Na história que se segue convida-se o leitor a fazer uma reflexão de cariz filosófico sobre o caso da mãe que lançou o seu bebé recém-nascido no contentor do lixo nas imediações de Santa Apolónia. O jogo de emoções contraditórias que este caso de consciência vem suscitando na opinião pública e nas redes sociais nacionais configura o que o filósofo Espinosa chamou na sua Ética «flutuação do ânimo», um estado de confusão da mente originado por dois afectos contrários de semelhante intensidade.  Em “Sara, mãe em Santa Apolónia”, podemos falar da presença simultânea na mente da opinião pública portuguesa dos afectos de comiseração e misericórdia e de indignação e repugnância. Mas antes de passarmos à caracterização ética deste conflito de afectos, são necessárias algumas palavras prévias sobre a vida e a experiência das emoções nas sociedades contemporâneas.

Recalcada durante séculos como o negativo obscuro e diabólico da razão, a emoção bruta imediata reaparece hoje, pela porta das traseiras das nossas moradas electrónicas, eventualmente mais viva e mais selvagem do que nunca. A sua virtualidade ou o seu carácter não presencial não a eximem a uma violência capaz por vezes de destruir os laços cívicos mais elementares de uma dada sociedade. Pelo contrário. A expressão pública desordenada das emoções políticas mediante o que se poderia chamar o automaton tecnológico tende hoje a reforçar a sua passividade e negatividade, mais do que a potenciar a sua actividade e positividade. É como se por força do dispositivo tecnológico-político contemporâneo vivêssemos numa crise permanente e sistémica dos afectos, numa espécie de primitivismo ético, mobilizados numa roda livre de emoções contraditórias e numa constante «flutuação da mente», com a consequente superstição, desorientação prática e estultícia que daí resultam.

De facto, vivemos hoje, nas nossas sociedades comandadas pela tecnologia e pelo espectáculo, pela aceleração da vida social, pela dramatização das relações políticas, pela instabilidade das condições económicas, pelo apocalipse climático, um autêntico «culto da emoção». Este culto da emoção manifesta-se de forma diferenciada, mas sempre de modo massivo e obsessivo, como se as sociedades cuja moral progressivamente se tecnologiza, intensificassem uma forma de neurose social colectiva à qual poucos indivíduos conseguem realmente escapar. Da liturgia deste culto faz parte desprezar de maneira ostensiva os alegados excessos modernos de uma visão da vida e do mundo hegemonicamente racionalista, hoje declarada definitivamente morta e apressadamente substituída por um reducionismo não menos faccioso e perigoso, a que poderíamos talvez chamar emocionalismo das multidões.

Na verdade, qualquer um dos variados âmbitos da actividade humana tende hoje a ser abordado a partir de uma perspectiva fundamentalmente ou exclusivamente emocional. Um slogan simplificador capaz de dar conta desta nova situação moral crítica em que nos encontramos poderia ser o seguinte: «Viva a Emoção. Abaixo a Razão». O seu pressuposto obscurantista é mais ou menos o seguinte: “Se as próprias neurociências nos permitiram recentemente descobrir que as emoções comandam tanto a vida privada como a vida pública, e se a razão é efectivamente escrava das paixões, então abandonemo-nos inteiramente às emoções e entreguemo-nos a todo o tipo de experiências garantidas pelo grande mercado político das emoções. Active-se, em cada indivíduo, a sua fibra mais passional. Abandone-se o raciocínio. Vá-se directamente ao coração. Emocionarmo-nos é bom. Raciocinarmos é mau”. Mais do que aprender a pensar, precisaríamos hoje sobretudo de aprender a sentir, de aprender a «sentir tudo de todas as maneiras», como dizia o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos nos seus momentos de ócio.

Sabemos como nas sociedades contemporâneas os media funcionam cada vez mais como repositórios instantâneos dessa desordem ou caos emocional, amplificando um caldo emocional global composto pelo que Elias Canetti chamou as «descargas emocionais» das massas, que hoje operam em rede como multidões ou matilhas virtuais. Numa espécie de antecâmara de um regresso à floresta, os media funcionam hoje como tambores ou meta-alertas da emoção num implacável capitalismo da atenção. Mas estas «correntes emocionais», produzidas, reproduzidas, intensificadas e recicladas permanentemente nos media, não sendo enquadradas institucionalmente e articuladas política e socialmente, desembocam demasiadas vezes numa afecção histérica alarve e numa desmesura sentimental sem qualquer propósito ou sentido cívico, actuando como autênticos coágulos de estupidez e como factores de envenenamento irracional da vida pública.

A este respeito, pode afirmar-se que um dos efeitos mais decisivos da globalização, a chamada «desregulação», não se cinge apenas ao âmbito económico e financeiro dos mercados, nem ao higienismo performativo das tecnologias da informação e comunicação, ela diz também respeito a todo o tipo de «descargas emocionais» que nos atingem numa espécie de electricidade sentimental que abarca todo o globo. Esta electricidade sentimental, sendo global, tem efeitos locais imprevisíveis, de tal modo é flutuante, contingente e efémero o fluxo vertiginoso das emoções, de tal modo os compostos emocionais, na sua potência de descarga, se encontram hoje submetidos a uma aceleração e a uma espectacularização, executadas e magnificadas sob a exultante forma estética da tragédia. Toda a espécie de cataclismos ambientais, terramotos, maremotos, ciclones, incêndios, envenenamentos químicos, pestes nucleares, atentados terroristas, guerras, pânico nas bolsas, tudo serve ao grande vórtice do Maelstrom das emoções.

Aplicada à nova experiência das emoções realizada sob condição tecnológica, talvez esta metáfora marítima, retirada de um extraordinário conto de Edgar Allan Poe chamado «Uma Descida no Maelstrom», espelhe bem o perigo e a espectacularidade ambígua do vórtice ou redemoinho emocional que age no interior desse grande sorvedouro ou desse gigantesco funil político em que hoje nos encontramos por força das nossas «flutuações do ânimo».

Perante este Apocalipse Now Emocional, não espanta que alguns autores possam considerar que as nossas sociedades se encontram muito mais ameaçadas pela emocionalidade do que em princípio elas estão dispostas a admitir. A gregaridade da massa impõe-se ao individuo. É como se uma “mancha”, um “inchaço” ou um “tumor” emocional tomassem conta do corpo da própria língua da tecnologia e de todas as formas políticas da sua transmissão e comunicação.

Concluo com uma suspeita. Todos os sinais disponíveis apontam para que com o decorrer do tempo e o progresso da tecnologia esta desordem emocional se venha a tornar cada vez mais num problema político de primeira grandeza nas nossas sociedades, vindo ele previsivelmente a exigir da disciplina da Filosofia, e dentro desta dos recursos particulares da Ética e da Retórica,  contributos cada vez mais constantes e exigentes, capazes de criar e de desenvolver o que se poderia talvez chamar os princípios ou fundamentos filosóficos de uma terapia das emoções políticas. Devemos aqui ter presente que a relação entre as três dimensões fundadoras da retórica clássica, que delimitam ainda hoje a nossa actividade política, a saber, a relação entre logos, ethos e pathos, se alterou e se desequilibrou profundamente em desfavor do logos. Numa fórmula simples dir-se-á que do ethos já só praticamente reconhecemos o pathos, e que do logos pouco ou nada queremos saber. Imaginem-se três círculos sobrepostos no espaço. Os círculos menores do ethos e do logos são hoje intensamente absorvidos pelo círculo maior, cada vez maior, do pathos.

Face aos desmandos sentimentais que caracterizam a esfera pública contemporânea, torna-se cada vez mais necessária uma regulação política das emoções. E cabe precisamente à Ética e à Retórica o trabalho pioneiro de invenção de novas ferramentas conceptuais capazes de ordenar e de regrar os desarranjos políticos e cívicos causados pelo que atrás chamei a “electricidade emocional global”. Afinal, a Ética não é mais do que um arranjo inteligente das emoções. Dito de outra forma, a Ética é a própria «inteligência emocional» em acto. Contudo, o desencadeamento sem freio e a explosão permanente de emoções na esfera pública virtual, o jogo histérico e supersticioso da “emoção pela emoção”, é a mais completa negação da Ética, se por esta entendermos não meramente uma teoria moral dos deveres, mas, à maneira de Espinosa, uma teoria da potência que nos encaminha ou pode encaminhar para a experiência cívica e republicana da liberdade.

Precisamos por isso cada vez mais de conceber uma ética das paixões à altura dos desafios do «emocionalismo» e «sentimentalismo» político contemporâneos, determinados de maneira cega pela tecnologia ou pelo que poderíamos eventualmente chamar a governabilidade algorítmica das paixões e dos interesses. Há muito tempo já que sabemos que a vida gregária das emoções está primariamente conectada às afecções de «dor» e de «prazer». As emoções, pensava Aristóteles, introduzem mudanças na nossa faculdade de julgar sem que delas sejamos plenamente conscientes. Sob esta perspectiva, percebe-se que para uma sociedade desregulamentada emocionalmente possa ser extremamente apelativo o modelo de uma compreensão do funcionamento das emoções na vida contemporânea a partir da radicalização e flutuação entre os sentimentos de dor e de prazer tal como estes se apresentam nessas perversões sexuais de base que são o masoquismo o sadismo. Talvez, aliás, o like/dislike solicitado nas redes sociais não seja senão a simplificação e vulgarização grosseiras desta flutuação do ânimo.

Seja por iliteracia, seja por indiferentismo cívico, são muitos os cidadãos que descuidam e negligenciam a importância pública ou o papel político das emoções sob a nova condição tecnológica da sua expressão. Eles presumem talvez que os fins políticos de uma sociedade se formam por uma «ordem espontânea» e se bastam a si mesmos, sem nenhuma necessidade de um treino ou de uma preparação para uma capacitação emocional adequada. A história e a experiência, no entanto, provam bastas vezes exactamente o contrário. Como diz a filósofa norte-americana Martha Nussbaum, uma autoridade nestes assuntos: «O que acontece ao bem carente de emoção quando concorre com um mal carregado de emotividade?»