Os telemóveis passarão a ser proibidos na escola, nos primeiro e segundo ciclos do ensino básico, a partir de Setembro. E, subitamente, quando se supunha que professores, directores de escola ou membros de associações de pais manifestassem apreço porque os recreios, o bar ou os refeitórios das escolas passarão a ser espaços livres de telemóveis, surgiu, da parte de alguns, uma discussão acesa à volta disso. Os argumentos contra esta proibição reclamam a utilidade dos telemóveis como instrumentos indispensáveis de aprendizagem escolar nessas idades. Chamando a atenção para o facto deles representarem a única tecnologia ao dispor dos alunos em sala de aula, contornando-se assim as carências graves de recursos informáticos existentes na maioria das escolas. E que sem eles estaremos a empurrar as crianças para uma ausência de digitalização do ensino, remetendo-as para uma escola do século XIX ou do século XX. Havendo quem alerte para o risco da sua proibição. Para a necessidade da auto-regulação que cada criança deve ter diante deles. E para os custos que essa proibição poderá ter sobre a auto-estima das crianças.
É estranho não termos escutado nenhuma destas pessoas a falar sobre a forma como a digitalização precoce na escola traz custos muito elevados na aprendizagem da escrita e da leitura. Na organização da motricidade, da expressão visual e na expressão simbólica. Na construção de frases e no aprofundamento expressivo da linguagem. Nem dos perigos (efectivos!) dos telemóveis sobre a forma como se estão a tornar muito pouco amigos da saúde mental das crianças e dos adolescentes. Nem opinando sobre a expressão “Brain rot” (cérebro a apodrecer) que a Universidade de Oxford elegeu com palavra do ano de 2024, em consequência da deterioração pelo consumo repetido de conteúdos digitais pouco desafiadores num plano mental. Ou sobre a série “Adolescência” que, não falando só deles, fala sobre eles e sobre algumas das suas consequências mais trágicas.
Chegados aqui, convém recordar que:
- Estamos a falar de crianças entre os 6 e os 12 anos;
- Crianças em relação às quais são cada vez mais os pais que não só não favorecem o uso de telemóveis como, inclusive, o interditam;
- Pais que o fazem na sequência da forma como sentem que eles se transformam, muito rapidamente e duma forma fulgurante, numa adição muito grave. Acompanhada por muitas alterações perigosas. Como perturbações da atenção e do comportamento, hostilidade, impulsividade, carência de vocabulário, inibição da imaginação ou sequelas sobre a inteligência;
- Pais que entendem que os telemóveis favorecem, perigosamente, o acesso a videojogos, a dados e a redes sociais, sem qualquer controle, e a conteúdos sem classificação etária, que tornam o seu uso precoce um perigo que atenta conta a saúde mental dos seus filhos.
Não é, pois, argumento sério reclamar que o uso de telemóvel compense a carência digital da maioria das escolas. Como se os telemóveis fossem uma espécie de “Magalhães de bolso”, amigos da digitalização da escola.
Nem é, sequer, razoável, argumentar que os pais que entendem que os seus filhos não devem ter um acesso precoce ao telemóvel estarão sempre à vontade para os transferir para escolas onde eles sejam proibidos, como se, ao contrário do que seria sensato, o uso de telemóveis por crianças entre os 6 e os 12 devesse ser obrigatório na escola.
E é de mau gosto que se fale, com alarme, do risco de proibição, ou da impossibilidade disso acontecer, ou do “levantamento de rancho” que isso trará, quando os dados das experiências já levadas a efeito demonstram exatamente o contrário, com consequências muito favoráveis sobre o aumento da socialização e a diminuição do bullying na escola.
Por fim, é estranho que se case a educação das crianças com um “é proibido proibir”. Afirmar-se que a proibição do uso de telemóveis na escola por parte de crianças entre os 6 e os 12 atentaria contra a sua autonomia, a sua liberdade e a sua autoestima é só um bocadinho demagógico! Como se, por exemplo, a auto-estima fosse tanto maior e mais saudável quanto menos nãos as crianças tenham ao seu dispor, durante o seu crescimento. Quando ela fica bem mais comprometida quando, isso sim, as crianças a constroem com a ausência das coordenadas que os nãos (com parcimónia, com critério e de forma coerente) não deixa de lhes trazer.
Por último, que uma medida promotora da saúde mental e do desenvolvimento mereça um coro de argumentos ideológicos é estranho. Podemos ser um só bocadinho mais isentos quando se fala de crianças? É razoável que as crianças tenham telemóveis a partir dos 6 e os levem para escola? É tão atentatório assim que não os possam usar nos recreios, ao almoço ou quando vão ao bar? Será assim tão sério que se reclame a auto-regulação das crianças em relação aos telemóveis quando os adultos estão, em média, duas horas e meia por dia nas redes sociais e aquilo a que eles chamam auto-regulação passa por definirem limites horários de contacto com as redes sociais que, aliás, não acatam e não cumprem? Será que a opinião sobre a relação das crianças com os telemóveis na escola se deve repartir entre aqueles que acham que a parentalidade é frágil, que elas precisam é de se auto-regular e que, todavia, a escola se deve demitir de proibir que elas os utilizem, enquanto os incentiva a que os usem como suporte digital; e aqueles que acham que a proibição dos telemóveis na escola é só uma medida sensata e educativa, por mais que seja batotice afirmar-se que, porque as crianças dos 6 aos 12 não usam o telemóvel da escola, os alunos passam a ser info-excluídos e a estar, com a conivência dos pais, relegadas para uma escola do século passado, por mais que se a escola não dispõe de recursos digitais que favoreçam a aprendizagem essa responsabilidade seja da escola e não dos pais? Será tão absurdo assim que um governo, independentemente de ser de esquerda ou de direita, entenda este assunto como um compromisso com a infância e com a saúde e, apoiado em muitos, muitos dados, decida, protegendo as crianças, dando sinais inequívocos aos pais dos caminhos que eles próprios devem tomar? Não será que não estaremos a escorregar para um populismo que as crianças não merecem, quando aquilo que devia ser protegido, em primeiro lugar, devem ser os seus direitos, as suas necessidades e a nossa responsabilidade de atendermos àquilo que as proteja e lhes seja indispensável, tudo vivido com parcimónia e com clareza, em nome do seu desenvolvimento saudável, da sua saúde mental e do seu futuro?