Sábado de manhã deparei-me com um título que me fez refletir: “PS quer touradas à americana”. Esta proposta, venha ou não a concretizar-se, precisa de uma análise que se foque em três pontos essenciais: qual a questão que propõe resolver; a reação que espolete tanto na tauromaquia como nos defensores da abolição das touradas; e a sua eficácia. Este texto não pretende ser por isso defensor de nenhum dos “lados”, apenas um exercício de reflexão que levante as questões reais.

Assim gostaria de começar com duas perguntas: Qual é a questão das touradas em Portugal? Antes de legislar deve-se questionar se existe de facto a necessidade de o fazer, no caso das touradas será que existe?

Analisemos da seguinte forma: o grupo A pretende que o grupo B mude a forma de se expressar, forma essa que pertence à sua identidade; porém o grupo B não pretende mudar e não pede ao grupo A que altere a sua forma de agir. Do ponto de vista estritamente equacional é disto que se trata: de um ataque à liberdade de um grupo que não atacou a liberdade de ninguém.

Porém existem outras variáveis a considerar. O grupo A pretende defender um grupo C, que não tem modo de defesa próprio, e é certamente uma causa louvável tentar defender aqueles que não têm meios para o fazer por si. Alguns têm-lhe chamado uma questão de Cultura, eu chamar-lhe-ia uma questão de respeito pela liberdade.

A tauromaquia, da qual não me pressuponho especialista, mas enquanto ribatejana me considero conhecedora o suficiente para discutir, assenta numa tradição antiga, não numa onda de pensamento recente, e, como tal, qualquer proposta para a alterar irá esbarrar com o primeiro obstáculo: a intemporalidade da Cultura.

Mais do que um espetáculo, é uma arte, um modo de vida e um negócio, legítimo como muitos outros, do qual dependem milhares de pessoas e animais. Implementar touradas à “americana” no nosso Portugal poderia não afetar a prática do negócio, mas certamente será uma empresa extremamente difícil de lograr. Especialmente por um ponto: a proposta não provem do centro da questão mas de fora, de agentes que não são afetados pela tourada.

E a esses agentes será que esta proposta os saciará? O ponto que os defensores dos direitos dos animais constantemente reiteram é a necessidade de ser os animais enquanto seres dignos de respeito e portanto fins em si mesmos. Caso se continue a usar os mesmos para touradas, ainda que estes não sofram no processo, continua a ser uma quebra no raciocínio, pois o animal é instrumentalizado. É possível que a proposta seja suficiente para as mentes mais moderadas, mas ainda que satisfizesse parte dos defensores da abolição da tourada, não iria abranger a sua totalidade.

Por isso, na sua generalidade não satisfará nenhum dos lados. Os verdadeiros tauromáquicos acharão a proposta revolucionária e reagirão violentamente. Para os verdadeiros defensores da abolição da tourada esta proposta será insuficiente, pois perpetua uma tradição de uso de animais para gáudio das multidões.

O caso das touradas em Portugal é uma questão complexa e certamente continuará a ser: principalmente enquanto se continuar a acreditar que medidas populistas e inovadoras como, tentar legislar sobre aquilo que não lhes pertence.

Saúdo os membros do PS, embora do partido concorrente ao meu, pela intenção de apresentar uma proposta que pretende ser um meio-termo, uma conciliação entre dois pontos que se encontram em extremos opostos. Apesar de considerar que poderá ser uma medida que gradualmente se entranhe no ADN português, não acredito que o será por decreto oficial. Qualquer mudança real cultural deverá partir de quem cria a Cultura, e o seu criador não é certamente o Estado, mas as pessoas. Assim acredito que qualquer medida que seja imposta à tradição tauromáquica gerará apenas contrarreações. Pois tal como Montesquieu advogou, não é pelas leis e pela força que se alteram costumes, estes serão sempre defendidos por quem os pratica.

É do conhecimento geral que a sociedade atual tem uma necessidade quase doentia de celebrar grandes atos, grandes revoluções, momentos históricos: “o dia em que se ilegalizou o abate dos animais em canis”; “o dia em que se “liberalizou” o aborto”. Mas talvez neste ponto pudéssemos tomar uma perspetiva menos agressiva e esperar que a troca de ideias, o diálogo entre a tradição e o futuro, a Cultura portuguesa e a defesa dos animais, nos leve a dizer enquanto sociedade aberta e livre: “A tradição portuguesa mudou por si mesma, e hoje a tourada portuguesa não produz dano aos animais.”

Esta proposta talvez seja um primeiro passo nesse sentido, mas novamente sublinho, que não deveria partir do governo, mas sim das partes interessadas, pois são elas que irão reagir. Qualquer medida que seja implementada verticalmente não irá gerar uma mudança real, apenas um cumprimento legal, se tanto, e provavelmente irá criar mais discórdia, descontentamento e possivelmente contra reações.

Se permitirmos que seja necessário partidos legislarem sobre questões que nos concernem a nós, enquanto povo, teremos perdido toda a nossa capacidade de discernimento e, mais importante, a nossa liberdade. E tenho esperança que, enquanto sociedade civilizada, que tal se prove errado e que possamos chegar a acordo sobre esta questão que nos define.

Estudante de mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, 22 anos