– Ano após ano, a chegada do mês de setembro é de frio no estômago e nó na garganta. Notam-se os dias a diminuir e a rebolar na nossa direção com uma cor mais acinzentada. Sou professora de Educação Visual e Tecnológica, tenho sete anos de serviço e ando há sete anos a saltitar, três dos quais sem horário completo, portanto também com salário incompleto, o que me fez pôr em dúvida a resistência da minha vocação. Mas a lembrança do brilhozinho nos olhos de alguns meninos e meninas do 5.º ano levou-me a persistir. Quando chega setembro sinto sempre uma aflição, como se fosse mudar de emprego, mas, na verdade, só mudo de escola, o que não é pouco. Já passei por Portimão, com casa partilhada, por Setúbal e por Palmela, num quarto, pelo Cacém, Alverca e Torres Vedras, a ir e voltar todos os dias. Os meus sonhos de criança de casar e ter filhos estão naturalmente adiados, à espera de maior estabilidade. A meio de agosto fiquei a saber em que escola fui colocada e pareceu-me que as férias se encurtaram. A última semana já foi num rodopio, com a cabeça sem parança, à mata-cavalos. Desta vez fiquei mais próxima de casa. Vou conhecer novas instalações, dezenas de novos colegas, aprender a lidar com outras regras, adotar centenas de novos alunos. Gostaria de manter contacto com alguns dos colegas do ano letivo passado. No meu departamento, e não só, fiz algumas boas amizades. Faço parte de vários grupos WhatsApp que sei que vão ser eliminados. Gostaria de guardar algumas mensagens lindíssimas que foram partilhadas, mas é tanta coisa que não cabe tudo no meu coração. Todos os anos é assim. Durante alguns meses ainda há alguns contactos e troca de mensagens, contudo, com o tempo e com os novos conhecimentos e as novas amizades, tudo se vai esbatendo. Ainda não sei como é que vai ser o meu horário. No ano passado entrava às oito às segundas, às dez às terças, às quinze às quartas, às nove às quintas e as onze às sextas. Tinha três furos, o que nem me incomodava, pois permitia-me aliviar um pouco a pressão das aulas e preparar outras. Não faço ideia se vai correr bem. Espero que sim. Vamos embora, Manela.

– Comigo foi diferente. Quer dizer, a aflição, o stress de setembro é inevitável, mas tive muito menos saltitos. No último ano do curso de Ensino da Matemática fiz estágio no Pedro Nunes, em Lisboa, a menos de uma hora de casa, e tive a sorte de ficar nessa mesma escola mais dois anos como contratado. Depois, para conseguir ficar agregado a um quadro de zona pedagógica, fui colocado bem mais longe. Fui para perto de Santarém. Gastava tanto tempo e fazia tantos quilómetros todos os dias que me parece que hoje já não seria capaz de o fazer. Fiquei por lá quatro anos. O ambiente entre colegas era formidável. E os alunos também eram espetaculares. Tudo gente muito simples e muito respeitadora. Lembro-me de um Natal em que uma mãe me foi oferecer um peru como presente. Esforcei-me por recusar, mas rapidamente percebi que aquele gesto seria considerado de muito má educação, e lá fiquei com o peru, já devidamente morto, depenado e prontinho para cozinhar. Depois, passei por duas escolas em Lisboa e assentei nesta em que me mantenho há quinze anos. Por vezes dá-me vontade de tentar a colocação numa escola que fica mais perto de minha casa, mas o receio de mudar de ambiente tem-me travado. Já sei que vou ter de queimar as pestanas a preparar-me para lecionar pela primeira vez aquela espécie de “tudo ao molho e fé em Deus” que são as aprendizagens essenciais de Matemática do 10.º ano, onde os alunos são aprendizes de merceeiros, com contas e mais contas à Hondt, sem qualquer raciocínio demonstrativo ou lógico associado. Também sei que vou continuar com uma das cinco turmas que tinha no ano passado, que, por ser muito indisciplinada, ficou decidido que devia manter uma boa parte dos professores. Não sei bem porquê, porém é habitual as turmas de Economia serem mais problemáticas do que as de Ciências. Não faço ideia se as minhas aulas serão mais de manhã ou mais de tarde. Era bom que fossem mais de manhã, porque à tarde é sempre mais difícil. E então ao último tempo, é de pôr os cabelos em pé para conseguir alguma atenção, mas garanto-vos que tenho enorme orgulho nesta minha teimosia em fazer de timoneiro de barcos em construção, bem frágeis, cujas rotas vão sendo desenhadas dia a dia.

– Eu, que sou de Almada, estou perto de Moimenta da Beira. Fartei-me do preço das casas e de ter a Wemob sempre atrás das multas de estacionamento. Este ano fui convidada para fazer parte da direção da escola e aceitei. Por isso vou ter apenas duas turmas e do mesmo nível. Sei que o trabalho na direção vai ser um enorme desafio, mas gosto de desafios. O anterior diretor, sempre de ar horripilante, não se quis candidatar a novo mandato. Foi eleita para diretora uma colega que já tinha experiência de cargos diretivos numa outra escola. Convidou-me para fazer parte da equipa como adjunta, disse-me quem eram os outros colegas que iriam fazer parte da direção, pedi-lhe um dia para pensar, discuti o assunto lá em casa e disse-lhe que sim. É claro que, este ano, as férias foram a fingir. Mesmo nos dias em que estive oficialmente de férias, estive, na verdade, a trabalhar. Que loucura! A apoquentação de querer aprender depressa, de querer fazer bem feito, de querer merecer o lugar que vou desempenhar, até nem me deixava dormir. Já aprendi um pouco a trabalhar com o programa de horários, mas aquilo é muito complicado. Na verdade, são milhões de combinações possíveis. Se for necessário alterar a hora de Geografia do 8.º B, às nove horas de quarta-feira, porque a essa hora a professora está a dar aulas ao 8.º E, é preciso arranjar um professor para preencher aquela hora, pois os alunos não podem ter furos no horário. É claro que não pode ser um professor que já tenha aula com o 8.º B à quarta-feira, e a deslocação de um professor implica muitas outras mudanças até se conseguir preencher todas as lacunas de modo que todas as turmas fiquem com um horário arrumado. Sei que haverá muitas outras tarefas que vou ter de desempenhar e que não domino. Ando com o coração a bater de forma estranha, como se estivesse à espera de uma escaramuça. Já pedi ao colega que estava nessas funções para, em caso de necessidade, me dar alguma ajuda, mas deu para perceber que é melhor não ter grande esperança, que o desagrado de ter saído da direção foi evidente.

– A minha idade já me devia ter ensinado a defender-me desta ansiedade. Acho que as férias não me ajudaram a recuperar o cansaço. Seria bom que o mês de setembro começasse a fazer lembrar a canção de Neil Diamond (September Morning) e não o contrário. No ano passado duas das minhas turmas eram do arco-da-velha, e ainda por cima fui obrigado a lecionar a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, de que não gostei nada. Não tive qualquer formação para aqueles assuntos, e as orientações são demasiado vagas e subjetivas. Não sou capaz de ensinar que o género é uma construção social, ponto final. Foi entendido pelos poderes ministeriais que aquela disciplina (chamar-lhe disciplina é um abuso) tem de ser atribuída aos professores de História ou de Geografia, e eu, que sou professor de História há vinte e sete anos, não estou preparado para aqueles temas, nem considero que muitos deles devam ser tratados no âmbito escolar. Imagino que vou voltar a ter essa espécie de disciplina este ano letivo. Já sei que foram feitas simplificações e melhoradas as orientações, todavia continuo a achar que nunca recebi formação naquela área e não tenho qualquer inclinação ou vontade de desenvolver essas competências ideológicas. Deem-me História, que eu sou professor de História. Certamente vou novamente ser Diretor de Turma, que é um cargo que assumo há vários anos, mas sempre com pouco agrado, pois custa-me muito a enorme burocracia e a falta de sensibilidade de alguns pais para entenderem as regras escolares. No ano passado recebi centenas de justificações de faltas que tive de validar, simplesmente porque a mamã dizia que o menino estivera maldisposto. Uns dias a falta foi à primeira aula, outros dias das onze ao meio-dia ou quando calhasse e, muitas vezes, após o almoço. Sei que são esmagadoramente aldrabices, contudo está na lei que o encarregado de educação pode justificar quaisquer faltas, sem limite, bastando assumir que o educando esteve indisposto ou doente, desde que a indisposição ou doença não ultrapasse os três dias seguidos.

– Eu, este ano, tenho quatro níveis: 7.º ano de Português, 9.º ano de Francês, 10.º ano de Português e duas horas de Português Língua Não Materna (PLNM). Na minha escola é costume indicarem-nos a distribuição de serviço em julho. Nunca lecionei Francês, apenas assisti a algumas aulas da minha orientadora de estágio, já lá vão dez anos. Desde aí nunca mais falei Francês. Preferia que me tivessem dado a disciplina de Inglês, mas a minha habilitação é de Português/Francês. A colega que dava Francês reformou-se. Estou muito inquieta. Também vai ser a primeira vez que vou ensinar PLNM, mas compreendo que é muito importante, tanto para os alunos como para os professores, que as muitas crianças imigrantes que frequentam a nossa escola aprendam a falar Português. O meu ex-colega Gonçalo convidou-me para abandonar a profissão e montarmos um negócio de prestação de serviços de limpeza a unidades de alojamento local aqui no Porto. Sei que lhe está a correr muito bem, porém tive de lhe dizer que não podia aceitar. O gosto de ser professora é uma espécie de missão. Ao início, quando havia candidatos a professores em excesso, até pensava que se devia diminuir o ordenado, para que ficassem apenas aqueles mais dedicados à causa. Hoje não penso o mesmo. Já tenho o manual de Francês e passei boa parte das férias a estudar o programa e a preparar as aulas. Isto de ser professora e ter de começar de novo em todos os setembros estraga-nos bastante o descanso. Nós, professores, que estamos completamente limitados nas férias, que têm de ser marcadas entre o meio de julho e o final de agosto, sempre em época altíssima de preços, com a consequência de vermos sempre muito mirrados os dias fora de casa, nem as gozamos com a devida acalmia. E não sou apenas eu. O meu marido, para que consigamos ter férias juntos, também tem de pedir encarecidamente ao patrão para ter férias nesta altura. Quantas vezes, ao ouvir o rosnar dos últimos dias de férias, numa espécie de cornucópia de emoções, pensei na mudança de turmas e de níveis, nos alunos desconhecidos, no programa de Francês, no PLMN, nos encarregados de educação que, bastas as vezes, são piores que os filhos. Os professores mereciam quem os cantasse.

Todos estes professores existem e, juntamente com muitos outros milhares que aqui não couberam, são uns valentes. Todos os anos, em setembro, têm de se adaptar a novas circunstâncias. Considero que são mediocremente reconhecidos pelo trabalho que fazem, que todos os anos se renova, e que dão um contributo insubstituível na educação dos jovens. Trabalhar, hora a hora, com grupos de quase trinta adolescentes, variadíssimos entre si, é constantemente um trabalho hercúleo, desgastante, por vezes desesperante. A maioria dos pais tem um ou dois em casa e já é um deus me livre, uma carga de trabalhos. O trabalho do professor, em grande parte dos casos, fica para a vida, mesmo que não se dê por isso. Dêmos-lhe o devido valor. O Professor é um valente. E mortal.

Professor de Matemática