Os debates políticos em Portugal e na Europa vivem aprisionados numa dicotomia pueril, uma  espécie de catecismo binário que reduz a complexidade da vida pública a um estéril confronto  de etiquetas. “Esquerda” e “direita” são palavras que, na boca de muitos, substituem o  pensamento. São dogmas, fórmulas de catequese ideológica que dispensam o esforço  intelectual e a subtileza da análise. Mais do que categorias políticas, tornaram-se identidades  tribais, matrizes emocionais que estruturam os preconceitos de cada facão e asseguram que  ninguém, jamais, terá de lidar com a desconfortável complexidade da realidade. A narrativa da  “esquerda progressista” contra a “direita retrógrada” é uma banalidade repetida por  comentadores entediantes e políticos com défice de imaginação. Para os devotos da esquerda,  a direita é uma expressão do conservadorismo fossilizado, do egoísmo social, da insensibilidade  aos mais fracos. Para os cruzados da direita, a esquerda é o bastião do delírio igualitarista, do  estatismo sufocante e do sentimentalismo económico. Ambas as caricaturas são, evidentemente,  imbecis.

Seria curioso perguntar a um marxista-leninista e a um social-democrata nórdico se pertencem  ao mesmo “campo político”. O primeiro, que vê na propriedade privada uma heresia, olharia para  o segundo como um traidor que se vendeu ao capitalismo. Mas, na semântica preguiçosa do  discurso contemporâneo, ambos são “de esquerda”. O mesmo se passa com um libertário radical  e um conservador católico: um defende a privatização de tudo o que mexe, o outro quer o Estado  a legislar a moralidade pública mas, de alguma forma, ambos pertencem ao espectro da “direita”.  Esta obsessão pelo enquadramento dicotómico é um conforto intelectual para quem quer evitar  a tarefa ingrata de pensar. Reduz tudo a um confronto de camisolas, onde cada um apoia a sua  equipa sem grandes reflexões sobre a lógica interna das ideias que diz defender. Assim, vemos  socialistas que não suportam impostos altos, liberais que exigem subsídios estatais e  conservadores que defendem políticas económicas de inspiração socialista. O problema agrava se quando esta dicotomia ultrapassa a mera linguagem e passa a estruturar a ação política. Os  partidos, conscientes de que o eleitorado se move por afiliações emocionais e não por análise  racional, cultivam essa infantilização do discurso. O PS e o Bloco de Esquerda apresentam-se  como os paladinos dos pobres, mesmo quando criam burocracias sufocantes que penalizam os  mais fracos. O PSD e o CDS acenam com o liberalismo económico, mas, quando chegam ao  poder, mantêm o Estado obeso e os seus tentáculos omnipresentes.

A divisão esquerda-direita tem origem na Revolução Francesa, onde os defensores do rei se  sentavam à direita da Assembleia e os revolucionários à esquerda. É patético que, dois séculos  depois, continuemos a encarar esta disposição geográfica como uma chave interpretativa válida  para a política moderna. Nenhuma sociedade contemporânea se resume à monarquia ou à  revolução, mas continuamos a organizar o debate público como se ainda estivéssemos no século  XVIII. O resultado é um anacronismo ridículo. Classificamos políticos com base em critérios  arcaicos, e muitas vezes contraditórios. Roosevelt, o presidente americano que expandiu o  Estado como poucos, é frequentemente descrito como “progressista”, mas na sua época foi visto  por muitos como um salvador do capitalismo. Margaret Thatcher, a musa da direita económica,  era radicalmente anticlerical e desprezava os valores morais da velha aristocracia conservadora  britânica. Onde os encaixamos? O mesmo se aplica a figuras nacionais. Sá Carneiro, um liberal  nos costumes e um defensor da economia de mercado, seria hoje “de direita”, mas, para os  padrões do seu tempo, era um modernizador e progressista. O PCP, que se diz de “esquerda”, defende uma visão do mundo que tem mais em comum com o autoritarismo reacionário do que  com qualquer ideia progressista.

Se há uma clivagem política realmente significativa, não é entre “esquerda” e “direita”, mas entre  estatistas e individualistas. Entre aqueles que acreditam que o Estado deve ser o arquiteto da  vida social e aqueles que defendem que a liberdade individual deve ser o valor supremo. Esta  divisão é transversal às etiquetas clássicas. Há socialistas que querem um Estado pequeno e  eficiente e conservadores que defendem o intervencionismo económico. Há liberais que aceitam  a existência de redes de segurança social e comunistas que toleram mercados regulados. A  política que interessa não é a que se baseia em slogans sobre “justiça social” ou “ordem e  progresso”, mas a que enfrenta a realidade tal como ela é. A discussão relevante não é sobre se  uma ideia é de esquerda ou de direita, mas se é eficaz, moralmente justificável e sustentável.

Mas isso exige um esforço. Exige abandonar o conforto do pensamento tribal e enfrentar a  possibilidade de que o nosso adversário possa, ocasionalmente, estar certo. Para muitos, esse  é um preço demasiado alto. É por isso que continuam a repetir, como papagaios ideológicos, as  mesmas ladainhas obsoletas, defendendo rótulos em vez de ideias e lealdades em vez de  princípios. A política não pode continuar a ser o domínio da superstição e da repetição acrítica  de dogmas. Se queremos um debate adulto, temos de enterrar, de uma vez por todas, essa  dicotomia infantil. O pensamento político não pode ser um exercício de pertença tribal, mas um  esforço contínuo de interrogação, correção e aperfeiçoamento. Tudo o resto é teatro.