Não sei que sentimentos isto provoca nos outros, mas a mim zanga-me e repugna-me. Isto, de que falo, é a revoltante mania de sujar com sprays indeléveis e tags horríveis, verdadeiramente repugnantes, todos os prédios, portas e portões, monumentos, casas, ruas, esquinas, alçados e outras paredes da cidade.

Em Lisboa, os vândalos que atacam tudo o que é pedra, nova ou antiga, e assinam de forma nojenta tudo o que foi construído ou está a ser reconstruído, não respeitam nada nem ninguém. A obra pode ainda estar em curso, que eles chegam perversamente armados de sprays só para sujar e deixar a sua ilegível assinatura.

Há ladrões que ficam conhecidos por deixar sempre um grande cocó nas casas que assaltam, para dizerem aos donos das ditas casas que se estão literalmente a ‘cagar’ para eles. Os vândalos dos sprays fazem pior e mostram, literalmente, que se estão nas tintas. Não defecam nem deixam matéria orgânica, mas o que fica do lado de fora das casas é impossível de limpar com detergente nem se pode desinfetar e, muito menos, varrer com uma vassoura.

Deixam riscos e traços descomunais, sem arte absolutamente nenhuma, só para sujar e chatear. Fazem pinturas que degradam e obrigam a gastar muito dinheiro para recuperar o que estragaram. Desolam proprietários e moradores, mas também os homens das obras e todos os que se preocupam em cuidar e recuperar o património da cidade.

O centro histórico de Lisboa é um cenário preferencial para estes selvagens que quotidianamente chegam só para vandalizar. Curiosamente esta gente age e ninguém reage. Destroem o que querem e nada lhes acontece. Aparentemente nenhum polícia, nenhuma autoridade camarária se preocupa com o assunto.

E, no entanto, não há dia ou noite que passe sem que sejam feitas mais tags, tantas vezes umas em cima das outras, cada vez maiores e de cores mais berrantes, para não passarem despercebidas. A voracidade destruidora é tal que há cada vez mais casas e prédios irremediavelmente sujos. Absurdamente pintados, mascarrados por uma legião de rebeldes sem causa que, ainda por cima, comprometem a arte dos que fazem belos graffitis e, esses sim, acrescentam valor à cidade.

Não existe qualquer semelhança entre um muro ou mural bem graffitados e uma parede ou porta sujas por delinquentes do spray. Uns fazem arte urbana, outros produzem traços abjetos. Uns salvam pela cor, pela genialidade do traço e pela força das mensagens; outros destroem pelo prazer de destruir. Só por isso.

Vi o que aconteceu no dia em que os pintores estavam a acabar de pintar de amarelo todo o largo das Belas Artes, no coração do Chiado. No preciso momento em que pousaram os pincéis e viraram costas para os irem lavar, o largo foi invadido por um bando furtivo que sujou várias paredes de preto, só pelo gozo de sujar.

Um pouco mais acima, já de frente para o Bairro Alto (todo ele atravessado por ruas tagadas, devastadas, como se sabe) estão a ser recuperadas várias casas e prédios, mas também um palacete que faz esquina, ao Calhariz. Ainda a obra vai a meio e já a pedra antiga, acabada de ser limpa e recuperada, está toda escrevinhada. Passei lá num dia de particular desânimo entre os homens que tinham estado de volta da pedra semanas a fio. Fizeram um trabalho rigoroso e deixaram tudo impecável, mas mal acabaram de arrumar as ferramentas já as paredes estavam um nojo. Compreendo o seu desânimo e toda a frustração que este terrorismo gráfico gera.

Não consigo conjugar verbos mais leves, nem usar adjetivos menos fortes porque é impossível permanecer educado perante gente capaz de tanta alarvidade e falta de sentido cívico. Não sei quem são e gostava de nunca me cruzar com nenhuma destas pessoas para quem a cidade, as ruas, os monumentos e as casas servem apenas para estragar, mas também não sei porque é que as autoridades não atuam e fingem que não vêm o que está à vista de todos. Os polícias fazem o seu giro dia e noite, e os agentes da CML também andam por toda a cidade, mas ninguém, absolutamente ninguém, faz rigorosamente nada.

Sabemos que o presidente da Câmara de Lisboa é um homem viajado e cosmopolita, que visita e é visitado por outros ‘mayors’ de grandes cidades onde não há o menor vestígio de mãos que atacam com sprays. Estou a pensar em Chicago, por exemplo, onde ninguém se atreve a tagar uma rua, um prédio ou uma parede só para sujar e degradar. Há, pelo mundo, muitas outras cidades e bairros históricos preservados destes bárbaros. Cidades onde foram tomadas medidas eficazes de prevenção, quero dizer.

Num tempo em que a cidade de Lisboa está em alta e é visitada por milhões de turistas, numa era em que importamos tanta coisa ‘do estrangeiro’, como se diz, confunde-me que ninguém se importe com esta forma de delinquência contra o património da cidade. Revolta-me que não preservemos o que é nosso, de todos. E, insisto, repugnam-me estes e outros rebeldes sem causa, que agem exclusivamente movidos pelo prazer de destruir e fazer mal.

P.S.: Devido à passividade das autoridades e à impunidade dos criminosos, Lisboa é internacionalmente conhecida por ser um paraíso para estes ‘taguistas’, que viajam de propósito para sujar ainda mais. Muito mau.