Penso no dilema clássico lançado por Nietzsche: na solidão, o solitário devora-se; na multidão, devoram-no. Agora escolhe.
A resposta podia ter sido dada pelo poeta Joan Margarit, num dos seus poemas:
Mas a solidão é que é sempre considerada um castigo
Assusta tanta gente.
E, no entanto, o monstro está na multidão
Joan Margarit, em Animal de Bosque (ed. língua morta)
A que se referia quando escreveu “o monstro”? Talvez ao que nos leva para longe de nós e nos arranca uma possibilidade de lugar. Acredito nisto: dentro da multidão, a identidade não resiste. Voltando a Nietzsche: se em vez de um isolamento prolongado nas montanhas, Zaratustra tivesse permanecido no meio dos homens, o que teria para lhes ensinar?
Fomos atribuindo à solidão uma certa ambivalência. Acreditamos que nos pode salvar, mas também matar. Milan Kundera definiu-a de uma forma particular, descrevendo-a como uma “doce ausência de olhares” (A Imortalidade, Dom Quixote). Sublinho a palavra “doce”. O autor poderia ter escolhido não a adjetivar. Se tentarmos fazer o mesmo exercício com a palavra multidão, a frase soará como uma agressão: doce presença de olhares.
Ao longo da infância, aprendemos a recear os esconderijos. Era comum, em caso de mau comportamento, enviarem-nos para um canto da sala, virados para a parede. Ou seja, ficar longe dos outros funcionava como uma forma de castigo. Os pais seguiam a mesma receita quando gritavam “vai já para o teu quarto”. Com o tempo, percebemos que estarmos sozinhos é preferível a estarmos perto de quem não queremos.
Lá fora, a chuva não abranda. É dentro de casa que vou escrevendo este texto. Na sala, olho em volta. Há uma polaroid pousada numa prateleira. Na imagem, estou eu e a minha bisavó, sentada na sua poltrona. Tantas vezes demos as mãos sem dizermos nada. Ainda acredito que a sua pele era feita de seda. Junto a nós, distingo uma terceira presença, muito discreta e quase imperceptível — a doce e terna solidão.