Sábado. Final da tarde. 24 horas antes da derradeira final decidi escrever este texto. Não vou esperar pelo último jogo para escrever sobre as tecnologias no futebol. Não, não vou.

Sei que a probabilidade deste texto ser mais interessante aumentaria exponencialmente se fosse escrito amanhã, domingo, depois da nossa vitória. Sei também que a possibilidade deste texto ser mais lido aumentaria estupidamente se eu escrevesse apenas e só sobre as progressões técnico-tácticas deste ou daquele jogador, sobre o desenho das estratégias centradas em sistemas defensivos ou sobre a indefinição de processos e as transições defesa-ataque. Melhor ainda seria especular sobre o polvo de 2010, um tal de Paul, que adivinhou quem seria o campeão do mundo.

Vi os jogos quase todos. Sim, quase. Na esperança que o “golo electrónico” gritasse “estou aqui e ainda bem que que me criaram”! O futebol é dos desportos que mais multidões arrasta. Apenas a cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos junta mais gente em frente a uma televisão que as cerimónias de uma abertura de Europeu ou de um Mundial.

No entanto é a modalidade que menos partido tira da tecnologia. Se me perguntarem se sou a favor da “verdade desportiva” sim, mas pouco me importa! Se sou a favor da justiça cega no futebol, sim, mas… mas pouco importa também! Sou a favor, sim, do que vai para além da prática desportiva. Do partido que podemos tirar de toda tecnologia que gravita, ou poderia gravitar, em torno de um jogo, de uma equipa, de um jogador.

Quero ter acesso aos dados biométricos do jogador. Se os treinadores tomam decisões em tempo real com estes dados, eu também os quero. Quero estar dentro da dinâmica do desporto. Quero ter uma experiência mais intrometida no jogo. Quero ser parte do jogo. Porque continuam a manter-me fora do jogo quando a tecnologia já o permite manter-me por dentro?

Sou a favor do que vai para além da vitória ou da derrota. Sou a favor de poder seguir, controlar, analisar e “conhecer” um Ronaldo, um Quaresma ou um Jonas (não resisti!) em tempo real. Quanto tempo correu, que zonas do terreno de jogo pisou, quantos quilómetros suou. Quero seguir em tempo real “o meu jogo” e não o jogo de todos.

E que relação tem tudo isto com as regras do futebol? Nenhumas, mas quero.

Quero um árbitro digital, audiovisual, virtual ou uma simples televisão fora das 4 linhas onde o árbitro possa ler a sua cábula. E isto tira a emoção? Não! Pelo contrário, arrisco dizer que aumentará, e muito, as sensações, o alvoroço e a agitação em torno de um jogo.
Prevê-se que a final do Europeu tenha uma assistência televisiva a rondar os 300 milhões de espectadores. O povo francês e o povo português vão render-se aos seus heróis. O adepto terá o seu sentimento de pertença ao rubro. Irá sentir que naqueles 90 minutos o valor intrínseco da nação vai aumentar, irá valorizar o seu sentimento agregador, irá afirmar o seu entusiasmo pela unidade nacional. Seguir um país, seguir um jogador, aumentar o jogo de percepções.

Então e a tecnologia? Como e quando tirar partido dela? Se o futebol é um negócio, porque não tirar partido do futebol e alimentar o negócio? Porque não alimentar a ligação com o jogo? Porque não alimentar a relação com o adepto? Porque não alimentar o jogo?

Se o Cristiano Ronaldo tem 100 milhões de seguidores no facebook e liga adeptos eu também quero estar ligado. Se o Ronaldo é o elemento que liga os jogadores na equipa, eu também quero estar ligado. Se o Ronaldo é exigente com a vida, com os colegas e com o resultado, eu também sou!

Dean da Escola de Tecnologias, Artes e Comunicação na Universidade Europeia, Vice-Reitor no IADE-U, carlos.rosa@universidadeeuropeia.pt