Em 2024 o total da eletricidade gerada pelas tecnologias solar e eólica alcançou os 15% do total mundial. Apenas há cerca de 15 anos o contributo era cerca de 0% e os custos, nomeadamente dos painéis solares, caiu 90%. Trata-se de um sucesso impressionante do “receituário” da transição energética.
Em 2024 registou-se outro número impressionante: o consumo de carvão e petróleo foi o mais elevado da história… No que respeita ao petróleo, ultrapassou pela primeira vez os 100 milhões de barris /dia. Também em 2023 a emissão de gases com efeito de estufa foi na ordem das 37,4 Gton: em 2020 estávamos com 33,9 Gton e a meta para 2030 é de 21,2 Gton. Ou seja, em 5/6 anos é preciso reduzir em 40% as emissões…
Em 1990 as três fontes fósseis contribuíram com 85% da energia que alimentou o Mundo. Hoje são responsáveis por 80% e a quantidade “queimada” é bem superior. Claro que basta esta “ficha” para nos questionarmos sobre se estamos a conseguir uma transição do paradigma energético ou se “apenas” estamos a somar consumo, embora com emissões específicas menores?
Já por duas vezes a Humanidade se havia confrontado com este tipo de desafio.
A primeira começou no início do século XVIII, quando Darby percebeu que ganhava eficiência na metalurgia se substituísse a lenha pelo carvão. A viagem durou dois séculos, tendo o carvão superado o consumo de biomassa tradicional apenas no início do século XX.
A segunda começou com a descoberta de petróleo na Pensilvânia em 1859. Foram necessários cem anos para superar o carvão e, em 1960, o carvão queimado era apenas 30% do consumido em 2024.
Claro que as referidas transições ocorreram de forma “natural”, num contexto muito menos complexo em termos qualitativos e quantitativos, sem a pressão de urgência decorrente nomeadamente do espetro das alterações climáticas.
Temos de reconhecer que a atual transição, sendo uma necessidade incontornável, é muito mais complicada, onerosa e difícil do que se previa se tivermos em conta alguns entusiasmos e declarações políticas.
Não se trata de uma surpresa, já que os objetivos e metas em termos do clima não existem no “vácuo”, numa folha branca, coexistindo com as preocupações sobre a economia, o PIB, o desenvolvimento, a segurança energética, a poluição e o ambiente a nível local.
Além do mais convém não esquecer que a transição energética não é só sobre energia: em tudo, para obtermos um bem ou serviço, precisamos de “juntar” energia a um aparelho (eletricidade+lâmpada= luz; gasolina+automóvel= mobilidade; gás+caldeira=aquecimento; etc., etc.).
Assim, trata-se de reescrever, redesenhar, “reengenheirar” comportamentos, hábitos, equipamentos: um desafio, uma mudança sem precedentes. Essa mudança não será estável e linear. Será multidimensional, diferente em diferentes partes do Mundo, com ritmos diferentes, com diversas combinações de fontes e tecnologias e em competição com outros objetivos.
Como dizia J.M.Keynes, “não critiquemos as orientações por não serem lineares, retas”: a transição energética não é, não será linear, pelo que é preferível reconhecê-lo e atuar em conformidade em vez de nos lamentarmos.
Especialista em temas energéticos, antigo presidente da Endesa