Vi, vimos todos, as imagens de um homem negro jazido sobre o alcatrão indigno, asfixiado durante cerca de nove minutos sob o joelho grotesco de um polícia fardado, uma voz trémula suspirando que lhe era impossível respirar, a vida a escapulir-se num exalar arrítmico e desumano. Vi, vimos todos, até à exaustão, mas todas as vezes que vimos parecem ser pouco perante mais uma morte a juntar às vítimas da violência policial que se vão acumulando em pilhas do inefável pelo mundo fora. I can’t breathe, disse Floyd incessantemente, e todos nós perdemos o fôlego com ele.

A atrocidade humana atinge-nos sempre, desarma-nos sempre, deixa-nos incapazes, inertes, em silêncio, mesmo que seja uma constante da História. Este não é, porém, um momento em que nos possamos remeter à ausência, ao silêncio. Sobretudo para a direita, melhor, para a direita liberal, conservadora e democrata-cristã, este é o momento de se chegar à frente, de dizer presente, de não compactuar com a vilania. O silêncio, na política, não é eloquente.

Este é, portanto, um momento de escolhas. E, como sempre acontece quando perante o abismo da crueldade humana, este é momento de fazer a única escolha possível, de assumir o compromisso inadiável com a dignidade humana. É hora de a direita moderada combater o que a ameaça, o que nos ameaça a todos nós.

A história da direita não iliberal é a história dos Direitos Humanos, do Estado de Direito liberal – a marca distintiva do Ocidente -, da liberdade e da tolerância. O alheamento da direita moderada, o seu silêncio perante o recrudescimento do populismo que grassou no seu quintal, da xenofobia lancinante, da apologia do racismo é mais do que deprimente, é intolerável.

O legado que carregamos implica uma postura, uma ética, uma estética. E essa postura não pode ser a de Trump, limpando as ruas do protesto livre e pacífico para empunhar uma Bíblia cujos valores a sua prática diária desrespeita e envergonha, violentado verbalmente grupos de homens e mulheres cuja dignidade humana é inviolável, ameaçando, por via da intervenção militar, o núcleo essencial da democracia liberal. Essa postura não pode, também, ser a de Bolsonaro, essa criatura obscena que ainda há tempos prometia fuzilar a pretalhada do Acre, nem a de Órban, diariamente cerceando a imprescindível liberdade de imprensa, nem a de Ventura, sugerindo confinamentos de minorias étnicas numa pérfida homenagem a austríacos baixinhos.

Não. A postura que à direita liberal se exige é a de intransigência absoluta perante a desumanidade, perante a crueldade, perante a atrocidade humana. A única postura possível é a da condenação sem restrições do racismo, da xenofobia, da violência policial, do discurso dos grunhos que por aí pululam, sedentos da destruição do património de liberdade que construímos, sedentos da tirania da força e do esmagamento dos fracos.

É hora de a direita rejeitar as companhias pouco recomendáveis que se têm alojado no seu seio e de expurgar, pela crítica constante e esclarecida, o populismo bacoco que tem reclamado o seu espaço.

É, sobretudo, tempo de os liberais e democratas-cristãos se mobilizarem para evitar que causas como o racismo, o ambiente e as migrações fiquem entregues à esquerda radical que delas não hesita em se apropriar, transformando-as em aríetes prontos a destruir a liberdade, o Estado de Direito e o modo de vida ocidental.

Alienar as bandeiras da luta contra o racismo, da conservação do ambiente, da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, do combate à xenofobia não é apenas abandonar as gerações mais jovens, deixando-as entregues ao maniqueísmo da esquerda, nem só ficar refém de um eleitorado néscio e reaccionário, é sobretudo permitir que a esquerda radical converta, sem o devido combate, aqueles tópicos em argumentos insustentáveis conta o capitalismo liberal, através das narrativas do neocolonialismo, do racismo institucionalizado, do revisionismo histórico. É permitir a vitória de episódios lamentáveis como os do fracasso da estátua de Catarina de Bragança em Queens, como os protestos imbecis contra a Estátua de Vieira em Lisboa (ambos motivados pelas supostas ligações escravocratas dos homenageados), é permitir a impossibilidade de um Museu dos Descobrimentos. É, numa palavra só, abrir portas à tirania do anacronismo.

O espaço da direita moderada é o espaço da “máxima unidade na máxima diversidade”, como disse Frei Bento Domingues há dias. É o espaço de um personalismo ético esclarecido. É o espaço da dialéctica entre liberdade e responsabilidade. É bom que esse espaço não fique vazio.