1 Trumpeconomics

A vitória eleitoral  de Trump utilizou como um dos principais trunfos a promessa do aumento de poder de compra pois — e bem pude eu  testemunhar semanas antes das eleições — o custo dos bens e serviços correntes para o americano médio estavam muito elevados, em especial combustíveis e supermercados. Ora, a promessa de Trump baseou-se numa lógica simplista mas que convenceu o eleitor não esclarecido: o mal vem do exterior que prejudica a grande América pelo que a solução será lançar tarifas sobre as principais importações. Ora convém recordar que o paradigma proteccionista sempre atraiu muitos políticos e eleitores, e nós, portugueses, não nos podemos esquecer da máxima “ orgulhosamente sós” que imperou antes do 25 de Abril. Aliás, a administração Biden também foi pródiga em políticas proteccionistas, geralmente baseadas na subsidiação das empresas americanas e na atribuição de contratos públicos a empresas dos EUA mesmo quando outras, em especial, europeias, apresentavam melhores propostas sendo bem conhecido o caso de elevado contrato de companhia de aviação americana que ia adquirir os aviões à Airbus e cujo CEO recebeu telefonema do Presidente para comprar à Boeing o que veio a acontecer.

2 Proteccionismo ou Livres Trocas Comerciais?

O dilema de abrir mercados ou proteger as economias nacionais corresponde sempre a debate interessante pois a segunda opção poderá permitir temporariamente proteger setores nascentes ou evitar concorrência desleal de quem não garante proteção social ou ambiental, mas é o modelo da liberalização das trocas comerciais que permite que cada geografia se especialize em domínios específicos em que pode ser mais eficiente, e, por isso, competitiva, obtendo-se assim produtos finais mais vantajosos para todos os consumidores. Ora, tem sido esta evolução que tem permitido  a aceleração do desenvolvimento sempre que cada economia consegue identificar tais especializações mas, bem pelo contrário, se tal não acontecer começará aa declinar e, então, sempre surge a tentação de cerrar fronteiras, ou seja taxar ou mesmo proibir as trocas comerciais. Este debate tem ganho maior  acuidade desde que se desenvolveu o comércio online e a própria União Europeia é exemplo de aumento de barreiras quando passou a taxar e limitar as compras online vindas dos UEA ou até da irmã britânica. Todavia, também é interessante referir que, em geral, tais limitações revelam-se inúteis pois os vendedores abrem “lojas online na EU” tal como acontece com conhecidas marcas dos EUA como a I-Herb ou as famosas marcas chinesas TEMU, SHEIN ou ALIEXPRESS. Ou seja, novo desafio importante deste debate corresponde a saber se num mundo globalizado pela internet, pelo Google e pelo ChatGPT serão viáveis as barreiras entre mercados e Estados.

3 A Produção Industrial do Setor Automóvel

A história da indústria que permite a produção dos automóveis é, sem dúvida, das mais fascinantes pois representa e origina muito do que foi sendo vivido ao longo do século XX tendo tudo começado pela motorizações inciais de veículos como o quadricíclo de Henry Ford (1896), ou os modelos pioneiros nos EUA de Duryea (1893), Oldsmobile (1901) e Cadillac (1902), bem como os europeus de Karl Benz (1886),Peugeot (1891), e Panhard (1895) sendo todos eles produzidos artesanalmente em oficinas dos seus criadores. Ora a primeira grande revolução surge com Henry Ford em 1912/3 ao inventar o novo modelo T, depois de ter tido insucesso em todos os modelos anteriores nos quais foi esgotando as letras do alfabeto anteriores ao T, quando adota o conceito de linha de montagem tão bem caricaturizado por Charlie Chaplin no seu famoso filme Modern Times de 1936 (Fig. 1):

Charlot na linha de montagem

Neste modelo de produção, o automóvel é projetado, os materiais e peças são adquiridos e toda a sua construção é feita na fábrica da marca. Ora, desde o pós-guerra, com a crescente competitividade do setor, a incrível complexificação e diversificação tecnológica e os processos de globalização, a produção deste setor passou a basear-se no chamado modelo de Concurrent Engineering o qual consiste em decompor em nós especializados e diversificados no espaço, nas tecnologias e nas suas estruturas empresariais, a conceção e projeto, o procurement , a produção e o marketing, exigindo elevados níveis de coordenação e integração de modo a maximizar o valor final para o consumidor. Como é evidente, esta revolução foi ainda muito acentuada pela invasão da eletrónica no veículos atuais em que a sua incorporação é dominante e faz a diferença entre marcas  e modelos.

4 As novas tarifas de Trump

Segundo parece, embora já não possam surpreender novas alterações, a administração Trump irá aplicar nos próximos dias elevadas tarifas sobre importações deste setor o que irá penalizar fortemente este novo modelo de produção pelo que pode originar dois efeitos ambos adversos: retornar ao modelo de Chaplin, o que é pouco provável, ou aumentar muito o preço final do automóvel para o consumidor americano. Em declarações recentes, quando questionado, o Presidente americano referia que isto de haver idas e vindas pelas fronteiras para produzir um automóvel não fazia qualquer sentido o que é muito interessante pois, no fundo, confirma assim que a sua visão corresponde ao velho modelo inventado por H Ford o que talvez não surpreenda pois a sua experiência empresarial situou-se noutros setores, em especial, imobiliário, casinos e turismo. O problema é que o consumidor americano é muito dependente, até clinicamente falando, de quatro produtos: Coca-Cola, Fast food, combustível e… bons carros pelo que a inevitável e significativa subida de preços destes últimos vai prejudicar muito a popularidade dos Republicanos. E também as indústrias americana, europeia e asiática.