Os últimos dados conhecidos afirmam que mais de 1 milhão e meio de portugueses vivem na pobreza. Ao mesmo tempo, um relatório sobre a liberdade religiosa mostra números alarmantes de perseguição, sobretudo contra cristãos. O mundo continua sujo. E o relato do assassinato de uma mãe por um filho de 14 anos é totalmente incompreensível. E, no entanto, talvez seja justamente nessa imperfeição, nesse conflito, nessa desigualdade e nesse erro, o lugar onde ainda se pode encontrar sentido. Como disse, apocrifamente, Cícero: “Prefiro viver na lama de Roma do que no paraíso fora dela.”

A frase, mesmo inventada, soa verdadeira. Cícero viveu o colapso da República Romana, viu a corrupção do Senado, o clientelismo das magistraturas e o poder devorador dos exércitos. Ainda assim, recusou o exílio e ficou. Ficou porque acreditava que a pátria, mesmo corrompida, merecia a lealdade de quem a amava. A lama de Roma — e Roma, mesmo decadente, continuava a ser o espaço da lei, da palavra, da comunidade. Fugir seria renunciar à própria humanidade.

Hoje, a tentação de fugir da lama é talvez mais forte do que nunca. Há quem sonhe com um “paraíso” tecnológico, administrado por algoritmos neutros e pela eficiência das máquinas; outros imaginam o paraíso moral, onde a pureza das causas substitui o juízo; outros ainda refugiam-se no paraíso privado, a bolha confortável do bem-estar e da indiferença. O resultado é sempre o mesmo: fuga, cansaço, a recusa do mundo como ele é.

Karl Popper avisou-nos: “Aqueles que nos prometem o paraíso na Terra acabam por produzir o inferno.” A frase, escrita no século XX, continua a ser o diagnóstico mais certeiro da modernidade. As utopias da pureza — seja ela ideológica, tecnológica ou moral — acabam invariavelmente em tirania. Porque o paraíso, quando desenhado por mãos humanas, exige que se apague tudo o que é imperfeito, isto é, tudo o que é humano. A democracia, por exemplo, lenta, desordenada, desarrumada, guarda consigo a possibilidade de discordância e, por isso, a lama é o seu maior mérito.

Até Joseph Ratzinger, o teólogo que se tornou Bento XVI, reconheceu esta verdade com serenidade. A salvação, escreveu ele, não acontece fora da história, mas dentro dela. O paraíso não é uma fuga do tempo, mas o seu cumprimento, assim como a redenção não é a abolição do mundo, mas a sua transfiguração. Em linguagem mais simples: é na lama que Deus entra, não fora dela. O cristianismo não promete o desaparecimento da imperfeição, mas a possibilidade de ela ter um sentido.

Janan Ganesh escreveu recentemente, no Financial Times, que “a política, não a tecnologia, continua a fazer o mundo girar”. O editor britânico tem razão. A vida pública, com a sua lentidão, os seus erros e as suas contradições, é o verdadeiro espaço da liberdade humana. É suja, claro — mas é também onde se decide o destino comum. Substituí-la por sistemas automáticos ou por moralismos perfeitos seria apenas trocar a lama por um deserto.

É por isso que vale a pena repetir, com alguma humildade, a velha máxima atribuída a Cícero. Prefiro a lama — a lama da democracia, da dúvida, da imperfeição, da história — ao paraíso asséptico das ideologias e das máquinas. Porque só na lama há liberdade, e só na liberdade há redenção. A perfeição é uma mentira; a lama, um dever.