Precisamos ajudar os alunos e os pais a valorizar e a preservar a diversidade étnica e cultural que sustenta e fortalece esta comunidade – e esta nação. (César Chávez, sindicalista hispânico)

Uma das principais preocupações de quem vive e reflete a nossa diáspora nos Estados Unidos, concentra-se nos cursos de língua e cultura portuguesas nos currículos americanos.  Não é exagero dizer-se que a presença destes cursos, no seio das escolas e universidades americanas, é imperativa para a nossa sobrevivência como grupo étnico multifacetado, com uma longa história em terras do Tio Sam.  A sobrevivência, aliada aos emigrantes e descendentes de todos os países de língua portuguesa, tornam-nos numa força que representa mais de quatro milhões de habitantes neste colossal país.

Os cursos de língua portuguesa unem-nos em trono de um objetivo comum e são uma das melhores (se não a melhor) ferramentas ao nosso dispor para a integração, sem total diluição, da nossa comunidade no mundo americano, trazendo para o seio da nossa língua e culturas a multitude de etnias que compõem o multiculturalismo americano. O ensino da língua portuguesa e culturas lusófonas nos currículos americanos, como o escrevo desde 1995, coloca-nos em pé de igualdade com as outras línguas e culturas que vivem nos EUA. Daí que a nossa comunidade, independentemente da sua filiação político-partidária, deve sentir-se indignada com a decisão da administração do presidente Donald Trump, de matar um dos nossos únicos veículos nacionais para o crescimento dos cursos de língua e cultura portuguesas, o programa STARTALK em Português.

O projeto foi criado pelo Presidente George W. Bush, no ano de 2006, e entrou em vigor no verão de 2007, precisamente um ano antes de terminar o seu mandato.  É um programa federal com apoio a projetos ligados a oito línguas, consideradas críticas para a segurança e economia dos Estados Unidos.  Uma delas, a língua portuguesa.

A missão desta iniciativa é extremamente simples e efetiva: conseguir um número significativo de cidadãos americanos que aprendam, falem e ensinem algumas das línguas menos ensinadas nos EUA, mas consideradas importantes para a ligação americana ao mundo. STARTALK oferece aos alunos (desde o jardim infantil até à universidade) e aos professores dessas línguas experiências criativas e envolventes durante cada verão, exemplificando as melhores práticas no ensino de línguas estrangeiras e no desenvolvimento de proficiências e metodologias modernas para os professores dessas línguas. Com três objetivos principais: aumentar o número de alunos dessas línguas (incluindo, como se disse, a língua portuguesa); amplificar o número de professores dessas línguas e ampliar a acessibilidade aos educadores dessas línguas de materiais curriculares inovadores e atraentes, que sirvam as necessidades dos alunos americanos. Poderíamos pedir mais? Um programa pago pelo governo americano para aumentar o número de alunos, de professores e de materiais adequados à realidade norte-americana. Nem um bilhete premiado do totoloto seria tão benéfico, porque até este programa ser instituído, o ensino da língua portuguesa tinha estado, e volta a estar, nas mãos de cada comunidade.

A menos de uma década depois de ser instituído (os primeiros programas em português apareceram em 2011) e quando se começavam a ver resultados extremamente positivos, com programas para alunos em cidades americanas com forte concentração portuguesa, como Hilmar e San Diego na Califórnia, e em zonas onde tradicionalmente não temos comunidade, como Arlington no estado do Texas, e outros para educadores, da Virginia a Massachussets, do Utah a Maryland, sem explicação e sem razão, as duas tónicas dominantes na governação de Donald Trump, a língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo, com mais de 250 milhões de falantes em vários continentes (assim como o Darí, que é falado por cerca de 20 milhões de pessoas no Médio Oriente e o Suaíli, com cerca de 100 milhões de falantes em África), foi eliminada do programa STARTALK. Uma decisão estranha, vinda do NSA (National Security Agency), agência de segurança nacional, que tem, como é sobejamente sabido, fortes ligações ao congressista luso-descendente Devin Nunes, cujos avós foram emigrantes dos Açores. Repentinamente, e sem qualquer explicação, a administração de Donald Trump matou um programa nacional que tinha tido mais de 122 projetos em oito anos de existência, os quais beneficiaram, tremendamente, o ensino da língua portuguesa e a formação de professores nos Estados Unidos da América. Uma multitude de projetos que sempre recebeu os maiores elogios dos participantes e que entrava agora numa nova fase, preparando cada vez mais cursos de língua portuguesa para falantes do espanhol, os alunos hispânicos, que na Califórnia, por exemplo (e em muitas outras zonas), são a razão do sucesso dos cursos de língua portuguesa e culturas lusófonas a nível secundário e universitário.

Ainda mais estranho, tem sido o silêncio e a falta de indignação comunitária e, acima de tudo, das entidades portuguesas. Se não fosse a insistência da organização nacional PALCUS (Portuguese-American Leadership Council of the United States) junto das entidades luso-americanas; de meia-dúzia de ativistas que dão sempre a cara pelo ensino da língua portuguesa, mesmo quando são açoitados por Portugal; do congressista luso-americano Jim Costa, que tem feito alguma pressão, a decisão teria sido recebida com a maior normalidade.

Não compreendo, nem nunca compreenderei, porque é que as entidades portuguesas não levam o caso às mais altas instâncias deste país, porque não foram pedidas audiências junto da presidência, onde foi tomada a decisão, junto de quem, no mundo americano, está ligado à Agência de Segurança Nacional que gere o programa.  Teria sido muito importante ver-se, constantemente, todas as semanas, a realização de uma ofensiva do mundo do poder português que, pelo que podemos ver e ler na comunicação social, infelizmente, está mais interessado em disseminar alguns desígnios fictícios. A validade do STARTALK em português, baseada no que já foi feito, e no que ainda se poderá fazer, merecia outra reação. Não basta andarmos por aí a citar a célebre frase de Pessoa: a minha pátria é a língua portuguesa.

Essa resistência, como já o devíamos saber, só virá se a comunidade assim o entender. Há uma palavra de estímulo para a PALCUS, que foi a única organização comunitária a movimentar-se, e continua, embora  ainda não tenham encontrado o fruto desejado em quem teria voz direta no assunto. É mais do que óbvio que terá de ser a comunidade a ter uma palavra e uma palavra coesa e robusta.  É mais do que óbvio que não podemos contar com os poderes centralistas e eurocêntricos para nos defender. É mais do que óbvio que as regiões autónomas, muito mais perto das suas comunidades, podem ser parceiras importantes nesta luta.  É que, apesar do ensino da língua portuguesa não ser da sua competência, os Açores sempre foram apoiantes incessantes de tudo o que beneficia alunos e professores. É mais do que óbvio, que em tempo de eleições devemos, como comunidade, fazer um balanço do trabalho que os luso-eleitos fazem, ou não fazem, pelo ensino da língua e cultura portuguesas, pelos verdadeiros interesses da nossa comunidade, do nosso legado cultural.  E é mais do que óbvio, que quem ainda não votou para as eleições presidenciais americanas a 3 de novembro, e para quem a nossa comunidade tem algum significado, incluindo o nosso legado linguístico e cultural, deve recordar-se, nesse momento sagrado do processo democrático, que Donald Trump matou os cursos de português no STARTALK.

O ensino da língua portuguesa nos currículos americanos, a reativação e o florescimento de projetos válidos, como o STARTALK, estão acima de qualquer percurso carreirista ou de qualquer momento de fotografia oportuna com ou entre entidades públicas. Todos nós, emigrantes e luso-descendentes, que acreditamos e lutamos pela presença portuguesa e lusófona nos EUA, temos responsabilidades nesta matéria. Como em todas as lutas, o silêncio não é opção. Não deixemos que o ensino da língua e cultura portuguesas seja mais uma das múltiplas vítimas assediadas por Donald Trump.