Finais da década de noventa, já à beira do milénio, quem então terminava a formação trazia consigo mais vontade que ferramentas. Havia ainda um longo caminho a percorrer até alcançar a estabilidade. As opções de então eram escassas e muitas vezes resumiam-se a infindáveis fins-de-semana e horas de urgência. Era por isso que em St.º Tirso ocupava regularmente fins-de-semana que dividia com mais dois colegas. Aquele sábado calhava-me a mim.
Nesse tempo a perder o rasto na memória, nas manhãs de sábado, de quase todos os sábados, imperava uma tranquilidade melosa e lenta. Eram fins-de-semana em que se abrandava como se a semana estivesse a vestir cores outonais. Eram alturas em que nos permitíamos tudo fazer sem pressa, tempos em que o cuidar do outro era determinado pelo que se fazia e não pelo que havia por fazer. Havia tempo para ouvir. Ouvir era importante, sempre foi.
O hospital, a essa hora, e nesses sábados, tinha uma quietude própria. Não era silêncio. Eram os longos corredores banhados de luz branca, um lugar onde o ruído distante de passos, ou das vozes baixas dos que por ali passavam deixava uma marca, um rasto que parecia esfumar-se nas poucas sombras que aquele mar de luz permitia. Eram manhãs que começavam tímidas, numa lentidão própria de quem ainda se está a decidir.
Durante a semana, tudo pertencia aos doentes, à profissão, à carreira, ao que ainda estava por provar. Os fins-de-semana, em regra, eram para o sustento ou, menos vezes, para a família. Os que entravam nesta voragem acabavam escravos de um ritmo que nunca era verdadeiramente o seu. Havia nessa distribuição algo de claro, quase ordenado, como se o respirar pudesse ser distribuído em partes estáveis. A família reclamava, eu reclamava, o cansaço reclamava, mas a vida exigia.
Nesse dia, porém, nessa quietude matinal, aconteceu algo que me marcaria para sempre. Foi o dia em que conheci Carlos.
Habitualmente, o que me foi pedido é função dos médicos do internamento. Os que asseguravam o serviço de urgência eram chamados apenas para resolver alguma situação urgente. Acontecia com frequência e esse era um dos motivos por que éramos necessários.
Nessa manhã foi-me pedido algo de invulgar, algo que não sendo urgente, acabou por se revelar incontornável.
A vida tem destas coisas – momentos de infortúnio em que somos confrontados, encurralados sem escapatória possível. Se acedemos ao que pedem, escrevemos e pomos no bolso de alguém “a carta final”, o segredo que preferimos conhecer no último segundo. Se tomamos outra opção, se não contamos a verdade, bom aí entramos num equilíbrio que eu jovem não estava preparado para assumir – mentir ao doente como forma de o proteger. Não estava preparado para isso.
Conhecia as doenças, os mecanismos, os tratamentos, os prognósticos, mas não conhecia as pessoas.
Carlos devia ter na altura quarenta e poucos anos. Era alto, magro, de cara seca e olhos negros penetrantes. Tinha um rosto duro. O olhar espelhava determinação, uma vontade inquebrável de tomar o destino nas mãos. Uma determinação que só lhe era traída pelas dúvidas que a sua doença levantava. Carlos estava há dias internado por uma tosse que por vezes lhe manchava o lenço de vermelho, um vermelho vida. Sempre que tossia e tingia o lenço, via nessas manchas pedaços seus, pedaços de algo que se desconstruía e agora expelia como se de si se quisesse libertar.
Era no lenço branco que usava, e branco para que não sobrassem dúvidas, era aí que registava o futuro. Sempre depois de tossir, depois de o manchar ficava a observá-lo. Era um ritual que adquirira logo de início. Primeiro dobrava-o em dois, depois em quatro e nesse quadrado perfeito encomendava as preces. Abria-o depois, mas quase sempre despido de esperança. No seu íntimo algo lhe sussurrava, uma verdade que só ele ouvia, uma sentença que só ele adivinhava. Vinha quase sempre manchado de vida. Porém, depois de dobrado, as manchas assumiam formas estranhas, simétricas, tão estranhas que como um áuspice as lia e como um Teste de Rorschach tentava, nesses segredos, nessas formas por desvendar, encontrar a âncora de um futuro ainda por escrever.
Carlos nunca tivera uma vida fácil. Aos 18 anos entrou para o curso de acesso ao Corpo da Guarda Prisional. Uma formação remunerada, mas também uma carreira que à época lhe dava acesso a um funcionalismo público que a quase todos albergava. Sempre fomos assim, e mais ainda desde o tempo do “Botas”, sempre fomos um país de funcionários públicos. Em boa verdade, Carlos era meu colega.
Fumador pesado, via no cigarro o escape, o volatilizar das contrariedades que repetidamente testavam a resiliência e atentavam contra a capacidade seguir em frente. Quando nesse sábado o vi pela primeira vez não sabia do ambiente prisional de Paços de Ferreira. Não era conhecedor, mas já na altura imaginava os personagens, as dificuldades e as peripécias com que diariamente era confrontado.
Pai de família recente, necessitava tal como eu, do trabalho extra como forma de compor a vida. Carlos era dos guardas mais conhecidos. Os colegas sabiam-no íntegro e disponível apenas para o que a sua consciência ditasse. Os presos a seu cargo, sentiam-no frio, viam-no distante. Não inspirava complacência nem cumplicidade, mas sabiam-no justo e intolerante com qualquer iniquidade. Carlos era assim, seco de emoções e rígido no comportamento.
Desde que casara, oito anos antes, e em particular de há três a essa parte, desde que lhe nascera a única filha, a sua Mariana, o coração como que se tinha adocicado. Ainda que a doçura fosse qualidade que nunca transportava para o trabalho, era algo que lhe aquecia a alma nos momentos mais difíceis.
Fumar era o seu único vício e pecado. À exceção de “benfiquista”, não tinha outro defeito que se lhe apontasse. E era um fumador pesado. Nos dias mais difíceis, nas horas mais amargas ou nas noites mais frias era no cigarro e nos dois maços que procurava o conforto e o bruxulear das horas até regressar a casa, à sua Mariana.
Há meses que andava com uma tosse e uma dor no peito que o incomodava. No início, quando a expetoração começou, viu-a como algo vulgar. Mas as semanas sucediam-se e a “constipação”, a ser constipação, não mais se resolvia. Com o passar do tempo a tosse aumentara, e agora surgira uma dor que lhe dificultava o trabalho e se acompanhava de uma dificuldade em respirar, um temor de não haver no mundo ar que lhe bastasse.
Procurou então o médico da instituição que, depois de um exame sumário, muito sumário, o acalmou dizendo-lhe que se tratava de uma situação banal e frequente em fumadores. Se da consulta saiu aliviado, convencido de não ser algo preocupante, foi logo ali à saída que a tosse lhe tingiu o lenço pela primeira vez. Algo de grave se estava a passar.
Procurou então outro médico e após os primeiros exames foi enviado para o hospital da área onde lhe foi proposto um internamento para realização de exames e uma endoscopia.
Quando ouviu falar em endoscopia, as suspeitas logo se avolumaram. Poderá ser coisa ruim? – perguntou num misto de resignação e a esperança de um náufrago.
Para a especialista, enquanto não houvesse diagnóstico, tudo estaria em aberto. E ainda que tudo parecesse apontar para uma realidade inescapável, refugiou-se na franja das exceções e disse-lhe – Sr. Carlos pode apenas ser tuberculose. A tuberculose é uma doença muito prevalente no sistema prisional. Pode tê-la contraído no seu local de trabalho! Sabe se tem pessoas com tuberculose à sua guarda? – perguntou tentado acreditar no que dizia.
Tuberculose! Não deixa de ser curioso! Uma doença, um diagnóstico que há décadas era visto como sentença de morte para os portadores, era agora um mal menor, uma porta de saída – esperemos que seja tuberculose, disse Carlos pouco convencido e determinado a não se deixar enganar!
No fundo, Carlos lia os rostos e lia-lhes nas entrelinhas as frases não ditas. Aprendera isso na profissão. Sabia detetar quando lhe mentiam, e no rosto dos que à sua guarda estavam, lia-lhes a alma e as intenções.
Carlos conhecia bem a sua “gente”! Havia podridão dos dois lados do gradeamento. Por entre os reclusos para muitos, a vida tinha apenas sido injusta! Infortúnios que lhes tinham acontecido e que de forma alguma refletiam uma índole ou uma alma perdida. Alguns, achava-os mesmo boas pessoas! Muitos outros estavam longe disso. Eram os mais difíceis, os que justificavam a reclusão, não como forma de punição ou recuperação, mas como proteção do outro lado do muro. Carlos era esse guarda, o que separava as duas realidades que viviam em si, sem conflito e sem contradição.
Talvez fosse por ser conhecedor desse mal em estado puro e da impossibilidade de o punir, talvez fosse por saber que se sacrificava para proteger os do outro lado, talvez fosse por ser o guardião dessa ordem, talvez fosse por isso que se angustiava.
O futuro pressentia-o escuro, etéreo, vazio, um vazio onde aos poucos se diluía o seu amor por Mariana. Dominado pelo temor e a injustiça dos tempos que se avizinhavam e, no regresso dos exames realizados nesse sábado, pediu para falar com o médico de serviço.
Carlos não estava disponível para esperar dois dias pelo veredito. Quarenta e oito horas dominadas por angústia, dois mil oitocentos e oitenta minutos em que contaria os segundos como espinhos de dúvida e incerteza. Uma espera de dor e sofrimento onde como num sonho tentava agarrar Mariana sem a conseguir abraçar. Carlos queria a certeza, Carlos queria justiça, paz e segurança, no fundo, era disso guardião, e por isso tinha um direito acrescido ao que guardava.
Foi assim que nesse sábado, por volta do meio-dia fui chamado ao internamento para falar com um doente que me descreveram como agitado – Carlos insistia em falar com o médico de serviço.
Quando me chamaram, a descrição que fizeram não era a correta. Não era agitado que estava, era angústia o que lhe dominava o discurso. O rosto resumia-se a uma boca cerrada, lábios finos, olhos negros penetrantes e angústia, não de súplica, mas uma angústia resoluta e determinada. Uma angústia dominada por um olhar duro, um desses difíceis de encarar mas que como um abismo não conseguimos evitar.
Depois de me explicar, por entre tosse e alguma aflição, tudo quanto o atormentava e por que motivo queria falar comigo, tentei acalmá-lo dizendo que tudo estava bem e nada justificaria abrir uma carta dirigida ao seu médico assistente.
Carlos não aceitou a explicação. Queria saber, queria conhecer o veredicto, a sentença escrita, o relatório oculto nesse envelope fechado. Mais tarde, de tarde, quando tivesse a visita da família não queria que o vissem com angústia e na incerteza.
Não sei se foi este argumento, se a vã esperança de boas notícias, não sei porque foi, mas fosse pelo que fosse, acabei por ler o relatório.
E era praticamente inequívoco. Faltavam outros dados, mas o que ali estava escrito era suficientemente claro. À época, um cancro do pulmão era uma sentença de morte. Hoje em dia, muitos doentes vivem longos anos nessa condição, mas à época essa doença acompanhava-se de uma esperança que se contava por meses. E eram meses de sofrimento. Hoje já assim não será, mas nesses anos, ser-se esse doente era ter-se a morte encomendada.
Não sei exatamente as palavras que usei. Seguramente não partilhei a suspeita, mas tenho a certeza que não lhe menti. Tenho a certeza que não lhe disse que era grave, mas também nunca lhe disse que o não era, ainda que insistentemente isso me fosse pedido. Várias vezes o porfiou e de mim só teve promessas evasivas.
Não lhe menti, e ao o não fazer fechei uma porta por onde entrou um mar de escuridão. O olhar onde antes vislumbrava uma réstia de esperança e dúvida, era então preenchido por um vazio, uma negrura que nem a própria luz parecia capaz de penetrar.
E foi assim, nesse vazio, que o deixei. Abandonado nos pensamentos, sentado na cama com o lenço dobrado entre as mãos como quem segura restos de si.
Não me lembro se fiquei muito tempo a pensar no que tinha assistido. Provavelmente nem compreendera bem tudo quanto vira.
Horas depois, às vinte, fui chamado de novo à mesma enfermaria. Quem por perto estava contou – Carlos fechou os olhos, expirou lentamente e desistiu com uma lágrima a escorrer no rosto.
Não fora a seta do tempo ser inflexível e teria regressado aquela mesma sala, aquele mesmo sábado de abril, para dizer aquele jovem médico o que então precisava de ouvir e só muito mais tarde viria a intuir – um médico, o bom médico é também um fingidor.