Chegados ao fim dos debates legislativos, fica claro que a política nacional ainda não encontrou coragem para falar de um dos temas mais importantes: o envelhecimento da população e tudo o que ele representa para o presente e o futuro do país.

Durante mais de duas horas e meia de confronto entre os oito candidatos com assento parlamentar, discutiu-se de tudo — quem sobe e quem desce impostos, quem constrói mais casas, quem respeita mais o SNS, quem é o mais ético, o mais educado, o mais credível, o mais populista, o menos demagogo. Um desfile de egos e moralismos, onde não faltaram ataques calculados nem defesas coreografadas. Mas sobre a previsível e irreversível mudança estrutural do país — o envelhecimento da população — nem uma palavra. Nenhuma proposta, nenhuma visão, nenhum incómodo. Apenas o silêncio confortável de quem não quer abrir essa caixa de Pandora.

Num país onde mais de 2,5 milhões de pessoas têm mais de 65 anos — e onde as mais recentes projecções indicam que, em 2050, essa faixa etária poderá representar mais de 40% da população — o envelhecimento não pode continuar a ser tratado como uma questão técnica, periférica ou secundária. Trata-se de uma transformação profunda, com impacto directo em todas as áreas da nossa sociedade:

Vivemos hoje aquilo que se pode classificar como uma epidemia silenciosa de solidão. 552 mil idosos vivem sozinhos, e mais de 400 mil estão em risco grave de pobreza. Muitos deixaram de ter com quem falar diariamente, deixaram de sair à rua, deixaram de ser visitados. A solidão, prolongada, não é apenas uma questão emocional — é uma ameaça à saúde, à autonomia e, em muitos casos, à própria vontade de viver. E o mais perturbador é que esta solidão não é acidental: é o resultado directo de um modelo de sociedade que, em vez de integrar, isola.

A esta realidade junta-se um fenómeno igualmente inquietante, e que tem vindo a crescer no nosso país: o idadismo. Identificado pela ONU como a terceira forma mais prevalente de discriminação no mundo — apenas atrás do racismo e do sexismo — trata-se de um preconceito estrutural, muitas vezes invisível, mas profundamente enraizado. Infiltra-se nos discursos institucionais, nas políticas públicas e nos hábitos sociais. Reduz os mais velhos à condição de fardo, anula-lhes o protagonismo e desvaloriza as suas competências e experiências acumuladas. O idadismo não grita — silencia. E, nesse silêncio, nega-lhes o direito de continuarem a participar, a decidir e a influenciar a sociedade que ajudaram a construir

Envelhecer não pode ser sinónimo de solidão e discriminação

O envelhecimento da população não se resume a números nem deve ser encarado como um fardo. Pelo contrário: trata-se de uma das transformações sociais mais significativas do século XXI, com implicações transversais em todas as áreas da governação. A falta de preocupação com a dignidade da longevidade humana é apenas a face visível de um problema muito mais profundo.

Esta transição demográfica afecta a sustentabilidade do Estado Social, a arquitectura dos sistemas de saúde e segurança social, o ordenamento do território, os equilíbrios demográficos, os vínculos comunitários, o sistema de cuidados e o próprio papel da família. Ignorar esta realidade é comprometer a capacidade do país de se adaptar, de cuidar, e de crescer. Não estamos apenas a falhar com os nossos idosos — estamos a comprometer o futuro estrutural do país.

Mais do que viver mais, é preciso viver melhor — e com dignidade

É aqui que entra o conceito de envelhecimento activo. Um termo tantas vezes esvaziado, mas que deve ser assumido com profundidade política. Envelhecer activamente é ter direito à mobilidade, à cultura, à formação ao longo da vida, à digitalização acessível, à participação cívica. É ter espaços públicos pensados para todos os corpos, todos os ritmos, todas as vozes.

As nossas cidades, como estão hoje organizadas, não foram feitas para envelhecer. Foram desenhadas para quem corre, não para quem caminha devagar. Para quem sobe escadas, não para quem precisa de elevadores. Para quem vê bem, ouve bem e tem força nas mãos. Tudo o resto — que é muito — continua a ser deixado para a periferia.

A ausência de uma verdadeira estratégia nacional para o envelhecimento activo, intergeracional e digno é uma lacuna grave — e cada vez mais insustentável. Não bastam intenções ou medidas pontuais: é preciso um programa coerente e transversal de políticas públicas, com objectivos claros, recursos adequados e impacto mensurável. Um programa que envolva o país como um todo, mas que tenha no poder local o seu pilar central. Porque é nas autarquias que está o conhecimento próximo do território, das pessoas e das suas necessidades concretas.

São os municípios e as freguesias que conhecem os rostos por detrás dos números. São eles que identificam o isolamento, antecipam situações de vulnerabilidade e conseguem construir respostas integradas e sustentáveis.

É ao nível local que deve assentar a arquitectura da resposta à solidão, à exclusão cultural, à falta de mobilidade, à perda de autonomia. Mas essa resposta não pode assentar apenas em programas sociais — exige políticas intersectoriais, que articulem habitação, saúde, urbanismo, cultura, desporto, educação e participação cívica. Porque envelhecer com dignidade é um desafio transversal — e profundamente político.

Não podemos continuar a esquecer quem nunca nos esqueceu

O fim dos debates legislativos revelou prioridades. E, por omissão, revelou também os silêncios que persistem — aqueles que dizem tudo sobre o que ainda não queremos enfrentar. Este país não é para velhos. Não enquanto continuarmos a vê-los como uma despesa, em vez de um investimento. Não enquanto tratarmos o envelhecimento como um problema logístico, em vez de uma responsabilidade moral e política.

Mas este país pode — e deve — ser para todos. Para os jovens que sonham, para os adultos que constroem, e para os mais velhos que sustentam, com discrição e coragem, a memória, os valores e a identidade de um povo. É dar sentido à palavra dignidade. É cumprir, finalmente, o contrato social em toda a sua extensão.

Porque um país que não cuida dos seus mais velhos trai os seus princípios mais básicos. E um país que esquece quem o fez crescer, arrisca perder-se de si mesmo.