Na semana passada, algumas eleições nos EUA despertaram a atenção dos media internacionais, incluindo em Portugal. Ao contrário das eleições intercalares, que ocorrem sempre em anos pares, dois anos depois das eleições presidenciais, estas foram eleições off-cycle para vários cargos locais e estaduais. Foram eleitos muitos mayors (presidentes da Câmara) pelo país fora e também dois governadores dos estados da Virgínia e de New Jersey, seis assentos legislativos da Câmara dos Representantes (de representantes que morreram ou se demitiram desde o ano passado), bem como inúmeros cargos locais e estaduais e perguntas a referendo.
Apesar de poder parecer um volume elevado de eleições, na verdade tratou-se apenas de um conjunto muito específico e reduzido de contendas. Em Novembro do ano passado e em Novembro do próximo ano, o número de eleições será extraordinariamente superior e com uma cobertura geográfica verdadeiramente nacional e representativa da população. Importa afirmar isto porque vi muitos analistas e observadores caírem no erro de olhar para estas eleições como se fossem eleições intercalares. Não são.
Não podemos inferir tendências sobre o eleitorado nacional a partir de resultados de eleições off-cycle que ocorreram em poucos estados, na sua maioria de tendência Democrata. Desde logo, porque o perfil de eleitor que vai votar em eleições off-cycle é totalmente diferente do eleitorado geral. Apenas eleitores muito interessados em política, ou eleitores descontentes com o presidente eleito no ano anterior, tendem a mobilizar-se para votar. É por isso que, em eleições off-cycle, costuma ganhar o partido oposto ao partido que ganhou as presidenciais do ano anterior. Assim, ainda que a tendência geral tenha sido um swing contra os Republicanos face à votação de Trump no ano passado, os Democratas não podem daqui inferir que vão ter uma vitória daqui a um ano, como tiveram em 2018. Também não é certo que Donald Trump se irá moderar nos próximos 12 meses por causa destes resultados.
Zohran Mamdani, um político jovem de 34 anos e imigrante muçulmano, foi o nome mais badalado da noite na imprensa nacional e internacional, ao conquistar o cargo de mayor da cidade de Nova Iorque, a maior cidade do país, que governa cerca de 8,5 milhões de habitantes. O principal feito de Mamdani foi mesmo ter ganho a primária do partido Democrata vindo da ala mais à esquerda e socialista do partido e tendo posições sobre o conflito israelo-palestiniano bem mais à esquerda do que o establishment do partido Democrata (e do que a grande maioria do espectro político norte-americano). Uma vez ganhas as primárias, vencer a eleição geral na cidade de Nova Iorque, um sítio muito pró-Democrata, não seria difícil. Ainda que Andrew Cuomo, ex-governador do Estado de Nova Iorque, tenha decidido concorrer às eleições gerais como candidato independente, a sua reputação em NYC está bastante gasta pelas alegações de assédio sexual de 11 mulheres e pela pertença a uma “velha” dinastia política.
Apesar de Mamdani ter vencido a eleição em Nova Iorque, para surpresa de uns e frustração de outros, vale a pena sublinhar vários aspectos. Ainda que a eleição de um socialista declarado, sob a alçada de um grande partido, fosse impensável na política norte-americana até há pouco tempo, a verdade é que os resquícios das leis da política americana que operaram durante a Guerra Fria são cada vez mais curtos. Afinal de contas, Donald Trump também é produto dessa mesma tendência, com posições internacionais muito diferentes daquelas que o partido Republicano defendia nessa era. As regras mudaram.
No entanto, a prestação eleitoral de Mamdani ficou bem aquém da dos últimos dois mayors de Nova Iorque, também eleitos pelo partido Democrata. Em 2021, Eric Adams teve quase 67% dos votos e, em 2017, Bill de Blasio teve 66% dos votos. Este ano, Mamdani teve 50,4% – ou seja, menos 16 pontos percentuais do que um candidato genérico Democrata pode esperar ter em NYC. Isto significa que, apesar do seu feito inegável, Mamdani está longe de ser uma escolha consensual mesmo dentro do partido Democrata, numa das cidades mais progressistas do país.
Portanto, deve o partido Democrata apostar em figuras como Mamdani para a política nacionalizada e quiçá para a eleição de 2028? Penso que já respondi à questão no parágrafo anterior. Se Mamdani teve menos 16 pontos percentuais em Nova Iorque, quando comparado com as últimas vitórias do partido Democrata na mesma eleição, parece-me irrealista pensar que conseguiria recuperar os votos necessários nos estados competitivos, que alternam entre os dois partidos, como o Wisconsin, a Pensilvânia, o Michigan, o Arizona ou a Geórgia. Já nem falo de estados como o Ohio ou a Florida que costumavam ser competitivos mas que os Democratas não ganham desde as vitórias expressivas de Barack Obama. E, claro, Mamdani tem ainda de governar e mostrar que consegue implementar algumas das suas propostas mais difíceis.
No mesmo dia da eleição de Mamdani, foram eleitas para governadoras da Virgínia e de New Jersey duas democratas moderadas, Abigail Spanberger e Mikie Sherrill. Ambas se apresentam com um perfil bastante diferente do de Mamdani: também fizeram campanha em torno do tema do aumento do custo de vida, mas são pragmáticas e mais centristas. Ambas têm experiência profissional em matérias de segurança e defesa (uma na CIA, outra na Marinha), dando confiança a eleitores que costumam desconfiar mais do partido Democrata nestas matérias. Spanberger cresceu quase 10 pontos percentuais em relação à última eleição.
Será este, então, o caminho para os Democratas? Nos dias após a eleição, intensificou-se o debate sobre o reposicionamento ideológico e a estratégia política dos Democratas. O debate tem vindo a ocorrer de forma intensa desde a vitória de Trump. Resumidamente, a principal questão prende-se com o papel e a eficácia da moderação – será que a moderação ideológica é a melhor estratégia para os Democratas reconquistarem eleitorado perdido para Trump?
De acordo com um velho teorema da política, numa eleição com dois partidos, ganha o partido que conseguir conquistar o eleitor mediano, isto é, o eleitor que se encontra a “meio” entre o lado esquerdo e o lado direito do espectro político. Segundo esta lógica, um partido que perdeu as últimas eleições deve tentar reencontrar-se com o eleitor mediano. Ou seja, deve procurar candidatos mais moderados. Vários analistas do partido Democrata e da política norte-americana têm feito esta sugestão. A dificuldade, claro, está em saber quais os assuntos concretos onde executar essa “moderação” sem perder a identidade partidária nem a mobilização do seu próprio eleitorado.
Outros analistas têm rebatido que este teorema não parece resultar nas últimas décadas da política norte-americana. Argumentam que o partido Republicano, desde 2010 e sobretudo desde a eleição de Donald Trump, não se moderou ideologicamente, mas ainda assim conseguiu ser bem-sucedido. Barack Obama, quando surgiu em 2007 nas primárias do partido Democrata, também não se apresentou como representante de uma moderação ideológica do partido após os anos da presidência Bush. Segundo estes analistas, mais relevante do que moderar posições em temas específicos e visíveis no debate político é conseguir mudar os temas que dominam a agenda ou a perspectiva a partir da qual são discutidos.
Quem tem razão? Para responder, é necessário distinguir entre tipos de eleição, geografias eleitorais e horizontes temporais. No curto e médio prazo, nas centenas de eleições para o ramo legislativo federal e para cargos estaduais e locais, partidos e candidatos precisam de se adaptar ao contexto de cada zona e representar as opiniões, ideologias e prioridades do respectivo eleitorado local. Como argumenta o colunista norte-americano Ezra Klein, isto daria origem a partidos com uma diversidade muito maior de opiniões e capazes de reflectir a vasta geografia política do país, ao contrário dos actuais partidos, marcados por uma homogeneidade ideológica excessivamente rígida e simplista. De facto, o próprio sistema institucional norte-americano foi desenhado para acolher partidos com essa diversidade interna.
No entanto, para as grandes eleições nacionalizadas, como é a presidência, é essencial conciliar posicionamentos ideológicos aceitáveis para a maioria do eleitorado com um enorme carisma pessoal. Não basta recorrer a um cálculo algorítmico baseado em sondagens, moldar a plataforma à opinião do eleitor mediano dos estados decisivos e, no fim, agregar posições em dezenas de assuntos. O carisma pessoal e a inovação política são fundamentais, sobretudo a capacidade de introduzir novos temas no debate nacional, que passam a ficar associados a determinados candidatos. A isto soma-se ainda o poder do voto de desilusão com a economia contra as administrações em funções, uma constante fundamental em política e que contribuiu para as eleições de Obama em 2008, Biden em 2020 e Trump em 2024.