“O pesadelo terminou. As Forças Armadas, pondo fim à aventura irresponsável, restituíram a esperança ao povo português. E a confiança. O 25 de Novembro foi como um novo 25 de Abril.” Estas palavras foram escritas exatamente uma semana depois do 25 de Novembro de 1975. Quem é que as escreveu? Hoje tenho sérias dúvidas de que se adivinhasse facilmente o seu autor. Provavelmente seria rotulado como vindo da “extrema-direita”. Mas estariam enganados: o autor é Mário Soares.
Para Soares, Abril e Novembro assemelhavam-se pela forma como significaram a recusa da ditadura: no caso de Abril, a recusa do regime autoritário do Estado Novo; no caso de Novembro, como diz Soares, de “uma ditadura militar-comunista”. Por isso mesmo não podemos conceber o nosso atual regime, fundado em Abril, sem a ação decisiva do 25 de Novembro. Foi assim que o viu Mário Soares, e foi precisamente por concordar com esta sua visão que decidimos celebrar a data em Lisboa. Celebrámo-la homenageando o Tenente José Coimbra e o Furriel Joaquim Pires, vítimas mortais naquele dia, e o Major-General Jaime Neves, seu comandante operacional.
Hoje, volvidos 50 anos, voltamos a celebrar Novembro homenageando todos os que contribuíram para a vitória da democracia e da liberdade. Desde logo militares como o General Ramalho Eanes, o General Rocha Vieira e o Tenente-General Tomé Pinto – a quem tanto devemos pelo modo como souberam representar a vontade do povo português, do povo que não tinha votado em qualquer experiência comunista, mas que tinha afirmado a primazia política da moderação. Impor-lhe uma nova experiência de radicalismo ideológico era incorrer contra a sua vontade. Os militares souberam defendê-la.
Contudo, não me posso esquecer daqueles que, na política, estiveram à altura das circunstâncias. Em 1975 tivemos um conjunto de políticos que foram capazes de defender intransigentemente a moderação perante as ameaças extremistas. Foram aqueles que sofreram o cerco à Assembleia Constituinte; muitos foram os que se viram alvo de ataques quando falavam em comícios ou quando faziam campanha; foram eles que perceberam o perigo real de uma guerra civil e de uma divisão do país. Entre eles esteve sem dúvida Mário Soares.
Estes políticos souberam estar à altura porque defenderam a legitimidade eleitoral contra a legitimidade revolucionária. Souberam escolher o interesse dos portugueses contra os interesses partidários e ideológicos. Penso que esta é a sua maior lição.
Hoje, 50 anos depois do 25 de Novembro, vejo infelizmente o contrário. Vejo como se escolhe o interesse partidário e a guerrilha ideológica contra o interesse das pessoas. Quando se anuncia o voto contra um orçamento sem sequer se conhecer o seu conteúdo – o que é isto senão preferir os interesses partidários e a guerrilha ideológica? No entanto, é exatamente o que está a acontecer em Lisboa; é exatamente esta a atitude do PS, do partido que foi de Mário Soares…
Em 25 de Novembro de 1975, a esmagadora maioria dos políticos e dos militares reforçou a defesa da vontade expressa pelos portugueses nas urnas. Então, afirmou-se sem contundências: respeite-se a vontade dos portugueses; respeite-se os resultados eleitorais; respeite-se a democracia. Hoje, o PS Lisboa faz o contrário: o projeto ideológico está à frente da vontade dos lisboetas. Se tiverem de combater os lisboetas para defender o seu projeto ideológico, não terão escrúpulos em fazê-lo. Tal qual a extrema-esquerda que, em 1975, queria impor aos portugueses uma experiência totalitária que estes recusaram nas urnas. Este não é o espírito do 25 de Novembro.
Muito menos é o espírito de Mário Soares. Se hoje celebramos a memória da sua geração, tenhamos respeito pelo que esta reafirmou no 25 de Novembro: o valor da democracia, que é, acima de tudo, a manifestação da vontade do povo.