A conservação do património cultural é um requisito das sociedades contemporâneas, que não se querem ver privadas da sua memória e identidade, porque lhes reconhecem uma função de referenciais coletivos e de consolidação dos laços sociais. Representando uma atitude cultural com fortes bases científicas e técnicas, a conservação está intrinsecamente dependente do conhecimento de um conjunto de ciências humanas e exatas, que lhe permitem uma compreensão holística dos processos criativos, materiais e contextos históricos e sociais que se associam aos bens culturais.

Os desenvolvimentos da Inteligência Artificial (IA) podem abrir possibilidades de aplicação à conservação e restauro, facilitar processos operativos e de tomada de decisão aos profissionais. Sem querer cair no domínio da futurologia, campos como o da documentação e mapeamento, análise e diagnóstico, previsão e monitorização, reconstrução digital e otimização de processos restauro, poderão vir a beneficiar do seu uso. Se pensarmos na grande quantidade de dados visuais que os sistemas computacionais geridos por algoritmos podem processar, perceberemos a sua utilidade para a documentação; no campo do diagnóstico; também o apoio à tomada de decisão poderá facilitar e tornar mais rápido o reconhecimento de padrões de degradação, num ver para além da superfície, e aqui se conjugada com as técnicas analíticas já usadas em laboratório, poderá torná-las de uso mais acessível e corrente. Isto seria um enorme contributo para consolidar ainda mais a abordagem científica ao restauro, mas que desta forma se poderá vulgarizar no mundo empresarial. O diagnóstico baseado em exames deixaria assim de ser uma exceção aplicada apenas quando há obras de grande valor cultural ou empreitadas subsidiadas por fundos europeus e das quais Portugal tem extrema dependência.

Vejo com otimismo a sua utilização no campo da prevenção através da criação de modelos preditivos de condições ambiente (humidade relativa, temperatura, luz, poluentes e ação antrópica), na medida em que será mais fácil a sua implementação para reforçar a eficácia de equipamentos que já se usam (datallogers e outros), pois sensores inteligentes poderão estar integrados em plataforma de IA, e assim fornecer em tempo real dados sobre taxas de degradação. Isto facilitará a introdução de medidas corretivas a diversos níveis, diminuirá o tempo de resposta dos profissionais, e alterará, para melhor, os modelos de gestão, reduzindo a subjetividade e falha humanas.

Já no campo do restauro propriamente dito, muito ainda haverá a pensar, mas não será de excluir o uso a reconstruções digitais para obras com muitas lacunas (em 2 e 3D), antes de se intervir nas obras, uma espécie de ensaio digital da intervenção.

Embora as potencialidades sejam muitas, subsistem enormes desafios, a qualidade e volume dos dados são cruciais, pois os algoritmos da IA requerem conjuntos de dados extensos e bem anotados para um treino eficaz. A interpretação dos modelos de IA é algo que os conservadores-restauradores precisam de trabalhar por forma a poderem confiar nas recomendações de um diagnóstico. Terá ainda de haver uma integração da IA nos códigos de ética da classe e de analisarem critérios como o da Autenticidade nas reconstruções virtuais. Mas, não se duvide da eficácia e redução de tempo que a mesma trará ao setor, permitindo que os conservadores-restauradores se possam focar nas tarefas mais complexas e criativas, deixando para as máquinas as tarefas mais repetitivas, o que também terá reflexo nas teorias de restauro.