No dia 11 de Janeiro, o PSD vai a eleições diretas. E neste tempo de eleições internas eu admito que tenho saudades dos Congressos Eleitorais.

Talvez este saudosismo do Congresso eleitoral seja apenas um gosto próprio. Que o que me entusiasma é aquela Política que desafia o contraditório, onde se desfaz a insinuação pequenina; onde se “pega de caras” – cara a cara.

Se hoje fosse o Congresso Eleitoral, eu iria falar do que aconteceu em Janeiro – quando Luís Montenegro desafiou Rui Rio a antecipar as diretas. Não gosto dos “elefantes na sala” e quando sabemos o que queremos e ao que vamos, a sua manutenção só serve a quem até sabe bem o que quer para si (e, conforme dê jeito, logo se vê ao que vem.)

Em Janeiro, Luís Montenegro desafiou Rui Rio a antecipar as diretas – pela interrupção de um rumo que, manifestamente, não se assemelhava ao seu.

Porque este é o mesmo Luís Montenegro que presidiu a um Grupo Parlamentar a quem se impunha regras difíceis para tempos difíceis, que não admitiam menos do que o máximo de cada um. O mesmo Luís Montenegro que liderou essas pessoas, para lá do que as diferenciava – que as uniu e manteve coesas numa tarefa que tantas vezes era de uma violência imensa. Pode gostar-se mais ou menos dele. Mas dele não se pode negar a elevação da combatividade assertiva; a maturidade política de quem esteve na linha da frente sem “estados de alma” mais importantes que a Missão; o sentido de Estado e a lealdade ao PSD no momento em que a facilidade (?) levou tantos a demarcarem-se. Um Presidente, não vacila. Um Líder, não se demarca da marca que lidera – mesmo com o que dela gostar menos. Por mais conveniente que possa parecer.

Por saber tudo isto sobre ele, é fácil compreender o “desacomodar” do desafio direto (e sem subterfúgios) que fez a Rui Rio.

Estou à vontade: fui frontal e assumidamente contra a antecipação das diretas. Entendi que Rui Rio estava, de facto, a ser relativamente fiel àquilo com que se apresentara – estratégia em que não votei, que não apoiei e com a qual nunca concordei, mas que ganhara o direito democrático de ser levada até ao fim e ser posta à prova pelos portugueses, que a demonstrariam vencedora ou não. E demonstraram.

Deixei claro o que pensava desde o início – também sem subterfúgios – e é talvez por isso que tanto gostava que o pudéssemos discutir “cara-a-cara” ao dia de hoje. Na cara dos que seguem (como quem não quer a coisa) uma expectável estratégia de vitimização e tentam colar a um desafio direto e assumido uma suposta “prova de deslealdade” – num partido onde por tudo se evoca Sá Carneiro, justamente um inconformado, um desafiador.

Para mim, o Presidente eleito devia cumprir o mandato até ao fim. Paradoxalmente, se Luís Montenegro não tivesse agarrado “esse” toiro pelos cornos, na convicção do que estava para vir, talvez não lhe reconhecesse o tanto que lhe reconheço como essencial à Presidência – e à Liderança – do PSD.

Ora, chegou esse Fim. E é tempo do Fim das obsessões com as “caixas ideológicas” numa social democracia cuja riqueza é a de ser para lá das “caixas”. A reformista – num combate poderoso e incansável. A que não confunde responsabilidade com “oposição cega” – mas que sabe que combater sem tréguas um PS que já demonstrou à exaustão ao que vem é a responsabilidade maior. Por muito boa que seja a propaganda, por muito difícil que pareça o desafio. A social democracia que não dispensa ninguém – porque o todo é tão mais importante que a pequena parte.

Não há Congresso eleitoral onde possa dizer isto. Mas também admito: é a eleição direta que permite a cada militante, na sua decisão pessoal e intransmissível, escolher o Presidente do seu Partido – na convicção de que será, mais que isso, o seu Líder.

O Luís Montenegro, antes e agora, respeitou de forma ímpar a minha individualidade e a Liberdade de defender o que penso. Mesmo – e sobretudo – quando não coincidimos. Talvez ele não saiba. Mas esse Valor é incomensurável. E torna a decisão de o apoiar, no fim do dia, tão simplesmente óbvia.