Quis Deus ou o acaso absoluto que a evocação dos vinte anos da tragédia de Entre-os-Rios ocorresse em plena pandemia, recordando-se os mortos daquela por entre os defuntos desta. Existe entre os dois acontecimentos, um, tortuoso passado, outro, insuportável presente, uma paradoxal semelhança que interpela e agita a monotonia dos dias.

Há duas décadas atrás, o país adormecia sobressaltado pelo colapso da Ponte Hintze-Ribeiro, cujos escombros engoliram para as profundezas do abismo cinquenta e nove corpos. Desses, só vinte e três voltaram à terra, para debaixo dela apodrecerem. Os restantes trinta e seis nunca viram o jazigo que se lhes destinava.

No momento em que escrevo, Sábado, e desde Março do ano passado, o vírus que suspendeu o nosso quotidiano ceifou dezasseis mil, quinhentas e doze vidas.

A diferença?

No desastre da queda da ponte de Entre-os-Rios, salta-nos à vista a ausência do símbolo essencial da morte – o cadáver, o corpo sem vida, a confirmação do óbito de que só havia indícios. No momento presente, sob o sudário da catástrofe sanitária que nos aterroriza, há corpos, mas ressaltam as limitações impostas ao número de pessoas que podem presenciar os funerais, as mais das vezes restritos apenas a familiares e, dentro destes, aos mais próximos, a proibição dos velórios nos casos em que o defunto se encontrava infectado, a proibição de tocar, pela derradeira vez, o cadáver na última hora, antes que a terra o coma.

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A semelhança?

Num caso e noutro, entre a inexistência de corpo a enterrar e a ausência da comunidade para o homenagear, dá-se a amputação de parte crucial do rito da morte. Num caso e noutro, famílias e comunidades inteiras viram-se, vêem-se privadas de cumprir a plenitude da liturgia da despedida final.

A morte, que traz consigo a angústia da impotência perante a nossa própria finitude, é parte inolvidável da equação de que a vida é o outro termo. Só a certeza da morte empresta sentido à vida e aos dias que, sem aquela, se sucederiam num inquebrantável, mas doloroso ad-eternum. Só a consciência do fim liberta o riso dos loucos, que assim troçam do triste fado que a todos nos aguarda.

Acontece que a morte, para ser compreendida, há-de ser enquadrada. Os rituais fúnebres cumprem essa função, permitindo a observância de um processo de luto dirigido à reorganização da vida quotidiana e interior, que a morte desorganiza àqueles que lhe vão, por enquanto, sobrevivendo. A morte é uma ruptura profunda, que interroga e rompe a ordem dos dias, e as culturas dos povos encontram respostas para ela por meio de rituais que oferecem um horizonte definido para a manifestação de afectos e para a aceitação do fim. O velório, o funeral, são, para além do que antecede, uma homenagem última a quem parte, aos quais tradicionalmente acorrem não só as famílias, mas também as gentes da terra, conhecidos e amigos, seja do defunto, seja dos enlutados.

Os rituais fúnebres são, portanto, um símbolo, um signo conformador desse outro símbolo que é a morte. Os funerais podem ser, e são, uma despedida, mas são sobretudo para os vivos, para que os que ficam não ignorem o que lhes resta, mas também para que os braços calorosos dos outros os confortem.

Uma boa amiga confessou-me, há anos, que lhe era incompreensível, até incómodo, que vizinhos e fregueses acompanhassem enterros de quem conheciam mal, ou até só de vista, ou, pior, com quem até se davam mal, com quem se encontravam desavindos. Para essa amiga, a peregrinação da comunidade, atrás do corpo do finado, cheirava a hipocrisia. Discordo. Só poderá pensar assim quem falhar a compreensão do essencial do momento da morte: a sua dimensão simbólica, objectiva, de celebração limite da vida, a que finda e a que sobra.

Em 2001, os velórios e os funerais, os rituais da morte, não se cumpriram por completo, ou de todo, até, porque o acaso não o permitiu. Em 2021, os mesmos ritos não se cumprem por decisão política e tecnocrática.

Não contesto a necessidade das restrições que cerceiam o normal decorrer dos funerais. Tais imposições são compreensíveis como medidas de combate à propagação do vírus. Mas incomodou-me a leveza com que os mesmos que, e bem, clamaram pela dimensão fundamental dos direitos políticos, aceitaram placidamente, sem admitirem espaços para comparações, a amputação dos rituais fúnebres.

A ideia do Homem como animal político, como ser destinado à discussão das formas de governo de uma sociedade, a ideia da política como alfa e ómega da vida humana merece apreço. Desconhece, no entanto, que nem só de Estado vive o Homem, e que artefactos como a amizade, a família, a vizinhança, a comunidade e a fraternidade são dimensões capitais da vida humana, da pessoa enquanto aquisição axiológica.

Em 2021, como em 2001, a nossa vida foi diminuída pela ausência da celebração plena da morte. É bom que o reconheçamos e que a esse detalhe da nossa circunstância prestemos a devida atenção.