Somos animais de palavra. A palavra descreve, sintetiza, configura e representa. A palavra organiza e orquestra. A palavra é memória e é futuro. E, com engenharia incansável, a palavra esboça e preenche as ideias que se ligam entre si. A palavra mergulha no caos, estrutura-o com a lógica e desenha desejos, em perspectiva e de forma abstracta; num “vou por aqui” perseverante e tenaz. A palavra amassa sentimentos e condensa-os em imagens, fazendo com que sentir seja conhecer. E faz com que isso tudo se torne figurativo e vibrante, e se encha de movimento e intensidade plástica. A palavra é o instrumento com que se conhece e se pensa. E até o silêncio é um pantone de letras com que se comunica antes que a palavra tenha uma forma ou um som ou um nome.
A palavra nunca existe dissociada da operação mental com que liga e religa: a palavra é a primeira matemática das coisas. Mesmo quando serve para não dizer nada, ela demonstra: a palavra comunica para além daquilo que queremos que diga. Porque fala com o auxílio do rosto e do corpo. E com os olhos, claro. E com o silêncio, também. Por tudo isso, não temos como não comunicar. Não querer dizer nada ou iludir e mentir com a palavra é uma forma cristalina de transmitir uma verdade que se esgueira por entre aquilo que se tenta esconder. A palavra faz-se de algoritmos que conversam. As palavras são os tijolos da verdade.
Mas ao mesmo tempo que enchemos a boca e nos descrevemos como “A sociedade da comunicação”, há quem argumente com a biologia, com “estudos” e com números e, com isso, nos intimide antes que as palavras que possamos dizer tragam verdade àquilo que não querem que se veja. Porque são subjectivas… E insinua-se que a palavra falsifica. Sobre os factos e a objectividade. Mesmo que mentir se faça só com as palavras que guardamos.
No entretanto, há quem “ensine” a comunicar e formate discursos. E aprisione palavras. E “comunique” sem direito a perguntas. E decrete que as palavras vivem num habitat sem precisar do oxigénio que lhes chega do contraditório. E embrulhe, manipule e iluda. E falseie, perverta e corrompa. E faça isso tudo com palavras, enquanto as “aduba” com a mentira. Como se linguarejar fosse falar e se comunicasse por “verdades convenientes”; à margem das entrelinhas e com meias-verdades.
“A sociedade da comunicação”, muitas vezes, fala “verdade” com meias-verdades. Quando é assim, não é nem populista nem demagógica; é só mentirosa. Mente com meias-verdades. E foi com elas que se converteu no laboratório das falsas notícias. Como se as meias-verdades (com que se “comunica” na política, no desporto ou na universidade) fizessem do mundo um sítio onde porque todos “mentem” ninguém presta. É com meias-verdades que “A sociedade da comunicação”, perversamente, nos afasta da liberdade, da bondade e da verdade. E é com elas que apela à redenção e clama por luz enquanto nos desliga uns dos outros.
Sempre que a palavra se desliga da verdade ela é maldade. Meias-verdades, falsas notícias e maldade; eis a sequência. Este é o caminho com que deixamos que nos tornem más pessoas. A forma como se descomunica com meias-verdades faz com que “A sociedade da comunicação” nunca incite ao ódio. Mas leve a que se promova a desconfiança e a confusão. E se “acarinhe” a malvadez. É assim que o mundo vai costurando uma sociedade amiga da maldade. Da maldade cobarde, dizendo melhor.