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Há mais de 1 ano que a maioria das pessoas decidiu deixar de viver com medo de morrer.

Isto é novo. Parece que morrer passou a ser um risco que nunca ninguém tinha pensado correr antes do Covid aparecer.

Caíam aviões e pontes, terramotos e inundações devastavam populações, doenças respiratórias, cardíacas, diabetes e cancro batiam, acidentes de viação matavam … mas vivíamos, sem pensar na morte.

Até ao ano passado, estávamos cientes de que viver era um risco e por isso mesmo devíamos aproveitar cada dia.

Na medida do possível e das preferências de cada um, repartíamos o tempo entre o trabalho e o lazer. Íamos ao cinema em pequenos grupos, sentávamo-nos à volta duma mesa para um almoço com amigos, que acabava já a noite ia longa. E metade do tempo a falarmos precisamente de comida. Porque o mais importante não era o tema da conversa mas sim a companhia. Ríamos juntos, recordávamos tempos idos, prometíamos momentos futuros.  Íamos à praia, comemorávamos datas, reuníamo-nos em tristezas, conversávamos, discutíamos ideias, partilhávamos opiniões … éramos pessoas individuais que há séculos optaram por viver em sociedade e (também por isso mesmo) serem mais felizes. Porque há séculos que percebemos que assim era o melhor para todos.

O ano passado tudo mudou. O paradigma sofreu uma reviravolta de 180º. Agora, ao contrário do tempo anterior, não se vive. Para não se morrer. Fica-se em casa. Não deve haver contacto entre as pessoas. Não se vai à escola. Não se vai à empresa. Não se vai ao jardim. Não se vai à praia. Não se podem casar. Falecer, até podem, mas sozinhos. As pessoas deixaram de conversar. Até porque não se veem. Mas agridem. Atiram culpas. Identificam “irresponsáveis” que os colocam em risco. Chamam negacionistas e conspirativos a quem pensa diferente.

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E enquanto uma maioria cumpre com todo o rigor o que as autoridades lhes fazem acreditar ser a verdade e o certo – com total cumplicidade dos media – ao lado, morrem muitos mais. De fome, de desespero, de coração, de cancro … muitos outros vão morrer porque não são diagnosticados, porque as cirurgias, ou sequer as consultas, foram (eternamente) adiadas … e muitos morrem sem ter tido sequer a possibilidade de viver os seus últimos momentos, em liberdade, em contacto com a natureza, com as pessoas, a fazer o que os faria mais felizes, mesmo antes de morrer.

Esta semana perdi uma amiga. Era a Virgínia, a minha querida Gi.  Pior, o mundo perdeu uma mulher FABULOSA. Empreendedora, super trabalhadora, com uma capacidade de inovar extraordinária, na pole position do digital, altruísta, amiga de todos, amiga dos mais necessitados, sempre a canalizar energia e recursos para quem mais precisava, e a puxar por todos os que podia para fazerem o mesmo. Explicava todos os dias que o equivalente a um café por dia, podia fazer a diferença a uma das muitas crianças de Moçambique que precisavam de ajuda, país onde ela tanto desenvolveu as suas iniciativas de voluntariado e onde era tão feliz. Dava a mão a todos sem excepção. Era uma líder nata. Influenciava pelo sorriso, pelo discurso, pelo à vontade de quem é genuinamente bom. Nos seus últimos dias, consciente de que ia morrer, esteve a preparar um fundo, através da Associação Girls Move, para ajudar à criação de uma nova geração de mulheres líderes em Moçambique – era assim a minha Gi.

Eu estou revoltada, profundamente triste, sem ser capaz de perceber ou aceitar. Mas eu sou só eu. O pior é que o mundo ficou mais pobre. A Gi deu muito mas tinha tanto mais para dar. Porque a Gi, apesar de ter feito tanto, só tinha 36 anos. Querem-me então explicar qual o sentido duma pessoa única, rara, duma bondade indescritível, morrer em 1 mês e meio, com um cancro raro, fulminante, sem ter podido viver os seus últimos meses de forma livre como ela tanto gostava? Obrigaram-na a ficar fechada, isolada, tal como todos nós, em confinamento! Não fosse contagiar algum idoso com Covid e este arriscar-se a morrer aos 90 anos em vez de 6 meses depois.

O perigo que é este Covid. Que matou 2% dos casos confirmados da população – ou 0,16% face ao número de testes (Fonte: Min-Saúde), onde se incluem os assintomáticos, enquanto o cancro representou em 2019, 25,5% das mortes, só “ultrapassado” por doenças do aparelho circulatório que foi responsável por 29,9% das mortes em Portugal (Fonte: Pordata).

Sem sequer referir que se morre COM covid e não DE covid, recordo que um Covid não mata assintomáticos mas um cancro não diagnosticado, terá uma probabilidade elevadíssima de provocar a morte.

Anualmente faziam-se em média 100.000 rastreios de cancro da mama. Em 2020 fizeram-se cerca de 9.000. E este será porventura o mais rastreado. O aumento de casos e de mortes será brutal. Mas só o Covid interessa. Pior, o que querem fazer dele.

Vamos continuar a não viver com medo de morrer? Privaram a minha Gi de ser feliz no seu último ano de vida. Tinha 36 anos.

Podemos pelo menos fazer um acordo? Quem não quer viver com medo de morrer, fique em casa. Sozinho. Tem a televisão, o Facebook e o Whatsapp. Percebo que possa ser suficiente para alguns ou mesmo muitos. Só desejo o bem a todas essas pessoas. Estão no seu direito. Mas deixem-me a mim viver. A mim e a todos os que estão dispostos a correr esse risco. Que acreditam que ser feliz por pouco tempo é melhor que ser infeliz a vida toda.

Descansa em paz querida Gi.