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Não é preciso uma pesquisa extensa sobre o Hospital Conde de Ferreira para que levante o sobrolho à menos inquisidora das almas. Afinal, basta uma pequena “googlada” para perceber que a classificação de 2,9 estrelas que os internautas lhe atribuem consegue ser inferior à do McDonald’s da Amadora, com uma classificação de 3,9 estrelas.

Mas não nos deixemos ficar por críticas gastronómicas e hospitalares. Para quem gosta de um bom filme de terror, daqueles que nos deixam com pouca ou nenhuma esperança de voltar a dormir descansados, sugiro a visualização das reportagens da TVI “A vida no Conde de Ferreira” e “Espera sem Fim”, que para os estômagos mais fracos pode ser arriscada.

Pelas imagens e testemunhos, “A vida no Conde de Ferreira” começa a soar muito a um purgatório na terra, onde indivíduos que padecem de condições, mental, física e socialmente, debilitantes são votados a uma existência dura e fria, à espera de ativistas “IRAdos” que denunciem as injustiças a que estes são sujeitos e que não descansem enquanto não saciem a sua sede de responsabilização. Ativistas esses, que tardam em chegar.

Infelizmente, a história grotesca não é recente. Já em 2016 circulavam notícias relacionadas com denúncias e suspeitas de negligência aos pacientes da instituição. E, no entanto, quatro anos volvidos, com uma investigação no Ministério Público em curso, a TVI relata-nos situações sub-humanas, de utentes deitados no chão, ao abandono, em camas amontoadas – sem o distanciamento social mínimo que tanto apregoamos agora – com os corpos martirizados por escaras.

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Esta situação leva-me a perguntar se os doentes psiquiátricos não seremos nós. Não será a sociedade que está doente? Que perdeu o norte moral? A mesma sociedade que exige responsabilidades, justiça e cabeças a rolar pela morte de 540 javalis e veados, deixa passar pelas entrelinhas uma situação infernalmente desumana para com os seus semelhantes?

Num espaço de dias, os Portugueses levaram a que todos os meios de comunicação denunciassem o “holocausto da Azambuja”, mas onde esteve e continua a estar esse descontentamento e coragem após os primeiros sinais de alerta sobre as negligências perpetuadas contra os mais vulneráveis dos seus irmãos?

É fácil de entender o motivo desta desigualdade de valores, pois os utentes do Hospital Conde de Ferreira, e de outras instituições similares, não são fofinhos, não ficam bem nas fotografias, não dão lambidelas e quando urinam no sítio errado não podemos dizer “menino feio”. São dependentes, usam fraldas, são frágeis e, por isso mesmo, necessitam da nossa atenção e humanidade.

Grave seria se este fosse um caso isolado, mas não há adjetivos para descrever esta monstruosidade que nos caracteriza e que não passa apenas pela indiferença em relação aos doentes psiquiátricos e, ou, acamados, mas pela sistemática repulsa à fragilidade, pelo ódio à imperfeição e ao defeito, pelo nojo da velhice e pelo abandono dos mais fracos. Não fosse Portugal, um país que se recusa a criminalizar o abandono de idosos, mas que tanto luta pela legalização da eutanásia.

Ainda assim, as feridas abertas dos seres Humanos – sim com H grande – do Centro Hospitalar Conde de Ferreira, são pequenas comparadas com a úlcera moral da sociedade portuguesa, e questiono quanto mais tempo iremos ficar mudos e votar à amnésia as brutalizações e negligências perante aqueles que menos força têm para se defender? Quando é que se vão exigir responsabilidades pelos “gamos” do Conde de Ferreira?