Naquele tempo, tendo sabido que em Mar-a-Lago da Flórida, decorria uma celebração em sua honra, S. José encaminhou-se até à praia que leva o nome da palmeira. Ora, Mar-a-Lago ficava à beira do mar. Era propriedade de Donald, o quadragésimo sétimo, e tinha sido edificada por ordem de Marjorie Merriweather Post, herdeira de grandes celeiros e mulher de renome entre os abastados.

Vestido com o traje nupcial, José pediu para entrar na festa. “Possuis o General Ticket, no valor de 1.200 dólares, que dá acesso à social hour e ao jantar?”, perguntaram-lhe por detrás da porta. “Não”, disse ele. Então, aproximou-se outro servente e disse: “Tereis, porventura, o St. Joseph Ticket, no valor de 1.500 dólares, com o qual entrareis no Mar-a-Lago Club, numa missa, numa conferência exclusiva num hotel das proximidades, ao mesmo tempo que acedereis a um pequeno-almoço continental e a diversas oportunidades de network”? Cabisbaixo, S. José retirou-se entristecido, pois não o possuía. Era o décimo nono dia, do terceiro mês.

De facto, como é costume entre os povos americanos, havia que cumprir os preceitos do senhor, como aquele que diz: “reunirás um grupo exclusivo num resort de luxo pertencente ao presidente americano, a fim de festejar o aniversário de José, o carpinteiro, em particular com pessoas que tenham já intitulado o representante na terra do seu filho – conhecido entre nós como Papa – como ‘palhaço diabolicamente desorientado’”. Na verdade, um José tinha sido convidado. Tratava-se de Joseph, o Strickland, que tinha já denominado o Sumo Pontífice como “usurpador da Cátedra de Pedro”. Mas, além dele, muitos outros tinham comparecido. Entre eles estavam Roger Stone, o lobista, acusado em 2020 de corrupção e obstrução da justiça, que tinha, também, criado centenas de contas falsas em redes socais, a fim de elaborar um esquema de influência política, assim como Jack Posobiec, fervoroso adepto da teoria do Pizzagate, ou Michael Flynn, que confessara ter mentido ao FBI. E cada um, por sua ordem, falou ao povo segundo os preceitos do senhor. E assim ficou provado que Deus apanha os seus na sua astúcia, pois tinha razão aquele que havia dito que, na Igreja, há lugar para “todos, todos, todos”; até para lobistas com alegadas ligações ao Kremlin. E tudo isto aconteceu, em Mar-a-Lago, por ocasião da segunda gala anual daqueles que se chamavam Catholics for Catholics. 

Diante do sucedido, podemos concluir com segurança: tratou-se de um evento inovador. E em vários aspetos. Primeiro: ao nível cinematográfico. No seu discurso, Taylor Marshall disse que “demónios foram enviados para a América”, e que “até nas nossas Igrejas tem havido uma infiltração do mal, em especial durante os últimos 4 anos de Joe Biden”. Ora aí está uma ideia a que Hollywood deve estar mais atenta. Há demasiados filmes com aliens, monstros grotescos, zombies e robôs a invadir América. Porque não investir em filmes onde o Diabo é o protagonista? Ou até com personagens aterradoras de outro campeonato como a Fada Madrinha, a Heidi, o Casper – o fantasminha – ou os Trovante?

Segundo: ao nível educativo. Temo-nos queixado que existe um défice de educação religiosa e cívica. E, por isso, a organização disponibilizou vários suplementos pedagógicos para colmatar esta falha. Por exemplo, um calendário onde, na capa, a Virgem Maria surge ao lado da declaração da independência americana; um cartão de natal, onde, em lugar de Cristo, aparece Donald Trump diante da Casa Branca, com a inscrição: “I’ll Be Home For Christmas”; ou ainda uma camisola, na qual se vê Trump, a bandeira dos Estados Unidos e São Miguel, sob o lema: “St. Michael, Defend Us In Battle”. Em tempo de pré-campanha eleitoral aqui fica, igualmente, uma inspiração para refrescantes brindes de marketing político de que certamente a LPM nunca se lembrou. Eu, por exemplo, a partir de hoje, só compro calendários onde surjam lado-a-lado, na capa, S. António e o Tratado de Zamora.

Terceiro: ao nível ecológico. Se a ideia de ser Catholics for Catholics é para levar a sério, as emissões de C02 vão levar um rombo. Só com os missionários que vão ficar sem destino, é bem capaz de deixar de existir buraco do ozono. É que Nosso Senhor mandou os discípulos anunciar a sua palavra “até aos confins do mundo”, mas esqueceu-se dos gases com efeito de estufa, o que, para um ser omnisciente, é abrir flanco aos ateístas. A Igreja não é uma elite ou um clube privado, mas há sempre quem goste de brincar às sociedades secretas.

Ainda assim, desengane-se quem acha que o encontro não foi, de igual modo, inovador ao nível doutrinário. Num vídeo publicado pela organização é dito que “os detratores que chamam a isto um evento político, não podem estar mais enganados”. De facto, a Igreja sempre ensinou que há coisas que só se veem com os olhos da fé. Hoje sabemos que outras tantas só são atingidas à luz da má-fé. Afinal de contas, tratou-se de um evento de oração. Também queriam o quê? Por 1.500 dólares não se consegue fazer melhor.