Estas eleições presidenciais não são apenas uma escolha entre candidatos. São um teste à maturidade democrática do país e à forma como o sistema reage quando é verdadeiramente desafiado.
António José Seguro é apresentado como o “porto seguro” contra a mudança. Mas o seu percurso é conhecido: político de carreira do PS, sempre integrado no aparelho, sem rutura com o passado e sem obra relevante fora da política. Passou por governos, Parlamento e Bruxelas sem deixar marca relevante. Representa continuidade, não liderança. O apoio que hoje recebe de toda a esquerda (desde o PS ao PCP, passando pelo Bloco, PAN e Livre), não é sinal de moderação, mas de autoproteção. O sistema fecha-se quando sente risco. Não se trata de convergência de ideias, mas de preservação de poder.
E surge uma questão essencial: quem é que apoia Seguro, para além dos já assumidos? Paulo Portas, que passou anos da sua vida a fazer capas de jornais e a escrever artigos de opinião contra o socialismo, vai anunciar o seu voto em quem? Como é que pode posicionar-se ao lado do socialismo? É que, até pela omissão, está claramente a apoiar António José Seguro. O CDS, partido que inclusivamente votou contra a Constituição de 1976 por não ser “ideologicamente neutra” (continua a não ser, aliás), tem agora o desplante de dizer, através de vários dos seus dirigentes ou apoiantes, que André Ventura não respeita a Constituição? Isto não se inventa.
E os membros dos três governos de Cavaco Silva (1985-1995), que pugnaram pela devolução de grupos empresariais ao setor privado anos após o processo das nacionalizações e ocupações revolucionárias do PREC? Como é que se comportam nesta luta eleitoral? Do lado do socialismo? Do PCP e do Bloco de Esquerda, que representam politicamente esses valores revolucionários e dos quais nunca se distanciaram? É suicídio político. O próprio Cavaco Silva e Durão Barroso? Vão votar ao lado de Catarina Martins e das irmãs Mortágua? Tantos que se dizem democratas ou liberais vão votar ao lado de Jerónimo de Sousa ou de Ferro Rodrigues? Vão votar ao lado de José Sócrates?
A direita que se diz “de direita” vai alinhar-se com quem ocupou propriedades a seguir ao 25 de Abril e obrigou famílias inteiras a emigrar para Espanha, França, Suíça ou Brasil? Esta convergência não é natural: é a demonstração clara de que o sistema prefere proteger-se a si próprio, a permitir liberdade de escolha e debate.
Nada disto é novo. Curiosamente, vários dos que agora alinham com Seguro vêm de partidos onde os seus líderes já foram apelidados de fascistas, até em plena Assembleia da República. A normalização do medo em modo “Campanha Eleitoral – Versão 2026” está aí. As táticas passam pela criação de inimigos permanentes (Ventura é anti-democrático, o Chega não se comporta no Parlamento, há dirigentes que cometem ilegalidades, etc.) e pelo uso do medo como ferramenta de controlo social e eleitoral (é preciso impedir Ventura de ser Presidente da República porque ele é um perigo e “rasga” a Constituição).
Mas provem-no. André Ventura é anti-democrático quando apela ao voto? Quando defende uma revisão constitucional? Quando insiste no combate à corrupção, propõe menos subsídios e limites à imigração ilegal? No fundo, tudo não passa de medo disfarçado de moralidade, e o verdadeiro risco é que sejam os cidadãos livres a pagar o preço.
Foquemo-nos no elemento central desta campanha: o medo como instrumento político. A esquerda banalizou a palavra “fascista”, transformando-a num rótulo usado contra tudo o que desafia o consenso. André Ventura não é combatido politicamente, é demonizado pessoalmente. Em vez de debate, há estigmatização. Em vez de confronto de ideias, há intimidação moral.
O uso da expressão “extrema-direita” no léxico de políticos e jornalistas também revela a tentativa de gerar medo. Sim, há movimentos de extrema-direita em Portugal e estão identificados, alguns já sob vigilância das autoridades, mas o Chega e Ventura não pertencem a esse campo. Rotulá-los como tal é mais uma forma de intimidação do eleitor e de condicionamento da escolha.
Mais grave ainda: ao mobilizar incessantemente o apelo “antifascista”, está-se a atenuar o significado histórico do verdadeiro fascismo. O fascismo foi censura, prisão, perseguição, violência de Estado. Usar esse termo de forma leviana não combate o autoritarismo. Banaliza-o e desrespeita quem o sofreu. Esta atitude revela um claro espírito anti-democrático, e em democracia não se condiciona o voto pelo medo nem se tenta orientar o eleitor através de campanhas de pânico. Deixemos os eleitores escolher livremente!
A tentativa permanente de deslegitimar uma opção política antes mesmo do voto é uma forma subtil (mas real) de desrespeito pela soberania popular. António José Seguro encaixa neste cenário como candidato funcional ao sistema. Não mobiliza, não desafia, não incomoda ninguém. É promovido não por ser forte, mas por garantir que nada muda.
Estas presidenciais não opõem extremos. Opõem duas atitudes: de um lado, a política do medo, da demonização e da contenção democrática; do outro, a defesa de uma escolha livre, sem rótulos nem chantagens morais. E é precisamente essa liberdade que hoje está a ser posta em causa.