Dizem que é preciso uma aldeia para educar uma criança. Mais do que uma frase feita, este pressuposto tem validade para a reflexão sobre os desafios do sistema educativo – entre os quais o reforço da autonomia dos jovens. Nesse sentido, a autonomia dos alunos ganha muito com uma colaboração eficaz entre pais e professores. Os pais educam e os professores ensinam – e o sucesso resulta desse trabalho em equipa: criar jovens adultos responsáveis e autónomos, capazes de comandar as suas próprias vidas.

Em teoria, os pais é que mandam na educação dos seus filhos. Mas, como passam menos tempo em família do que gostariam, acabam por se apoiar na escola e nos professores. Do meu contacto com os alunos e as escolas, verifiquei que em média os alunos reportam passar cerca de oito horas diárias com os seus professores e entre uma a duas horas com os seus pais. Os números falam por si. Naturalmente, isso não retira legitimidade aos encarregados de educação para definir o tipo de educação e os valores a transmitir aos seus educandos, mas alerta para um desafio: os alunos passam muito tempo na escola e, como tal, é necessária uma maior colaboração entre pais e professores.

Apesar disso, temos pouca cultura de trabalho entre pais e professores – fundamental para estes saberem mais sobre os seus alunos e definirem uma estratégia (com os pais) para dar às crianças e aos jovens uma educação mais completa e adaptada às suas aspirações e necessidades. Mesmo que os pais possam não gostar dos Professores dos seus filhos, são os professores que passam oito horas por dia com eles. São os professores que tomam muitas das decisões importantes sobre a vida dos seus filhos. E são os professores que muitas vezes ajudam os alunos a tornarem-se mais independentes, responsáveis e autónomos nas suas tarefas – o que nem sempre é fácil de conseguir. Mas há formas inovadoras para o fazer.

A escola deve ser um espaço que prepara os alunos para a vida adulta. Mas ao contrário da vida real, em que temos responsabilidades (incluindo a de tomar várias decisões em incerteza), na escola aos alunos é-lhes atribuído um papel passivo. Em grande medida, até ao 9.º ano, limitam-se a estudar as disciplinas do programa e a passar de ano. Para poderem desenvolver a sua autonomia, as crianças e jovens também têm de poder ter protagonismo e responsabilidade na sua educação, de tomar decisões e poder aprender com os resultados, sucesso ou insucesso. Há diversas formas de o fazer, sem comprometer a sua aprendizagem. Por exemplo, e se os alunos também fossem responsáveis pela sua escola? E se os alunos servissem os seus colegas na cantina uma vez por mês? E se pintassem a escola ou desenhassem um novo espaço para a tornar mais ao seu gosto? Estes são processos de resolução de problemas e de aprendizagem, desenvolvimento de autonomia e de cidadãos maduros. Nestes processos inovadores, os alunos aprendem a gerir um plano, a pedir autorização e fundamentar o pedido, e depois são eles que fazem acontecer e colhem os louros – exactamente como será na vida adulta. As escolas têm aqui uma enorme fonte de inovação, de energia e mobilização para a resolução de desafios da comunidade escolar.

Participar é fundamental para se saber valorizar. Os alunos muitas vezes não valorizam a escola porque não sabem o trabalho e esforço que já lá está. E se têm ideias melhores, que as implementem. A maior parte dos alunos provavelmente nem tem a noção de como funciona a escola e do que é necessário para o seu funcionamento. E nem nós! Em tempos, no âmbito de um projecto, fiz as contas e custava 43 playstations por aluno até concluir o 9º ano. A cara de surpresa absoluta dos alunos ilustrou bem que aquela escola afinal tinha por detrás um grande esforço de todos. A boa noticia é que muitos alunos querem dar o seu contributo. Assisti em Portimão a algumas iniciativas de alunos. Uma pretendia combater o estigma dos cursos profissionais na escola. Para tal desenvolveram conteúdos a explicar as vantagens dos cursos profissionais e depois realizaram workshops para passar a mensagem aos colegas do 9.º ano, para que estes pudessem fazer uma escolha mais informada. Outro grupo procurou uma série de workshops para os preparar para a vida adulta, como cozinhar ou preencher os impostos.

Não há segredos nem fórmulas únicas. A Autonomia vai-se construindo, momento de superação a momento de superação. Mas é fundamental construi-la. Por um lado, é uma excelente forma de preparar os jovens para o futuro. Por outro lado, pode servir de incentivo e beneficiar as comunidades educativas a que pertencem. Acredito que este protagonismo e responsabilidade, se devidamente enquadrado num projecto pedagógico, é uma oportunidade de ajudar os alunos a perceber a capacidade que eles têm para influenciar a escola e o seu envolvimento. Se formos envolvendo os alunos, estamos a ajudá-los a descobrir como o mundo funciona e que capacidades eles têm. E, no fim, teremos com certeza escolas melhores.

Afonso Mendonça Reis é fundador das Mentes Empreendedoras, Inspira o teu Professor, Global Teacher Prize Portugal, foi nomeado um Global Shaper em 2012 pelo Fórum Económico Mundial.

 O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para semanalmente discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre a inovação social. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor e não vincula os Global Shapers de Lisboa.