Uma das grandes interrogações científicas da modernidade centrou-se na  possibilidade de existência de vida inteligente extraterrestre. Ainda hoje procuramos uma  resposta nesse sentido. “Cada estrela pode ser um sol para alguém”, escreve Carl Sagan,  em Cosmos ((ed. gradiva), “e nos inúmeros planetas que talvez girem à volta de outros sóis existirá  vida também? Será a vida extraterrestre, se existir, baseada nas mesmas moléculas  orgânicas que a vida na Terra? Será que os seres de outros mundos têm a mesma aparência  que os terrestres?”, questiona. Eu não sei o que escondem os outros planetas, mas há uma  coisa que parece certa neste lugar a que chamamos Terra: existe vida inteligente, assim  como existe vida pouco inteligente.

Durante a hora de almoço, na cozinha do local onde trabalho, alguém abriu o  TikTok à procura de directos (ou lives), uma ferramenta amplamente utilizada naquela  rede, que funciona como um mercado digital, onde se vende roupa, se canta, se desabafa,  se cozinha, se olha demoradamente para a câmara sem dizer nada e, descobri, se recorre  à astrologia e ao tarot. Nos comentários, podemos fazer uma pergunta, enviar dinheiro e  vê-la respondida. Se antes íamos à Pensão Amor para desvendar o amanhã, agora basta-nos abrir uma aplicação no smartphone.

Achei graça aos primeiros minutos da sessão, e fiquei impressionado com a  quantidade de pessoas que saíam e entravam, às vezes com questões que poderiam  perfeitamente ter feito ao ChatGPT ou, por exemplo, a uma pedra. No entanto, fiquei  assustado quando uma utilizadora perguntou o seguinte: “Devo ser operada?”, e a astróloga  respondeu: “Não, não vai ser necessário”. A partir dali, existiam duas opções: ou aquele  poder adivinhador era tão potente que conseguia espezinhar a medicina, ou a contagem  de óbitos ia aumentar. Claramente, hoje, mais do que a verdade, as pessoas procuram a resposta que melhor lhes serve. O futuro funciona assim como uma espécie de febre que  nos faz transpirar ansiedade. A verdade não tem nenhum futuro (As cores da infâmia, ed. Antígona) , escreveu Cossery.

À medida que almoçava, ia imaginando uma possível conversa entre esta  utilizadora e um médico:

— Doutor, tenho mesmo de ser operada?

— Sim. Com urgência.

— Mas no TikTok disseram que não.

— Não sabia que tinha pedido uma segunda opinião.

— E agora, doutor?

— Peça uma terceira. Veja o que lhe dizem no Instagram.

Houve um dia em que senti vontade de voltar a entrar numa dessas sessões. Foi o  que fiz. A primeira pergunta surgiu: a minha ex-namorada vai voltar a falar comigo este  ano? Depois, a resposta: sim, lá para julho. E ali deve ter ficado o sujeito, com o sorriso  preso ao ecrã do telemóvel, convicto da previsão da astróloga, enquanto contava os meses  com a mão desocupada. Juntei-me ao rebanho e lancei uma pergunta: março é um bom  mês para comprar uma tartaruga? Fui banido. Ao que parece, só existe espaço para as  grandes questões (como se aquela não fosse).

A verdade é que a necessidade de prever o futuro é antiga. Nessa bíblia que é o  Cosmos, há um capítulo dedicado à astrologia e à astronomia, que inicialmente se  confundiam. A certa altura, os astrólogos eram empregados do Estado, tal era a crença na  sua capacidade de prever o destino de impérios e antecipar o resultado de guerras: “Em  muitos países era considerado crime, punido com a morte, a leitura de presságios dos  céus, por alguém que não fosse astrólogo oficial: uma boa maneira de derrubar um regime  era prever a sua queda. Os astrólogos da corte chinesa que faziam previsões erradas eram  executados. Outros falsificavam simplesmente os documentos, de forma a estarem depois  em conformidade com os acontecimentos”. Hoje, talvez o Estado (instituição) se interesse  menos pelas valências da astrologia, mas o Estado (nós) é cada vez mais dependente dela.

Mais à frente, Sagan coloca a astrologia à prova: “Pode ser testada pela vida dos  gémeos. Há muitos casos em que um dos gémeos morre na infância, por exemplo, num  acidente com um cavalo ou atingido por um raio, e o outro vive até à velhice. Ambos  nasceram exactamente no mesmo lugar e com minutos de diferença um do outro. Na  altura do seu nascimento nasciam exactamente os mesmos planetas. Se a astrologia fosse  válida, como era possível que esses dois gémeos tivessem destinos tão diferentes?”. Deixo  um exercício de resposta: “Minha senhora, pergunte a um médico se deve ou não ser  submetida à operação, porque a astrologia não é uma ciência exacta”. Podemos acreditar  ou não, é evidente, mas um certo grau de ceticismo pode salvar-lhe a vida.