NATO explicou no dia 13 deste mês de Janeiro no Parlamento Europeu que, sem capacidade de defesa, seria melhor os europeus aprenderem a falar russo. E acrescentou que, para construir uma defesa europeia autónoma, seriam precisos 15 a 20 anos gastando anualmente 10% do PIB. Para Mark Rutte, a conclusão é simples: para a Europa, a protecção militar americana é insubstituível. Protecção essa que a nova administração americana – apesar dos tratados assinados – coloca no condicional, pelo que, a manter-se, resultará num custo político e económico a que não estamos habituados.
A este cenário militar pouco abonatório para a independência da Europa, acresce uma outra realidade, já que, no ponto em que nos encontramos, é impossível ignorar a fraqueza a que inimigos internos e externos têm vindo a conduzir a União Europeia. A grande dificuldade em responder às ondas de choque criadas pela imigração, pelos custos de energia na sequência da invasão russa da Ucrânia e pela realidade económica da concorrência e do proteccionismo chinês têm potenciado essa fraqueza. A União Europeia – projecto que nasceu para eliminar, na Europa, a vertigem da guerra e criar condições de crescimento económico que a dimensão geográfica e demográfica assim possibilitaria – encontra-se à beira da apoplexia, com duas das suas entidades fundadoras, a França e a Alemanha, mergulhadas no caos político e económico. A Alemanha perdeu para a China a coroa de campeã exportadora mundial, não sabendo que indústrias vai lograr manter; na sua classe política, cresce um Partido antieuropeu com a ambição de governar, que defende os tempos felizes vividos pelo país na altura dos pais e avós, quando exterminavam e roubavam o resto da Europa. A França, pelo seu lado, caiu num impasse político onde os extremos se potenciam, e a sua cultura – há vários séculos admirada por grande parte do mundo – está a braços com uma comunidade muçulmana que a abala e que reivindica a imposição da sharia. Mais grave no imediato, a França deixou acumular uma dívida pública de tal dimensão que afundará o país no momento em que o BCE a deixar de proteger.
A probabilidade de desagregação da Europa, por muito que custe aos que sonharam com o progresso económico e social no seio de uma grande potência global, é real e não faz sentido achar que tudo corre normalmente. Como dizia Ernest Hemingway, a falência é um processo que começa por ser gradual, até ao momento em que tudo acontece ao mesmo tempo.
Neste momento, poucas são as dúvidas de que o mundo onde nascemos, crescemos e envelhecemos está a desabar em frente dos nossos olhos. Mas também sabemos que este não será certamente nem o primeiro, nem o último colapso social da História; os genes humanos estão capacitados para reagir já que contêm as marcas resultantes das inúmeras alterações e rupturas, mais ou menos dramáticas, que foram acontecendo. Em tempos de crise, o importante é saber como reagir e dar prioridade à voz e à acção de líderes que promovam a força solidária e que sejam capazes de anular egoísmos pessoais ou de grupo.
Neste quadro em que enfrentamos vários riscos – ocupação pela Rússia, vassalagem aos E.U.A., dependência da China e implosão da União – vale a pena alinhar ideias sobre o que entendemos ser Portugal, sabendo que a nossa existência como nação independente é uma singularidade histórica. De que matéria é feita esta condição que adoramos invocar como quase milenar?
Vale a pena fazer uma pequena viagem pelo tempo. No início do segundo milénio da era Cristã, os povos que, no passado, já haviam tomado conta da Ibéria Romana, lançaram-se à reconquista da Península, expulsando os reinos muçulmanos. As diferentes tribos da reconquista foram-se fundindo ao longo dos anos, fortalecendo-se numa força maior. Aconteceu, por exemplo, com Leão, Galiza, Castela e Aragão, mas não com Portugal. Incrivelmente, quase mil anos depois, esta situação que alguns caracterizaram de anómala, mantém-se. A explicação para esta resistência à força centrífuga peninsular, vem do sucesso da aventura marítima do Séc. XV, esforço inacreditável para esta pequena comunidade. Apesar desse extraordinário feito de alcance planetário, o impacto no tempo foi, no entanto, limitado. Cedo, a incompetência da nossa liderança política e a existência de forças europeias mais numerosas e poderosas, fez com que fossem redistribuídos os espaços de influência colonial, relegando Portugal para uma posição de subalternidade. Os lusitanos, herdeiros da grandeza passada, dedicaram-se, nos últimos 3 séculos, em preservar a sua singularidade, mas foram incapazes de acompanhar as revoluções económicas e industriais que transformaram o mundo.
No início do Séc. XX, sem indústria e sem riqueza que se visse, desprovidos de capital e de juízo, entregámo-nos ao diletantismo político e à violência gratuita, tornando difícil o convívio normal e inviável o desenvolvimento económico. A pacificação da sociedade foi depois forçada pela mão de ferro de um académico conservador, que impôs o respeito por leis e por princípios. Como dizia Arthur C. Clarke, não é possível vivermos em livre-arbítrio sem um poder superior benevolente que nos proteja de nós próprios. E o Portugal que redescobriu os brandos costumes, acabou por ser, durante a II Guerra Mundial, um enorme porto de abrigo para as vítimas da loucura global.
Face aos cenários que este novo milénio nos coloca, o fim da União Europeia poderá ter para Portugal resultados equivalentes aos de Alcácer-Quibir. Por isso, podendo guardar no subconsciente a ideia de que fomos grandes, o que é sempre um piedoso conforto para os momentos de maior dúvida, temos de ser realistas e concentrarmo-nos no que de substantivo podemos apresentar ao mundo. Que argumentos temos para justificar a nossa existência soberana? O que sabemos fazer? Que coisas temos para oferecer? Ora há argumentos, aparentemente modestos que guardamos na memória colectiva, que são a chave da nossa resiliência secular: a capacidade de diálogo e de convívio com terceiros, e a importância que damos ao valor da decência e do respeito mútuo. A isto, podemos juntar as competências que ensinam as nossas boas Universidades. E algo que muito brevemente será um factor distintivo, a reivindicação de que dispomos de uma electricidade isenta de carbono e que nos permitirá afirmar que o Made in Portugal protege o planeta. Uma vantagem cujo valor só pode aumentar.
Tudo isto não será muito relevante se o país continuar entretido no jogo do empata e do insulto. Temos de arrumar a casa. É fundamental clarificar a questão da imigração, impondo as regras, os direitos e as obrigações que enquadrem, justifiquem e protejam uma população com origem diferente. Não poderemos nunca tolerar a perspectiva da intrusão da sharia. Nunca. Temos também de acabar com o circo político fratricida que sabemos ter consequências muito nefastas como o que paralisou e condenou a nossa Primeira República. E precisamos urgentemente de alimentar uma atitude individual de empreendedorismo, enaltecendo o sucesso e combatendo a inveja.
A prova de que em Portugal vale a pena viver, está na quantidade de estrangeiros afluentes que nos consideram como porto de abrigo e que proporcionam trabalho e riqueza às empresas em Portugal, ao mesmo tempo que recuperam cidades em ruína e nos enriquecem com a partilha do seu conhecimento e cultura. Franceses, americanos e brasileiros mostraram estar dispostos a pagar pelo luxo de viver num país seguro, onde há tradição de simpatia e decência no trato, algo que se tornou raro num mundo em convulsão. O nosso desafio está em não deixar que as qualidades se percam e em proporcionar aos Portugueses a oportunidade de apreciar a vida no seu próprio País.
Seja como for, o destino de Portugal será condicionado pelo que está a acontecer no mundo. Vemos, hoje, países que se lançam à conquista de vizinhos, com a justificação de estarem a defender a sua soberania. Somos testemunhas dos ódios entre grupos políticos que não se querem entender. E, tal como aconteceu em 1930, as linhas divisórias das facções em disputa têm muito de emoção e pouco de racional. As ideologias que, em diferentes países, galvanizaram os entusiastas de Hitler e de Estaline, revelaram-se depois um drama para os que foram subjugados e explorados pelos seus heróis. Muitos franceses partidários da extrema-direita acabaram por ter inultrapassáveis dificuldades em perceber e digerir o que lhes aconteceu com a ocupação alemã. Vale a pena relembrar que, em Portugal, onde as simpatias nazis atravessavam a sociedade e o Governo, Salazar não teve dúvidas em mobilizar o que tinha de exército para resistir à ameaça da invasão alemã, que só não se concretizou por causa dos problemas militares de Hitler na frente russa. E não houve, nessa altura, vassalagem de Portugal.
Mas hoje, tal como antes, há muitos entusiastas que, não sendo russos, compreendem e aceitam o direito da Rússia em invadir e destruir a Ucrânia. E também são muitos os que, não sendo americanos, comungam da vitória de Trump que, entretanto, não perde tempo em humilhar os mais fiéis (mas mais pequenos) aliados dos Estados Unidos, anunciando invasões militares e punições comerciais. Fica o aviso que a História ensina que os apoiantes do inimigo, correm por gosto contra si próprios.
Num mundo que deixou de ter regras de respeito pela independência dos outros, Portugal beneficia de protecção por ser membro da União Europeia, projecto cuja ambição e racionalidade é por demais evidente, mas que, compreensivelmente, não é do interesse dos inimigos da Europa, que, aberrantemente, contam com aliados convictos no interior das nações europeias. Os que na Europa são contra a União Europeia parecem esquecer que as gentes do Wyoming ou do North Dakota nunca seriam notícia se tivessem como horizonte as suas fronteiras. Ou que a China nunca poderia ser o fabricante de tudo o que o mundo necessita, se tivesse a mesma população de Portugal.
O futuro está uma vez mais em aberto. Se soubermos cultivar o que de bom nos distingue, temos argumentos para discutir o direito de, com Europa ou sem ela, continuarmos como uma entidade soberana.
E assim passar o milénio.
Mas não vai ser fácil.