Poucas coisas delatam melhor a saúde de uma democracia do que a forma como escolhe o seu Chefe de Estado. Vista por esse prisma, a democracia portuguesa vive um tempo de fadiga discreta, mas profunda. Entre enfadonhas biografias, entrevistas convertidas em anúncios e a infinita quantidade de debates, abunda o ruído e rareia o sentido de Estado.
Alexis de Tocqueville descreveu o risco que hoje sentimos. Nos seus textos sobre a Revolução Francesa e sobre a América, descreve um ‘poder imenso e tutelar’ que já não se chama rei, mas Estado, eleito e aparentemente popular, cada vez mais concentrado e infantilizador das sociedades que deveria servir.
Tocqueville descreveu isto com uma clareza desconfortável. Nas reflexões sobre a Revolução Francesa explica que, quando a sociedade se torna democrática, há uma tentação quase irresistível de concentrar tudo num só centro. Primeiro no “príncipe só”, depois num poder que formalmente “depende do povo”, mas que acumula os mesmos poderes absolutos. Mais tarde, após a sua visita aos Estados Unidos em 1831, ele distingue entre centralização governamental, que decide as grandes orientações, e centralização administrativa, que manda em tudo o resto, do pormenor burocrático ao licenciamento da vida quotidiana. Quando as duas se fundem no mesmo aparelho de Estado, avisa ele, nasce um poder que habitua os homens a abdicar da sua própria vontade, não uma vez, em caso excecional, mas todos os dias e em tudo. As pessoas passam a ser apanhadas “uma a uma na massa comum” e a democracia torna-se um ritual, não uma prática viva.
Daí a imagem do famoso poder tutelar, previdente e doce, que toma conta de nós, decide por nós, garante pequenos confortos, desde que aceitemos a nossa irrelevância política. É um despotismo suave: o Estado único é providencial, é simpático, até é eleito, mas corrói lentamente a liberdade real. Em troca de segurança, estabilidade e entretenimento, os cidadãos são reduzidos a menores de idade. Votam, comentam nas redes, indignam-se nos cafés, mas a capacidade de auto-organização fora do aparelho estatal vai desaparecendo.
Décadas depois, alguém pega neste diagnóstico e empurra-o até ao limite literário. Em Admirável Mundo Novo, Huxley constrói uma distopia onde quase tudo corre bem, desde que se renuncie à liberdade. Três dos quatro cavaleiros do Apocalipse, a fome, a peste e a guerra, são abolidos. O quarto, a morte, é higienizada, chegados os sessenta anos, em hospitais imaculadamente assépticos, sem dor nem drama. Deus está morto e arrumado, atrapalha a gestão da felicidade. A biotecnologia permite produzir seres humanos em série prudentemente dividindo a sociedade em castas, dos Alphas da elite governamental aos Epsilons dóceis, pouco inteligentes, feitos para os trabalhos manuais. A paz social é garantida por uma mistura perfeita de conforto, entretenimento e química.
No meio desta máquina aparece um Selvagem, alguém que vem de fora do sistema e recusa aquela felicidade fabricada. Ele tenta viver num farol, em penitência, a rezar, a trabalhar a terra, a flagelar-se para purgar a sujidade moral daquele mundo artificial. A sociedade descobre-o e transforma-o em atração turística. As variadas castas fazem excursões para o ver, como quem vai ao circo. A pergunta que fica é brutal: é preferível ser feliz e inconsciente, sem liberdade e sem noção de que se está preso, ou escolher ser livre, escolher o próprio destino mas para isso ter de enfrentar a dor, o sofrimento e a morte? O livro foi publicado em 1932. Cem anos depois, continua a falar connosco como se tivesse sido escrito ontem. Quem duvidar, olhe para a nossa eleição presidencial de 2026, retrato quase clínico do encontro entre o Estado único e o circo democrático televisivo em plena ação. Somos inundados por debates supérfluos, aborrecidos e por vezes medíocres, com alguns candidatos que mal conseguem reunir as assinaturas necessárias e, apesar disso, têm direito ao luxo da passadeira mediática, num interminável festival de tempo de antena em que quase ninguém discute seriamente o país e em que o formato engole o conteúdo. As figuras em palco comportam-se mais como concorrentes de reality show do que como aspirantes a Chefe de Estado. Não espanta que a televisão generalista, enquanto negócio, continue em queda acentuada. E, vaticínio meu, que não me atrevo com sondagens, a abstenção arrisca-se a ser a maior de sempre. Em algo havemos de voltar a ser grandes.
Este desastre institucional não nasce no vazio, nem sequer começou em Marcelo. Vem de uma democracia cansada, de aparelhos instalados e de uma cultura política que há muito se habituou à sombra confortável de um Estado omnipresente e tutelar. Em Marcelo Rebelo de Sousa encontrou, porém, o seu grande acelerador e catalisador, uma caricatura perfeita, quase grotesca, do pior que o cargo pode dar. Marcelo conseguiu a proeza de ser, em simultâneo, o líder das selfies e o pior representante do país, arrastando a Casa da Presidência para uma familiaridade exibicionista, quase de sala de estar televisiva, esvaziando a magistratura da sua gravidade. Belém deixou de ser Casa do Presidente para se tornar estúdio permanente de comentário político e sessão fotográfica, como se a Presidência fosse ruído de fundo. Multiplicou viagens pelo mundo, numa tournée quase turística, paga pelo contribuinte, sem critério, nem propósito estratégico e termina agora o seu pseudo-reinado com uma escapadela ao Mónaco, síntese perfeita de uma vida vivida à sombra do Estado, sem verdadeira prestação de contas.
O resultado é devastador. A Presidência deixou de ser o vértice de autoridade moral da República para passar a ser parte do ruído de fundo. O Presidente que deveria representar a continuidade institucional passou a viver de permanentes ruturas de opinião, consoante o vento mediático. A ânsia de passear, tirar fotografias, comentar tudo e o seu contrário, destruiu o arco de legitimidade e de respeitabilidade democrática que o cargo exigia. Marcelo, o comentador, confundiu proximidade com banalização. Em nome de estar “com as pessoas”, pôs-se ao nível de qualquer protagonista da espuma dos dias, e arrastou a Presidência atrás de si.
Deste legado nasce a eleição de 2026, negligenciada e esvaziada. Os candidatos surgem sem densidade, sem pensamento estruturado, sem sentido de missão institucional. Muitos parecem sobretudo ansiosos por garantir o seu lugar no painel televisivo do futuro. A própria arquitetura da campanha para 2026 é reveladora: em vez de escolhermos o Presidente da República, somos de facto que não de jure, convidados a participar num referendo permanente a André Ventura. O cargo é instrumentalizado como mais uma trincheira do combate partidário, não com uma função própria e deveres claros perante a Constituição e perante o país.
Ora, quando a eleição presidencial se transforma num referendo, o projeto de futuro desaparece. A pergunta já não é “que Portugal queremos e quem tem a preparação e o carácter para representar esse caminho”. A pergunta passa a ser “quantos votos conseguimos mobilizar contra aquele que mais irrita o sistema”. Isto é politicamente cómodo para a elite, mas é democraticamente lamentável. A teoria de Tocqueville completa-se: partidos, comentadores e aparelhos institucionais formam um mesmo espaço de poder, fechado sobre si próprio, que se limita a gerir medos e fobias em vez de discutir o interesse nacional.
Aqui chegamos às questões que preferimos varrer para debaixo do tapete. Esta febre utópica de representação popular, em que tudo é eleito, tudo é plebiscitado, tudo é medido em sondagens, deu-nos mais liberdade ou apenas mais ruído? A nossa opção republicana tem funcionado melhor do que funcionaria uma monarquia constitucional? Ou limitámo-nos a substituir símbolos?
Tudo isto nos traz de volta à mesma noção incómoda. Tenhamos nós república ou venhamos um dia a retomar a monarquia, pertençamos a esta Europa ou a outra qualquer, há um requisito mínimo que não é negociável: quem ocupa a chefia do Estado tem de ser uma pessoa preparada. Alguém com cultura, coluna vertebral, sentido institucional, capacidade de pensar para além do ciclo noticioso. Se ao menos fôssemos uma monarquia, essa preparação seria trabalhada desde o berço, em quem sabe que um dia há de encarnar o Estado.
Marcelo mostrou-nos este risco por experiência própria. Transformou a magistratura suprema do Estado num prolongamento do comentário político e da gestão sentimental da atualidade. Se depois disto a sociedade portuguesa achar que “correu mais ou menos bem” e repetir o erro, então o problema já não é dele. É nosso. E nessa altura já nem Tocqueville, nem Huxley, nos servem de aviso. Servem apenas de epitáfio.